Akira Kurosawa – O Luminoso

Akira Kurosawa – O Luminoso

Um imperador reverenciado no planeta inteiro e desprezado por seu próprio povo. Um samurai que expressava tal fragilidade a ponto de, na infância, chegar a ser chamado pelo humilhante apelido de Kompeito-san, uma alusão aos confeitos que se derretiam tal como o menino que se desmanchava em lágrimas diante da rigidez do sistema educacional japonês. Contradições de um espírito com inequívoca vocação para o conflito. Um cineasta com fama de rígido, mas de cujas mãos surgiram peças delicadas, como Sonhos e Madadayo. Um diretor de cenas complexas, mas incapaz de dirigir um automóvel. Akira – “O Luminoso”, em japonês – sempre buscou a diferença. Nascido no ano 13 da era Meiji (1910), descendente de uma família de samurais, passou a vida confeccionando sonhos em celulóide. Tentou a carreira de artista plástico, mas foi reprovado na Escola de Belas-Artes. Mais tarde, depois do que classificou como sua “fase rebelde”, integrou os estúdios cinematográficos Toho, em 1936. O início foi como roteirista e logo passou a assistente de direção de Kajirô Yamamoto – que ele carinhosamente chamava de Yama-san. Seu primeiro filme foi Sugata Sanshiro (A Lenda do Judô), de 1943, que contava a história de um genial judoca que vivia de forma desordeira. Kurosawa teve uma intuição instantânea ao saber sobre o livro de Tsuneo Tomita que deu origem ao filme. Sem nem mesmo o haver lido, solicitou aos estúdios Toho que comprassem os direitos do livro. Sucesso. Os filmes seguintes foram Ichiban Utsukushiku (A Mais Bela, 1944), em que deixa florescer sua face esquerdista e feminista – isso em um país que não possui em seu vocabulário a palavra querida. Nenhum Pesar por Nossa Juventude e Um Domingo Maravilhoso são retratos do Japão pós-guerra e evocam o neo-realismo italiano. Cidadão do mundo, Kurosawa bebeu na arte e na cultura ocidentais, sem maiores temores. “Não importa para onde eu vá, e embora não fale outra língua, nenhum lugar é estranho o suficiente para mim. Sinto que a Terra é meu lar”, disse em seu “Relato Autobiográfico” (publicado no Brasil pela editora estação Liberdade). Suas incursões foram além da música de Beethoven, Haydn e Schubert, que usou em trilhas sonoras de seus filmes. Apaixonado por Shakespeare, filmou Ran e Trono Machado de Sangue, respectivamente adaptações de Rei Lear e Macbeth; além de O Idiota, inspirado da obra de Dostoiévsky, e Ralé, adaptado na obra de Gorki. Transcendeu a gêneros, períodos e nacionalidades, sem jamais relegar a segundo plano a sua própria cultura, aquele peculiar jeito nipônico, manifestado na movimentação dos atores, nas caracterizações de personagens de teatro Nô, em sua obsessão por cenários e roupas absolutamente autênticos e nas adaptações que fez de peças do teatro Kabuki, das quais um belo exemplo é “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”. Mas nada se compara a seu amor pela personalidade controversa e pela obra genial de Vincent Van Gogh. O episódio “Os Corvos”, do filme Sonhos, é uma amostra de um desejo manifesto que Kurosawa deixou irrealizado: filmar a biografia do pintor…

Avaliação

Contradições de um espírito com inequívoca vocação para o conflito. Um cineasta com fama de rígido, mas de cujas mãos surgiram peças delicadas, como Sonhos e Madadayo.

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Um imperador reverenciado no planeta inteiro e desprezado por seu próprio povo. Um samurai que expressava tal fragilidade a ponto de, na infância, chegar a ser chamado pelo humilhante apelido de Kompeito-san, uma alusão aos confeitos que se derretiam tal como o menino que se desmanchava em lágrimas diante da rigidez do sistema educacional japonês. Contradições de um espírito com inequívoca vocação para o conflito. Um cineasta com fama de rígido, mas de cujas mãos surgiram peças delicadas, como Sonhos e Madadayo. Um diretor de cenas complexas, mas incapaz de dirigir um automóvel.

Akira – “O Luminoso”, em japonês – sempre buscou a diferença. Nascido no ano 13 da era Meiji (1910), descendente de uma família de samurais, passou a vida confeccionando sonhos em celulóide. Tentou a carreira de artista plástico, mas foi reprovado na Escola de Belas-Artes. Mais tarde, depois do que classificou como sua “fase rebelde”, integrou os estúdios cinematográficos Toho, em 1936. O início foi como roteirista e logo passou a assistente de direção de Kajirô Yamamoto – que ele carinhosamente chamava de Yama-san. Seu primeiro filme foi Sugata Sanshiro (A Lenda do Judô), de 1943, que contava a história de um genial judoca que vivia de forma desordeira. Kurosawa teve uma intuição instantânea ao saber sobre o livro de Tsuneo Tomita que deu origem ao filme. Sem nem mesmo o haver lido, solicitou aos estúdios Toho que comprassem os direitos do livro. Sucesso.

Os filmes seguintes foram Ichiban Utsukushiku (A Mais Bela, 1944), em que deixa florescer sua face esquerdista e feminista – isso em um país que não possui em seu vocabulário a palavra querida. Nenhum Pesar por Nossa Juventude e Um Domingo Maravilhoso são retratos do Japão pós-guerra e evocam o neo-realismo italiano.

Cidadão do mundo, Kurosawa bebeu na arte e na cultura ocidentais, sem maiores temores. “Não importa para onde eu vá, e embora não fale outra língua, nenhum lugar é estranho o suficiente para mim. Sinto que a Terra é meu lar”, disse em seu “Relato Autobiográfico” (publicado no Brasil pela editora estação Liberdade). Suas incursões foram além da música de Beethoven, Haydn e Schubert, que usou em trilhas sonoras de seus filmes. Apaixonado por Shakespeare, filmou Ran e Trono Machado de Sangue, respectivamente adaptações de Rei Lear e Macbeth; além de O Idiota, inspirado da obra de Dostoiévsky, e Ralé, adaptado na obra de Gorki. Transcendeu a gêneros, períodos e nacionalidades, sem jamais relegar a segundo plano a sua própria cultura, aquele peculiar jeito nipônico, manifestado na movimentação dos atores, nas caracterizações de personagens de teatro Nô, em sua obsessão por cenários e roupas absolutamente autênticos e nas adaptações que fez de peças do teatro Kabuki, das quais um belo exemplo é “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”.

Mas nada se compara a seu amor pela personalidade controversa e pela obra genial de Vincent Van Gogh. O episódio “Os Corvos”, do filme Sonhos, é uma amostra de um desejo manifesto que Kurosawa deixou irrealizado: filmar a biografia do pintor holandês. Em Sonhos, fez o que todo amante da obra do mestre holandês adoraria fazer: caminhar entre os dourados campos de trigo sob a sombra dos negros corvos pintados por Van Gogh.

O tempo trouxe refinamento e desejo de romper mais barreiras. Rashomon (1950) apresentou inovações que marcaram a história do cinema. Eram os primeiros vôos de grande alcance de um cineasta que jamais se conformou com o senso comum. Em Rashomon  – Grande Prêmio do Festival de Veneza de 1951 –  pela primeira vez uma câmera (a do magnífico Kazuo Miyagawa) filmou o sol. Quatro anos mais tarde, Hollywood rendeu-se ao seu talento refilmando o antológico Os Sete Samurais, cuja seqüência da batalha final, filmada sob chuva torrencial e de uma impressionante variedade de ângulos, tornou-se mais um marco cinematográfico. O americano John Sturges transformou a saga japonesa no western Sete Homens e um Destino, mas nem mesmo a presença do eterno cowboy John Wayne foi capaz de fazer frente ao original de Kurosawa.

O ano 21 da era Showa (junho de 1946) havia lhe trazido aquele que viria ser o mais espetacular ator de todo o cinema japonês. Durante os testes para  O Anjo Embriagado conhece Toshiro Mifune. A ele Kurosawa dedica os mais esfuziantes elogios em sua autobiografia. Nada havia preparado o imperador para a explosão cênica chamada Mifune. O impacto de sua presença impressionou Kurosawa desde o primeiro momento, como conta o diretor: “Abri a porta e fiquei paralisado de deslumbramento. Um jovem estava girando pela sala em violento frenesi. Era tão assustador quanto observar um animal selvagem ferido ou preso em uma armadilha, tentando libertar-se. Fiquei petrificado. Mifune tinha uma espécie de talento que nunca antes encontrei no mundo cinematográfico japonês”.

A partir do primeiro filme, sempre estiveram juntos. Na semana do lançamento de seu último filme, Madadayo, questionado porque não havia usado Mifune em seus dois últimos filmes, Kurosawa reagiu, afirmando que o ator era um de seus mais queridos amigos e que pretendia usá-lo em outras produções. A última aparição pública de Akira Kurosawa ocorreu justamente no sepultamento de Mifune, em dezembro de 1997.

O ocidente já o reconhecia como mestre e mago. Era o imperador do cinema japonês, mas o Japão insistia em não compreendê-lo. Acirravam-se as acusações de ser ocidental demais – anglo-americano particularmente – e os financiamentos para novos filmes tonavam-se cada vez mais difíceis. “Havia sempre um anjo em minha vida”, costumava dizer, referindo-se à sorte que dizia acompanhá-lo. Em 22 de dezembro de 1971, ano 46 da era Showa, o anjo que o protegia perdeu espaço para o desespero e Kurosawa tentou o suicídio, deprimido com a incompreensão de seu próprio povo e as críticas que recebia. No ano seguinte, morre Yama-san. O socorro veio do exterior, mais precisamente da ex-União Soviética, onde filmou em 1974 o aplaudido Dersu Uzala. Sobre essa experiência, disse Kurosawa: “Um desses salmões, não vendo outro caminho, empreendeu uma longa jornada para subir um rio soviético e dar à luz algum caviar. Assim surgiu meu filme Dersu Uzala em 1975. Nem eu penso que seja essa uma coisa ruim. Mas o mais natural, para um salmão japonês, é pôr seus ovos em um rio japonês” Referia-se ao fato de que sempre se considerou um “salmão, que jamais esquece o lugar que nasce”, e sobre a opção da indústria cinematográfica em fazer filmes mais próximos do modelo indicado para a televisão.

No ano 51 da era Showa, finalmente o governo japonês reconhece sua contribuição à cultura. Kagemusha levou o grande prêmio do Festival de Cannes em 1980. E em 1990, ano 2 da era Heisei, recebe o Oscar Honorário pelo conjunto de sua obra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Sua vida pontuou seus filmes. Foi autobiográfico sempre. Em muitos momentos, a personalidade do diretor mergulhou no mundo de celulóide, renascendo nas almas dos personagens. Assim foi na radiografia da sensibilidade oculta de um burocrata e seus pares em Viver. Sua reverência ao professor da escola primária pôde ser (re)vista em celulóide em Madadayo, na história do mestre universitário Hyakken Ushida e sua relação com os ex-alunos. No último episódio de Sonhos revive sua passagem pela aldeia Tokoyawa, cinqüenta anos antes.

O mais tocante e belo em toda a obra de Kurosawa está justamente na grandeza de sentimentos. Seus últimos filmes, Sonhos, Rapsódia em Agosto e Madadayo são pinceladas intimistas sobre a velhice, a morte, o tempo. Perguntado sobre o que faria se tivesse o poder de influenciar a sociedade e mudá-la”, ele disse simplesmente: “Daria o melhor de mim para aproveitar minhas habilidades como artista. Eu sou feliz porque tenho a chance de me expressar. Eu me sinto responsável, verdadeiro e honesto para com minha profissão e estou consciente disso. Eu estou primeiro lidando com a sociedade japonesa e tentando ser cândido ao lidar com nossos problemas. Eu espero que você entenda isso sobre mim quando vir o filme. Como um contador de histórias, não tenho segredos”.

“Não é suficiente para eles  saber que um artista expressou-se livremente  com a ajuda de uma câmera e de um microfone. Eles querem saber que homem é esse artista”(Jean Renoir, cineasta, 1894-1979)

“Não há nada que diga mais a respeito de um criador do que sua própria obra”.  (Akira Kurosawa)

Por Sônia Zaghetto

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