Hilda Hilst, essa desconhecida

Hilda Hilst, essa desconhecida

Enigmática, a senhora Hilda Hilst (1930-2004). Dona de um texto na maioria das vezes estranho, instigante, capaz de surpresas cuidadosamente planejadas. Camaleoa. Com quase quarenta livros publicados, escrevendo magistralmente desde a prosa de ficção à dramaturgia, passando por poemas de construção hipermental (metalurgia de palavras), ainda assim não é suficientemente conhecida nem estudada. Densa a sua tessitura, crua mas ao mesmo tempo poderosa e cálida, como fogo ateado à distância para o deleite das mãos. Conhecida principalmente nos círculos intelectuais paulistanos, Hilda concebeu novelas onde o poder verbal, literariedade e erudição se mesclam em resultados desconcertantes. Em "Com Meus Olhos de Cão", novela que dá título à coletânea de sua prosa, editada pela Brasiliense, narra o processo de entorpecimento e desligamento do mundo porque passa o personagem Amós Kéres, matemático, poeta. "Matamoros", "A Obscena Senhora D" e "Qadós" são outros exemplos de poetização da prosa em Hilda Hilst. A temática de seus textos foi, durante muito tempo, o universo imponderável das ações humanas, a inquietude do ser; a morte, Deus, a finitude, a reflexão e a ars poética. Mas o tratamento rigoroso da matéria literária tornou muito densa essa sua literatura - que ao longo de mais de trinta anos de intensa atividade, ficou restrita a uns poucos eleitos. Sua poesia, repleta de indagações metafísicas, acabou conduzindo-a a mergulhos no universo das leituras da física e da filosofia, que toma como apoio em sua busca de respostas sobre a imortalidade da alma. Ela anseia descobrir, mas sem abrir mão da ciência. Foi a preocupação com a sobrevivência da alma que a levou, nos anos 70, a realizar uma série de experiências em Transcomunicação Instrumental, com o intuito de gravar vozes de espíritos. Hilda deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol) e afirma ter captado vozes pronunciando palavras e fragmentos de frases. Poucos a levaram a sério. O mesmo não aconteceu na literatura, em que a crítica se rendeu ao refinamento e profundidade de seus textos. Carrega até hoje a fama de escritora dificílima. O livro "Com meus olhos de cão" teve excelente receptividade, mas apesar de tudo seu texto ainda continuava sendo "desgustado" somente por uns poucos eleitos que se permitiam o desafio de entrar na cortina de ferro da literatura de Hilda Hilst. Louvada pela crítica, admirada por outros escritores (entre eles Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando Abreu), mas distanciada do grande público, Hilda queria mais. Inconformada com a repercussão pálida de seus textos, a escritora tomou uma decisão surpreendente: depois que leu pelos jornais que a francesa Regine Deforges, com o açucarado best-seller "A Bicicleta Azul" pôs na bolsa mais de 10 milhões de dólares, não teve dúvida: "Como é que eu, com uma cabeça esplendorosa, não consigo nem me sustentar?". E concebeu "O Caderno Rosa de Lory Lambi", um escrito pornográfico. Hilda estava convicta, achava que deveria escrever de maneira diferente para ganhar dinheiro mesmo: "Textos que todo mundo compreendesse, colocando a problemática do sexo de maneira nova, chula". E foi o que…

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Enigmática, a senhora Hilda Hilst. Dona de um texto na maioria das vezes estranho, instigante, capaz de surpresas cuidadosamente planejadas.

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Enigmática, a senhora Hilda Hilst (1930-2004). Dona de um texto na maioria das vezes estranho, instigante, capaz de surpresas cuidadosamente planejadas. Camaleoa. Com quase quarenta livros publicados, escrevendo magistralmente desde a prosa de ficção à dramaturgia, passando por poemas de construção hipermental (metalurgia de palavras), ainda assim não é suficientemente conhecida nem estudada.

Densa a sua tessitura, crua mas ao mesmo tempo poderosa e cálida, como fogo ateado à distância para o deleite das mãos.

Conhecida principalmente nos círculos intelectuais paulistanos, Hilda concebeu novelas onde o poder verbal, literariedade e erudição se mesclam em resultados desconcertantes.

Em “Com Meus Olhos de Cão”, novela que dá título à coletânea de sua prosa, editada pela Brasiliense, narra o processo de entorpecimento e desligamento do mundo porque passa o personagem Amós Kéres, matemático, poeta. “Matamoros”, “A Obscena Senhora D” e “Qadós” são outros exemplos de poetização da prosa em Hilda Hilst.

A temática de seus textos foi, durante muito tempo, o universo imponderável das ações humanas, a inquietude do ser; a morte, Deus, a finitude, a reflexão e a ars poética. Mas o tratamento rigoroso da matéria literária tornou muito densa essa sua literatura – que ao longo de mais de trinta anos de intensa atividade, ficou restrita a uns poucos eleitos. Sua poesia, repleta de indagações metafísicas, acabou conduzindo-a a mergulhos no universo das leituras da física e da filosofia, que toma como apoio em sua busca de respostas sobre a imortalidade da alma. Ela anseia descobrir, mas sem abrir mão da ciência. Foi a preocupação com a sobrevivência da alma que a levou, nos anos 70, a realizar uma série de experiências em Transcomunicação Instrumental, com o intuito de gravar vozes de espíritos. Hilda deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol) e afirma ter captado vozes pronunciando palavras e fragmentos de frases. Poucos a levaram a sério.

O mesmo não aconteceu na literatura, em que a crítica se rendeu ao refinamento e profundidade de seus textos. Carrega até hoje a fama de escritora dificílima. O livro “Com meus olhos de cão” teve excelente receptividade, mas apesar de tudo seu texto ainda continuava sendo “desgustado” somente por uns poucos eleitos que se permitiam o desafio de entrar na cortina de ferro da literatura de Hilda Hilst.

Louvada pela crítica, admirada por outros escritores (entre eles Lygia Fagundes Telles e Caio Fernando Abreu), mas distanciada do grande público, Hilda queria mais. Inconformada com a repercussão pálida de seus textos, a escritora tomou uma decisão surpreendente: depois que leu pelos jornais que a francesa Regine Deforges, com o açucarado best-seller “A Bicicleta Azul” pôs na bolsa mais de 10 milhões de dólares, não teve dúvida: “Como é que eu, com uma cabeça esplendorosa, não consigo nem me sustentar?”. E concebeu “O Caderno Rosa de Lory Lambi”, um escrito pornográfico. Hilda estava convicta, achava que deveria escrever de maneira diferente para ganhar dinheiro mesmo: “Textos que todo mundo compreendesse, colocando a problemática do sexo de maneira nova, chula”. E foi o que fez. O livro foi lançado e fez sucesso. Hilda, então, escreveu, em pouco mais de dois anos, dois outros livros na mesma linha: “Contos de Escárnio” e “Cartas de um Sedutor”.

Conseguiu deixar a crítica em quase pânico mas, boa filha, voltou logo à literatura esplendorosa de sempre. As novelas de Hilda Hilst são, na verdade, rapsódias, cantos em grande forma que constituem uma representação poética do espírito e da realidade. Isto pode ser dito especialmente de “Com meus olhos de cão” – uma narrativa em prosa lírica da angústia e da derrelição, um tema constante em Hilda Hilst. Em A Obscena Senhora D, por exemplo, num exercício de metalinguagem, o personagem Ehud fala a um outro, Hillé: “Derrelição quer dizer desamparo, abandono e por que me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo a senhora D. D de derrelição, ouviu?”.

Amor, morte, sonho, sexo, vida agônica. Salvação e perdição, tempo e eternidade, realidade e fantasia, Deus e o homem são os elementos vivenciais que passam sob diferentes roupagens e máscaras ao longo da narrativa descontínua dos textos de HH. São imagens e sons que nos assaltam como sortilégio e como um presságio que destila da linguagem crua.

De imediato percebemos a intenção do estabelecimento de uma nova estrutura de narração, fundada nos desvario. Há uma razão experimentalista, que não nega as suas heranças surrealistas: construções irrefletidas, encadeamentos ilógicos, experimentações formais no âmbito da prosa:

“Hillé, andam estranhando teu jeito de olhar.
Que jeito?
Você sabe.
É que não compreendo.
Não compreende o quê?
Não compreendo o olho, e tento enxergar perto.
Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceitos, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde,
Ehud (…)?”

Porém, a natureza e a verdade poética que Hilda Hilst anseia não se situam no jogo formal, nos seus limites, sua atenção verbal extrapola a forma vã, já que: “modo de ser da literatura, historicamente ligada a uma forma chamada verso, a essência da poesia não se revela nem quando a situam ao nível da linguagem metrificada”. A poesia é outra coisa. A poesia é Hilda.

Embora menos complexa, sendo uma obra, “consumada” – em que as razões experimentais encontram-se mais ou menos definidas e encontraram forma definitiva – Com meus olhos de cão lembra-nos o “Igitur”, de Mallarmé. Mas a indecifração de algum elemento que nela nos inquiete e confunda, porém, estará, via de regra, presa a um sistema coerente de significado constituindo, pois, um código que em uma última instância pode ser interpretado em relativa conformidade com o real, se considerarmos real o delírio, o sonho, a morbidez… O trauma, enfim.

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Por Rey Vinas

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