Dois Irmãos, um Amor: a Música dos Assad

Dois Irmãos, um Amor: a Música dos Assad

Quando a música inicia, é inevitável o arrepio, a mão suada, a respiração curta. Já não são mais os meninos pobres que estudavam obsessivamente para polir o talento natural. Diante do público estão os lendários irmãos do Duo Assad, a nobreza do violão. E eles não desapontam. Ouvi-los é uma experiência de encantamento. Vê-los, arrebatador. Odair fecha os olhos. Enquanto os dedos se movimentam ágeis, precisos como sempre, a alma já escapou para um lugar secreto. Por vezes, encosta o queixo no violão e instintivamente sei que é um gesto de afeto. O mesmo afeto que surge quando ele agradece os aplausos entusiasmados: no olho e no gesto, aponta para o instrumento, indicando, sem palavras, a quem atribui toda a graça. Sérgio toca buscando algo acima da cabeça. Ergue os olhos, agita-se, a música está dentro dele, inquieta, pronta para escapar pelos dedos. Enlaça o violão e inicia com a Música um jogo amoroso de contenção e concessão: ela pulsa, ele sorri; ele determina, ela obedece; ela pede, ele atende; ele toma as rédeas, ela cede. São um casal voluntarioso e apaixonado em um romance que parece não ter fim. Quer a chave para a performance do Duo Assad? Técnica sim; esforço, sem dúvida; dedicação total e experiência, claro. Mas vá além. Tente mergulhar no imponderável a fim de achar explicação para o resultado que impressiona gente do mundo inteiro. E esse imponderável é uma conexão profunda com a música. Não executam peças, não há espaço para a ação mecânica. Tudo neles se torna superlativo quando tocam. Artistas performáticos há dúzias: impressionam com gestos espetaculares, demonstrações miraculosas de habilidade, dão espetáculo para embasbacar os incautos. E é só. Não espere isso dos Assad. Basta ouvi-los para perceber que há um sentimento real pela música, traduzido pelo som limpo de um violão exato, fidelíssimo ao autor, mas simultaneamente… pessoal. Único. Tocam de olhos bem fechados, mas, quando cruzam os olhares, um mundo de comunicação ocorre entre eles. E se conhecem tanto que se guiam pelo olhar, pela respiração, pelo modo como se move o outro. Gêmeos. Sérgio e Odair Assad nasceram no interior de São Paulo. A família mistura origens libanesa e italiana, com algumas gotas de sangue português para dar aquela melancolia lusitana que faz toda a diferença. Basta vê-los para adivinhar temperamentos diametralmente opostos. Odair é tango, música flamenca. Os olhos fuzilam. Todo ele frêmito, temperamento forte. Toca abraçado ao violão, cheio de paixão mal contida, absolutamente consciente de seu talento avassalador; Sérgio é valsa brasileira, bossa nova, mas nada de imaginá-lo apenas suavidade. Tem olhos de menino sonhador, mas não consegue esconder que transborda intensidade e um completo domínio de sua arte. Nas master classes cantarola para que os alunos sintam o fluxo da melodia, descubram o sentido da música, deixem aflorar a alma do compositor. Gentilmente, vai desvelando a música escondida na partitura. Nos irmãos do Duo Assad permanecem, ainda hoje, os traços dos garotos do interior. Simplicidade, uma alegria moleca, uma cumplicidade que tempo e distância…

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Quando eles começam a tocar é inevitável o arrepio. Diante do público estão os lendários irmãos do Duo Assad, a nobreza do violão. Leia a entrevista exclusiva de Sérgio Assad a Artelivre.

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Quando a música inicia, é inevitável o arrepio, a mão suada, a respiração curta. Já não são mais os meninos pobres que estudavam obsessivamente para polir o talento natural. Diante do público estão os lendários irmãos do Duo Assad, a nobreza do violão. E eles não desapontam. Ouvi-los é uma experiência de encantamento. Vê-los, arrebatador.

Odair fecha os olhos. Enquanto os dedos se movimentam ágeis, precisos como sempre, a alma já escapou para um lugar secreto. Por vezes, encosta o queixo no violão e instintivamente sei que é um gesto de afeto. O mesmo afeto que surge quando ele agradece os aplausos entusiasmados: no olho e no gesto, aponta para o instrumento, indicando, sem palavras, a quem atribui toda a graça.

Sérgio toca buscando algo acima da cabeça. Ergue os olhos, agita-se, a música está dentro dele, inquieta, pronta para escapar pelos dedos. Enlaça o violão e inicia com a Música um jogo amoroso de contenção e concessão: ela pulsa, ele sorri; ele determina, ela obedece; ela pede, ele atende; ele toma as rédeas, ela cede. São um casal voluntarioso e apaixonado em um romance que parece não ter fim.

Quer a chave para a performance do Duo Assad? Técnica sim; esforço, sem dúvida; dedicação total e experiência, claro. Mas vá além. Tente mergulhar no imponderável a fim de achar explicação para o resultado que impressiona gente do mundo inteiro. E esse imponderável é uma conexão profunda com a música. Não executam peças, não há espaço para a ação mecânica. Tudo neles se torna superlativo quando tocam. Artistas performáticos há dúzias: impressionam com gestos espetaculares, demonstrações miraculosas de habilidade, dão espetáculo para embasbacar os incautos. E é só.

Não espere isso dos Assad. Basta ouvi-los para perceber que há um sentimento real pela música, traduzido pelo som limpo de um violão exato, fidelíssimo ao autor, mas simultaneamente… pessoal. Único.

Tocam de olhos bem fechados, mas, quando cruzam os olhares, um mundo de comunicação ocorre entre eles. E se conhecem tanto que se guiam pelo olhar, pela respiração, pelo modo como se move o outro. Gêmeos.

Sérgio e Odair Assad nasceram no interior de São Paulo. A família mistura origens libanesa e italiana, com algumas gotas de sangue português para dar aquela melancolia lusitana que faz toda a diferença. Basta vê-los para adivinhar temperamentos diametralmente opostos. Odair é tango, música flamenca. Os olhos fuzilam. Todo ele frêmito, temperamento forte. Toca abraçado ao violão, cheio de paixão mal contida, absolutamente consciente de seu talento avassalador; Sérgio é valsa brasileira, bossa nova, mas nada de imaginá-lo apenas suavidade. Tem olhos de menino sonhador, mas não consegue esconder que transborda intensidade e um completo domínio de sua arte. Nas master classes cantarola para que os alunos sintam o fluxo da melodia, descubram o sentido da música, deixem aflorar a alma do compositor. Gentilmente, vai desvelando a música escondida na partitura.

Nos irmãos do Duo Assad permanecem, ainda hoje, os traços dos garotos do interior. Simplicidade, uma alegria moleca, uma cumplicidade que tempo e distância (Odair vive em Bruxelas e Sérgio mora em Chicago) só aprimoram. Desarmam quem chega perto: esquecem que são gênios, desconhecem estrelismos. E, no entanto, são a mais renomada dupla de violonistas do planeta, saudados pela revista francesa Diapason com um elogio rasgado: “O trabalho obstinado e a imaginação sem limites colocam Sergio e Odair Assad como líderes no universo do violão. Seu duo é um verdadeiro fenômeno que o tempo e o amadurecimento farão entrar para a história”. Ninguém ousa discordar.

Cresceram entre notas musicais, instrumentos, mãe cantando, pai tocando bandolim. A precocidade não escapou aos olhos do pai, Jorge, que investiu na carreira musical dos filhos-prodígio. Mudaram-se para o Rio de Janeiro. Viviam no subúrbio. Horas e horas de estudo árduo enquanto sol e praia eram miragens. Estudaram durante sete anos com a violinista e alaudista argentina Monina Távora – discípula de Andrés Segovia. Em 1969, ainda adolescentes, estrearam em Nova York.

Em 1973, vencem o concurso para jovens solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira. A partir daí a carreira foi crescendo. Gravaram de tudo: Scarlatti nas mãos deles é divino, Piazzolla incomparável, Villa-Lobos sublime, e até o todo-poderoso Bach parece ter escrito para eles. Ousados, inventivos, subjugaram os autores sagrados do barroco, dominaram a música flamenca e aventuraram-se sem medo por territórios tão díspares quanto os de Claude Debussy e George Gershwin. Saíram ilesos. Melhor: consagrados.

Impressionado ao vê-los tocar, na casa de um amigo em Paris, em 1983, Astor Piazzola compôs exclusivamente para eles Tango Suíte, que se tornou peça obrigatória para os duos de violão. Apresentada pela primeira vez em Liège, na Bélgica, para uma platéia em que estava presente o próprio Piazzolla, essa peça abriu as portas para os Assad e fez parte do primeiro álbum que eles gravaram pela Nonesuch Records. Uma nova versão de Tango Suíte ressurgiu pelas mãos dos Assad com o violinista de Piazzolla, Fernando Suarez Paz. Resultado: um álbum que ganhou o Grammy Latino na categoria Tango.

Os irmãos não seduziram somente Piazzolla. Aqui no Brasil, Radamés Gnatalli, Francisco Mignone, Wagner Tiso, Marlos Nobre, Egberto Gismonti, Hermetho Paschoal também fizeram composições para que eles tocassem. “Quando pedíamos algo para Gnatalli, ele, com seu jeito de gaúcho, respondia não. Mas depois mandava a música”, diverte-se Sérgio Assad.

Intérpretes renomados também disputam parcerias com os irmãos Assad: o violoncelista Yo-Yo Ma, a soprano Dawn Upshaw, a violinista Nadja Salerno Sonnenberg e o clarinetista cubano Paquito D’Rivera já dividiram palco e estúdio com eles. Mas realização mesmo eles tiveram com uma turnê especialíssima em 2004: reuniram os talentos musicais da família – os pais, Jorge e Angelina, os filhos Rodrigo, Clarisse e Carolina, a irmã Badi – e se apresentaram em diversas cidades dos Estados Unidos e da Europa além, claro, de São Paulo. O canal de TV belga RTBF fez um documentário e uma gravação ao vivo da passagem dos Assad por Bruxelas. O DVD foi lançado pela GHA Records.

Sergio hoje trabalha como professor no Roosevelt University´s College of Performing Arts, em Chicago, e Odair é professor titular de violão da Ècole Supérieure dês Arts do Conservatório Real de Mons, na Bélgica. Tornaram lendas vivas e sua história já comporta aqueles casos que fazem a fama dos grandes artistas. Um deles ocorreu no outono de 1993, quando Sergio recebeu a encomenda de compor a trilha do filme Natsu No Niwa (Summer Garden), do diretor japonês Shinji Soumai. Como o prazo era limitado, Sergio trabalhou dia e noite na composição da suíte Natsu No Niwa. Assim que as partituras eram finalizadas ele as enviava para Odair. Os dois viajaram em turnê pelos Estados Unidos, estudando a trilha sonora entre um concerto e outro. Gravaram a música em Nova York, nos dois únicos dias livres da turnê. Decidiu-se então que o CD com a trilha sonora deveria ser lançado ao mesmo tempo que o filme, mas contendo uma outra gravação que seria feita na Europa. Poucos dias antes da gravação, Odair sofreu um acidente doméstico enquanto brincava com o filho, Gustavo. A contusão nos dedos indicador e médio da mão direita provocavam muita dor e inchaço. Odair driblou a dor e negou-se a adiar a data da gravação. Trabalhou durante dois dias e, somente ao término da gravação, consultou um médico. O diagnóstico dá a medida da obstinação dos Assad: ambos os dedos estavam fraturados

Durante o Festival Internacional de Inverno de Brasília 2006 – a equipe de Artelivre teve a oportunidade de entrevistar Sérgio Assad.

Sérgio Assad: “A perfeição não existe!”

P. Na sua Master Class se percebe que você estimula os estudantes de violão a um diferencial:  perceber a música de forma mais profunda e até mais amorosa. Isso é produto da experiência, da sensibilidade, de ambas as coisas ou de algo que você não consegue explicar?

R. Acho que tem gente que tem musicalidade inerente, já nasce com uma forte intuição para a música. Há casos que são excepcionais: a pessoa entende a música logo de cara, por si mesma, tem aquela intuição fabulosa; mas a grande maioria não tem essa intuição, embora tenha  musicalidade. É preciso, então, alguém para pôr o dedo em cima para despertar certas áreas que se encontram ali, meio amortecidas. Também tem a questão do temperamento e do perfil de cada um. Tem gente que é mais tímida, que normalmente tem dificuldade de se expressar. Então é preciso empurrar nesse sentido, para a pessoa dominar a timidez e poder se expressar musicalmente. Eu conheço gente que faz isso muito bem. Quando você vai conversar, vê que é uma pessoa maravilhosa e que consegue tocar com tanta generosidade, mas é a pessoa mais tímida do mundo. Não consegue nem falar direito! Então, você mesma respondeu: existem mais coisas. Em princípio tem essa musicalidade em você, e depois trabalhar, ter tempo para amadurecer. Normalmente os jovens tocam com muito ímpeto, têm aquela energia do jovem, tocam com bravura e não tem essa coisa de dilatar mais o tempo, usar o mais o tempo. Por isso as pessoas dizem: não tem maturidade ainda. É uma questão de tempo: você aprende que não precisa chegar tão cedo; vamos esperar um pouquinho mais para atingir certos pontos que são climáticos em música.

P. Isso aconteceu com vocês?

R. Claro. Quando eu ouço gravações nossas de vinte anos atrás, acho tudo muito ansioso. Tem muita qualidade, eu não tenho vergonha, não. Mas tem certas coisas que eu falo:huumm, (risos) eu nunca mais faria assim.

P. Uma coisa que eu estava observando (na Master Class) é a leitura da partitura. A partitura não vem completa. Como você identifica algumas intenções do autor? Ou isso não é identificável?

R. Tudo é identificável. Na verdade, você colocar a música cristalizada no papel é uma coisa imperfeita, porque tem muitas coisas que não dá para você determinar ou orientar a pessoa sobre como deve ser executado, sobretudo no que tange a essa parte de flexibilidade de tempo. As pessoas normalmente escrevem na partitura. Agora, como? Roubar o tempo – mas, como? Como é que vou dilatar o tempo? Mas tem certas coisas que são inerentes à música, que provocam certas coisas, como acento, articulação; coisas que estão embutidas na própria construção da partitura. Um exemplo disso é quando você tem, num compasso quaternário, uma série de notas que são apoiadas em contratempos por acordes. É claro que os acordes não estão ali por acaso. Aqueles acordes estão exatamente para enfatizar o contratempo. E desde que você coloca duas notas juntas, ela têm mais acento do que uma nota sozinha. Se você tem um baixo em determinado lugar, em contraposição à outra nota, você está querendo que aquilo seja reforçado. Então tem certas coisas que estão ali mesmo, estão evidentes. Tem outras coisas que são câmbios de harmonia, que te levam como se fosse uma hierarquia de valores, entre essa parte harmônica, que faz com que certas coisas tenham mais peso e outras menos. Você está lidando com essa coisa da dinâmica. Música é exatamente isso: você levar de um ponto a outro, sempre, para fazer um discurso musical.

P. Nós percebemos (na Master Class) que – apesar dos alunos terem um nível considerável de vivência no instrumento – quando você dá sugestões, a música praticamente se transforma em outra. Nesse sentido se pode considerar que quem executa é uma espécie de co-autor, guardadas as devidas proporções?

R. Não. Se a obra foi escrita você passa a ser o intérprete. Não existe uma interpretação. Eu, na realidade, tenho uma visão daquela peça e vou passar minha visão para o aluno. Ele não é obrigado a fazer o que eu acho. Sempre deixo em aberto: você usa as coisas que eu estou te dizendo e que poderiam funcionar para você, mas veja o que serve para você. Na realidade, você está recriando uma obra, colocando um pouco de você, mas não está alterando em nada o que é a construção da peça mesmo, a coisa harmônica, a não ser que você faça o que o nosso amigo (o último aluno) estava fazendo: pegou uma obra de Piazzolla, botou uma harmonia dele, fez alterações… aí, sim, você está contribuindo de uma forma pessoal.

P. Falando de Piazzolla, ele escreveu peças exclusivamente para vocês tocarem. Isso é um presente ou um peso?

R. Foi um presente maravilhoso, porque a gente tinha saído do Brasil há pouco tempo quando encontramos com Piazzolla. Começamos a sair do Brasil em 1979, 1980, e a gente conheceu Piazzolla em 83. A gente já tocava coisas dele, que eu havia feito arranjos. Eu estava buscando uma coisa alternativa em termos de repertório, do que existia na época. Havia muita música de vanguarda, muita música aleatória, muita música dodecafônica, e eu descobri o Piazzolla e passei a arranjar. E quando a gente tocou a música dele para ele mesmo, ele ficou tão empolgado! Foi numa festa, na casa de amigos em comum, e ele disse: “Eu vou escrever para vocês!”. Isso foi no final de 1983. No princípio de 84, a gente recebeu uma partitura. A gente morava no Rio, ainda. E foi uma grande surpresa, porque a gente era bem desconhecido na época. E chega aquela partitura! Foi um entusiasmo muito grande. A gente aprendeu logo e aquela peça, logo naquele ano, foi abrindo portas para a gente, porque conseguimos contato com a gravadora   Nonesuch Records, com a qual gravamos até hoje nos Estados Unidos. O produtor foi ao nosso concerto, também não sei porque cargas d´água, e falou: “Ah, que legal”. E gravou! A gente fez um disco logo de cara. Essa peça realmente “aconteceu” em termos do que significa uma peça “acontecer” no mundo instrumental. Uma peça saiu do mundo do violão e foi gravada por pessoas do mundo do jazz, por exemplo. Todo duo de violão gravou.

P. Acabou se tornando um clássico…

R. E depois não foi só isso. Não parou só aí. O fato de a gente ter tocado Piazzolla durante muitos anos fez com que a gente fosse convidado para um projeto alternativo no Japão. Lá conhecemos o (Fernando) Suarez Paz, violinista do Piazzolla, fizemos um trio e acabamos ganhando um Grammy Latino de Tango. Olha só: brasileiros ganhando Grammy de Melhor Disco de Tango. Quando Gidon Kremer fez um disco de Piazzolla, ele nos convidou; quando Yo-Yo Ma fez o disco Soul of the Tango, também nos convidou por causa disso: querendo tocar Tango Suíte, que eu rearranjei e coloquei uma linha de cello. Gravamos com ele (Yo-Yo Ma) duas vezes: nesse álbum Soul of the Tango e no Obrigado, Brazil. E ainda no Obrigado, Brasil Live, em que a gente tocava coisas do Piazzolla também, que é uma regravação ao vivo e está muito boa. Muito melhor do que a gravação feita em estúdio.

P. Falando em Yo-Yo Ma, alguns músicos ocidentais afirmam que os orientais têm dificuldade de interpretar de maneira satisfatória a música feita no Ocidente. Qual a impressão que você teve de Yo-Yo Ma nesse sentido da compreensão e interpretação da música ocidental?

R. Acho que não se pode generalizar. Generalizar é muito pesado. No caso de Yo-Yo Ma, um artista eminentemente clássico, é uma pessoa que tem curiosidade, que quer aprender e faz as coisas com a maior acuidade. Agora, é óbvio que se você tiver – no caso de Piazzolla – um mínimo de experiência com improviso, com mais liberdade, ajuda muito. Fica muito mais fácil. Esse tipo de coisa ele não tem. Eu vi ele passando problemas com relação a isso. Ele fica até inibido. Ele se cerca de músicos que são todos improvisadores e ele não. Ele fica com vergonha de botar algo que está escrito para ele e simular que está improvisando. Então ele prefere não fazer nada. É um músico excepcional. Realmente merece todo o sucesso que tem pela qualidade como músico e pela imaginação. Ele toca as coisas e tem aquele toque de Midas: onde põe a mão funciona. Funciona muito bem. E tem projetos muito bonitos. Mas no que tange aos orientais entenderem a música ocidental, já vi muitos japoneses e chineses que tocam bem. Eles não têm a vivência. Eu já ouvi um grupo de chineses tocando choro. Eles tocam o que eles ouvem. Não têm a experiência de tocar em roda de choro, mas tocam corretamente o que eles ouvem. Então tocam com os acentos todos certos. Você pode dizer: “Está faltando alguma coisa”. Está faltando a experiência, a vivência. Ouvi grupos de japoneses tocando música flamenca muito bem. Eles aprendem. O que eles não têm – e acho que não sou o primeiro nem o único a afirmar – é a criatividade no sentido de “vamos criar coisas novas”. Eles vão lá a reproduzem o que já tem. Mas isso eu acho que é passageiro, mesmo porque estão exercendo uma função que não é a deles: tentando tocar música ocidental. Não é o universo deles. É a mesma coisa que nós aqui tentarmos tocar música oriental. Vai soar meio fake.

P. Todo mundo quer saber se Picasso desenhava desde criancinha e todos ficam muito felizes em saber que Mozart compunha aos 12 anos de idade. E vocês? Como foi esse processo de descoberta da música?

R. Nossos pais são músicos amadores. Meu pai tocava bandolin e minha mãe cantava muito. Minha casa vivia cheia de gente, havia saraus, muito musical, muitos violonistas. A gente cresceu ouvindo música. O violão estava sempre ali… Eu tinha vontade de tocar, mas não era violão: queria tocar piano, desde cedo. Mas a família não tinha posses para comprar um piano, e acabei indo pro violão mesmo.

P. Mais fácil de carregar

R. Não me arrependo.

P. Pois é: eu ia perguntar isso. Como é isso hoje: aprendeu piano mais tarde?

R. A gente sempre cultivou aquele namoro que não deu certo. Sabe namoro que não dá certo? Eu toco um pouco de piano, mas muito pouco. Mais para fazer harmonia. Não deu tempo de me dedicar. Se bem que tem gente que toca tudo. Conheço músicos que tocam vários instrumentos.

P. Vocês de certa forma subverteram o conceito geral de que músico morre de fome. Como vocês se resolvem com isso? Como é ser um brasileiro e músico clássico de sucesso?

R. Temos de voltar no tempo para a perspectiva da época. Somos do interior de São Paulo e essa coisa toda de ser músico profissional é da cabeça do meu pai. A gente não pensou em estudar música e ser músico profissional. Mesmo esse conceito que você acabou de dizer era verdade. Na época era mais verdade ainda. Era impossível viver de música. A gente tinha de pensar numa coisa alternativa. Na realidade, a maioria dos músicos fazia outra coisa. Eu queria fazer Medicina. Seria um péssimo médico. Depois acabei entrando para uma faculdade de Filosofia. Acabei desistindo e pensei: “Ah, vou fazer música mesmo, mas não para tocar violão. Vou fazer regência, fazer alguma coisa em que talvez eu possa trabalhar depois”. E entrei para a Escola de Música do Rio de Janeiro. Mas acabei nunca terminando porque a carreira decolou e eu saí do Brasil. Mas, na realidade, quando você vem de família mais humilde, família mais pobre, tanto faz ser músico ou trabalhar na padaria. Ser músico eu acho que foi melhor…(risos).

P. Analisando a qualidade musical dos seus CDs ou indo a um recital, a impressão que se tem é que vocês alcançaram a perfeição em termos de execução. O que você acha disso?

R. A perfeição não existe. A gente faz certas coisas bem. Tem dias que fazemos melhor que em outros, prova que não existe perfeição. Tem dias que sai muito melhor, tem dias que sai pior. Não existe uma coisa que é ideal. E mesmo porque música não é uma coisa cristalizada, que você faz uma vez e faz sempre daquele jeito. Não é assim. Tem tantas variáveis! É por isso que não dá para você reproduzir isso com coisas eletrônicas porque a variável está no seu instrumento, está com a temperatura, a umidade, está com você mesmo, fisicamente, está com o que te cerca. Você tem acústicas piores, tem acústicas melhores, está no humor das pessoas que estão recebendo o que você está fazendo… Tudo isso, na realidade, conta.

P. Nesse sentido, quando vocês entram no ambiente em que vão tocar, vocês percebem como está sendo a receptividade da platéia? Isso é perceptível?

R. Tem duas coisas que eu queria dizer em relação a isso. A gente tem, hoje em dia, uma receptividade e uma expectativa melhor do que no passado. Porque a gente já tem um certo público, um certo respeito. Então, quando você entra, você sabe que tem fãs ali. Você percebe pessoas que gostam de você. Gente que já te viu, que volta para ver. É gostoso. Quando você está começando é diferente: ninguém te conhece. Então você tem de conquistar aquela platéia. Essa conquista é árdua pois, quando você é muito jovem, por melhor que faça as coisas, você tem de provar. As pessoas levam um susto: “Puxa, os caras tocam bem!” e vão e voltam para te ver de novo. E se não for? Você fica numa expectativa e isso já te derruba. No nosso caso, o que eu acho é que a gente foi amadurecendo. Toda vez que alguém voltava para ver, ia contente. Ah, gostou! Já ouvi muitas vezes: “Eles progrediram”. Então, eu acho que depende da tua vivência e de quem te ouve.

P. Qual a rotina de trabalho? Como vocês se encontram, definem repertório, fazem arranjo?

R. Desde que a gente começou a tocar violão, de certa forma a gente dividiu as responsabilidades. O Odair sempre foi mais solista do que eu. Eu passei a ter uma atividade de arranjador do grupo e de pensar também os projetos musicais. Na verdade, eu acabo fazendo e discuto com ele. Ele não faz tudo o que eu quero. Ele tem a opinião dele, também. A gente, ao longo dos anos, acertou uma maneira de pensar musicalmente que combina muito. Mas, na realidade, os arranjos quem vai fazendo, sou eu. O fato de a gente estar separado hoje (há muitos anos vivemos em cidades diferentes) não altera o trabalho que a gente faz porque estivemos muitos anos juntos. Quer dizer: estamos juntos há quarenta anos. Na primeira fase – aquela fase em que você está realmente aprendendo, criando alicerces – passamos juntos, tocando muito, muitas horas por dia. Essa fase, aqui no Brasil, foi a fase mais crucial para os estudos. Saímos do Brasil em 1983, mais ou menos. Então nessa fase, que durou de 1969 até os 80 ou pouco antes, foi o tempo em que a gente fazia um tipo de trabalho que era completamente fora da realidade local. Nós vivíamos num subúrbio do Rio fazendo violão clássico. Ninguém entendia aquilo. As pessoas passavam por ali e diziam: “Que é isso? Estão perdendo tempo!”. Eu cansei de ouvir esse tipo de comentário. Ou do tipo: “Vão ajudar o seu pai, que está se matando de trabalhar enquanto vocês ficam aí tocando violão”. Foi difícil, ainda mais no Rio, que você quer mais é ir para a praia, curtir, ser jovem. E a gente ficava trancado em casa trabalhando. A gente tocava muito, muito. Muitas horas. E essa coisa de tocar muito tempo juntos é que deu essa unidade que a gente tem. E depois o resto é vivência, maturidade, de desenvolver uma coisa própria. A gente teve muita sorte de acertar no repertório, conhecer as pessoas certas. Enfim, conta também com um pouco de sorte.

P. A pergunta é meio boba, mas todo mundo quer fazer: você tem um compositor favorito? Quem você gosta de ouvir?

R. Tem tantos… Quando eu estou em casa e quero relaxar, até hoje é o Tom Jobim. Ponho um disco do Jobim e até os discos da família Jobim… (risos).

P. E de tocar?

R. Também, também. Cada compositor é um universo diferente. Tem que dar uma leitura que tem a ver com o estilo, com aquela pessoa. É como as cores: você pode gostar de uma cor específica, mas não há uma cor melhor que a outra.

Texto: Sônia Zaghetto

(sonia@artelivre.net)

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