Javier Moro: história romanceada

Javier Moro: história romanceada

Vencedor do prestigiado Prêmio Planeta de 2011, o espanhol Javier Moro tem colecionado inimigos a cada livro que publica. Se no Brasil despertou a ira dos que viram imprecisões em O império é você, na Índia as reações foram ainda mais exacerbadas: a pressão sobre os editores foi tão grande que a biografia de Sonia Gandhi, O Sari Vermelho, lançada em 2008, somente agora ganhou versão em inglês. E sob a forma de e-book. Sem falar nas manchetes revelando o desgosto do neto do marajá de Kapurthala ao ver explicitado em Paixão Índia o escândalo do romance de seu avô com a dançarina espanhola Anita Delgado. Esta semana, Artelivre conversou com o escritor. Literatura, história e política comandaram a pauta, já que os livros de Moro versam sobre temas e personagens históricos do Brasil, da Índia e do Tibet. O autor rebateu as críticas a O império é você e partiu para o contra-ataque: "O meu não é um livro de história: é um romance! É uma história romanceada, mas a elite intelectual brasileira é muito nacionalista e não gosta que os estrangeiros venham contar sua história. A história não pertence a ninguém!". Ao jornalista Laurentino Gomes e outros críticos, Moro destinou alguns petardos: " A reação dele e de outros foi de gente ultranacionalista com complexo de colonizado!". Moro contou, ainda, sobre seu processo criativo, destacou a fascinante personalidade de D. Pedro I e conversou sobre o novo projeto, Meia-noite em Bhopal, escrito em parceria com o tio, o consagrado Dominique Lapierre. Também adiantou que o próximo livro terá como cenário um país da América Latina e sua ligação com a Espanha. A seguir, a entrevista de Javier Moro à jornalista Sonia Zaghetto. A que o senhor atribui a enorme resistência à publicação de seu livro O Sári Vermelho em inglês? À política e somente à política. É porque o livro conta a história de Sonia Gandhi desde que ela era menina. Ela era filha de camponeses do norte da Itália. O pai dela era um camponês e conseguiu ser pequeno empresário da construção. Isso é muito nobre, mas na Índia significa que se é das castas mais baixas. Então, o Partido do Congresso sempre a associou a seu (falecido) marido, Rajiv Gandhi e a família Gandhi-Nehru é como a realeza. Então, eles não queriam que na Índia se soubesse a verdadeira história dela e fizeram tudo para assustar os editores indianos e ingleses, ameaçando-os com ações judiciais se viessem a publicar o livro em inglês. Isso não deveria acontecer, pois tudo o que está no livro é baseado em documentação que já existe, em entrevistas que fiz com a família (passei três semanas na cidadezinha em que ela passou sua infância). Eles sabiam que por aí não poderiam fazer muita coisa, então o que fizeram foi muito ruído para assustar os editores indianos. E conseguiram, pois publiquei em espanhol, francês, alemão, polonês, russo, mas não em inglês. Mas agora vai! Isso é muito contraditório, já que, pelo que o senhor fala, essa movimentação política tinha como real motivação o preconceito social e de casta.…

Em entrevista exclusiva, o escritor espanhol Javier Moro conta sobre seu processo criativo, destaca a fascinante personalidade de D. Pedro I e conversa sobre o novo projeto, Meia-noite em Bhopal, escrito em parceria com o tio, Dominique Lapierre.

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Vencedor do prestigiado Prêmio Planeta de 2011, o espanhol Javier Moro tem colecionado inimigos a cada livro que publica. Se no Brasil despertou a ira dos que viram imprecisões em O império é você, na Índia as reações foram ainda mais exacerbadas: a pressão sobre os editores foi tão grande que a biografia de Sonia Gandhi, O Sari Vermelho, lançada em 2008, somente agora ganhou versão em inglês. E sob a forma de e-book. Sem falar nas manchetes revelando o desgosto do neto do marajá de Kapurthala ao ver explicitado em Paixão Índia o escândalo do romance de seu avô com a dançarina espanhola Anita Delgado.

Esta semana, Artelivre conversou com o escritor. Literatura, história e política comandaram a pauta, já que os livros de Moro versam sobre temas e personagens históricos do Brasil, da Índia e do Tibet. O autor rebateu as críticas a O império é você e partiu para o contra-ataque: “O meu não é um livro de história: é um romance! É uma história romanceada, mas a elite intelectual brasileira é muito nacionalista e não gosta que os estrangeiros venham contar sua história. A história não pertence a ninguém!”. Ao jornalista Laurentino Gomes e outros críticos, Moro destinou alguns petardos: ” A reação dele e de outros foi de gente ultranacionalista com complexo de colonizado!”.

Moro contou, ainda, sobre seu processo criativo, destacou a fascinante personalidade de D. Pedro I e conversou sobre o novo projeto, Meia-noite em Bhopal, escrito em parceria com o tio, o consagrado Dominique Lapierre. Também adiantou que o próximo livro terá como cenário um país da América Latina e sua ligação com a Espanha.

A seguir, a entrevista de Javier Moro à jornalista Sonia Zaghetto.

A que o senhor atribui a enorme resistência à publicação de seu livro O Sári Vermelho em inglês?

À política e somente à política. É porque o livro conta a história de Sonia Gandhi desde que ela era menina. Ela era filha de camponeses do norte da Itália. O pai dela era um camponês e conseguiu ser pequeno empresário da construção. Isso é muito nobre, mas na Índia significa que se é das castas mais baixas. Então, o Partido do Congresso sempre a associou a seu (falecido) marido, Rajiv Gandhi e a família Gandhi-Nehru é como a realeza. Então, eles não queriam que na Índia se soubesse a verdadeira história dela e fizeram tudo para assustar os editores indianos e ingleses, ameaçando-os com ações judiciais se viessem a publicar o livro em inglês. Isso não deveria acontecer, pois tudo o que está no livro é baseado em documentação que já existe, em entrevistas que fiz com a família (passei três semanas na cidadezinha em que ela passou sua infância). Eles sabiam que por aí não poderiam fazer muita coisa, então o que fizeram foi muito ruído para assustar os editores indianos. E conseguiram, pois publiquei em espanhol, francês, alemão, polonês, russo, mas não em inglês. Mas agora vai!

Isso é muito contraditório, já que, pelo que o senhor fala, essa movimentação política tinha como real motivação o preconceito social e de casta. E a luta contra esse preconceito de casta é uma grande bandeira de luta tanto de Gandhi como de (Jawaharlal) Nehru. Não é um paradoxo?

Sim, é contraditório. Mas na Índia é motivo de vergonha que o seu avó seja camponês, mesmo que você acabe presidente de banco, pois sempre será baixa casta. É importante dizer que a oposição (ao livro) não veio tanto de Sonia, mas da ala dura do Partido do Congresso, que controla muito a imagem dela. Imagina a história dela: uma garota italiana sem qualquer ambição política, que nunca sequer gostou de poder e se converteu na mulher mais poderosa de um país de 1,3 bilhão de habitantes. Uma história absolutamente incrível! A transformação dela de mulher européia em mulher indiana, para assumir o poder e aprender a lidar com o poder, isso me interessava muito, mas as pessoas do Partido do Congresso não queriam (essa abordagem). Hoje, o único livro publicado em italiano sobre Sonia Gandhi é o meu. Nenhum o jornalista o fez, pois ela tentou por todos os meios dissuadir a todos de escrever essa história.

Em que momento o Sr. percebeu que seria difícil escrever esse livro?

Desde o princípio. Estive a ponto de abandonar o projeto, pois ela não queria me receber, nem os amigos e a família mais íntima tampouco. Então eu me perguntei: como poderei escrever um livro se ninguém quer falar? Mas eu acreditava tanto na história que continuei, aluguei um apartamento em Delhi e fiquei tentando achar uma fissura. A primeira pessoa que entrevistei foi a secretária de Indira Gandhi, Usha Bhagat, que era muito idosa e estava ressentida com a família Gandhi, pois ela dizia que “os meninos nunca iam visitá-la”. Ela foi secretária de Indira Gandhi por dezessete anos e a informação que ela me deu foi fabulosa, pois ninguém como a  secretária para conhecer a gente. A partir daí tive um fio (condutor). Ela me contou como era o ambiente na casa, as relações familiares.  Depois de concluído o livro, fiquei contente de Sonia não ter querido me receber, pois se ela quisesse colaborar eu teria me convertido em seu amigo e teria dilemas: conto isso ou não? Narro as aventuras sexuais de teu sogro e teu cunhado? Se você se torna amigo de alguém poderoso sobre o qual se está escrevendo um livro, você está coibido, não tem tanta liberdade.  Então, apesar de tudo, o processo foi muito bom.

Qual o argumento final que o senhor usou para conseguir que os editores de língua inglesa publicassem o livro?

Os editores indianos queriam, desde o princípio, publicar o livro, mas fez-se um escândalo tão grande no noticiário – e isso sem que ninguém tivesse lido o livro –, que na época não foi possível. E eu queria que um editor inglês ou americano publicasse primeiro. O departamento editorial da Penguin queria publicar o livro, dado o potencial de sucesso, mas o assessor jurídico da editora aconselhou não publicar porque havia o medo de que a Sonia Gandhi movesse alguma ação jurídica que, mesmo que não viesse a ganhar, paralisaria o livro. Os editores são muito medrosos. Agora consegui uma edição digital – The Red Sari – que está disponível na Amazon. A edição indiana, em papel, será lançada em janeiro, no Festival de Jaipur, na Índia.

Paixão Índia também gerou reações negativas?

Sim, sempre (rindo). Todos os meus livros acabaram assim. Fico cabreado, como se diz em espanhol…

Pois é! Isso está virando rotina.

É que é muito difícil que a imagem que a pessoa tem de si mesma coincida com o que é visto pelo pesquisador. E não falo de mentiras, mas de pequenas coisas. Uma coisa é inventar uma cena de amor entre o Dalai Lama e Madre Teresa, pois, aí sim, é questionável juridicamente. Mas como sempre me ative à documentação existente e à pesquisa que fiz, isso me dá segurança. Mesmo assim, o neto do marajá de Kapurthala fez um escândalo enorme, que foi primeira página em vários jornais indianos e até do inglês The Guardian. Na minha página (www.javiermoro.com) estão todos os documentos. O neto contestou as informações, disse que era falso o que escrevi, que o seu avô não era assim e que eu havia dado muita importância a uma aventura do marajá. Respondi a ele publicamente, pela imprensa: “Anita viveu na Índia por 25 anos! Eu te convido a vir a Londres, à British Library, para pesquisarmos nos papéis de Kapurthala, onde fiz a pesquisa. Vais dar-te conta de quem era teu avó na verdade”.  Tem coisas que descobri do avô e que não coloquei no livro para não fazer dele um personagem  pouco simpático. Era muito mais do que contei no livro, mas o neto ainda pensa que esse homem é uma espécie de Churchill indiano.

Muito indiano isso tudo…

O neto, quando vai a Kapurthala, ainda hoje, faz-se uma fila de pessoas que se põe de joelhos para saudá-lo. Ainda há muita coisa medieval. Então, esse livro que, para ele, conta uma história escandalosa – afinal, ele é representante da Louis Vuitton e é muito esnobe – mancha a reputação da família. É ridículo. Isso aconteceu um século atrás, mas eles são muito cheios de orgulho aristocrático. Eles se levam muito a sério.

Falemos de Brasil. Aqui também deu polêmica o seu livro sobre D. Pedro I e vi que o Sr. reagiu a acusações de erros históricos e à de “neocolonialismo espanhol”, feita pelo jornalista Laurentino Gomes?

Sim, foi estúpido. E eu gostava muito do livro de Laurentino Gomes, 1808, e tinha grandes esperanças de que ele fosse ajudar, mas a reação dele foi como se tivesse medo de alguém que estaria invadindo o seu jardim. E o que seria esse jardim? A vulgarização da história brasileira, que ele faz muito bem, do ponto de vista jornalístico. Mas o meu não é um livro de história: é um romance. É uma história romanceada. É um gênero muito difícil de fazer e que, obviamente, não estão acostumados aqui no Brasil. Então ele disse que havia muitos erros históricos, mas não disse quais. É muito fácil destruir adversários falando que tem muitos erros. A reação dele e de outros foi de gente ultranacionalista com complexo de colonizado. Ele dizer que meu livro era mais um exemplo de neocolonização da Espanha ao Brasil é a coisa mais estúpida que se pode falar. Telefonica, Iberia, Indra, Banco Santander e um livro (risos) são os grandes colonizadores do Brasil? Isso é estúpido! A elite intelectual desse país é muito nacionalista e não gosta que os estrangeiros venham contar sua história. A história não pertence a ninguém. Os melhores historiadores da Espanha não são espanhóis; são ingleses! Afortunadamente o público não fez caso das bobagens do Laurentino. Todas as semanas recebo mensagens de brasileiros que dizem ter descoberto a história do Brasil em meu livro, numa visão global, enquanto que a escola o faz de modo parcial.

Em todos esses exemplos sobre os quais falamos, o senhor identifica tentativas de restrição da liberdade de expressão?

Acho que quando se faz um livro que bordeia a ficção, há algo de nebuloso. Por isso prefiro dizer que não é novela histórica: é história romanceada. Porque não há personagens e cenas inventadas, mas o material é posto em cena, dramatizado, como você dramatiza na televisão a história dos Kennedys. É o mesmo trabalho mental, a mesma ginástica. Mas, aqui no Brasil, não estão acostumados a isso. Não o público, pois este lê, mas os intelectuais. Estes, especialmente Laurentino, foram uma decepção muito grande. Achei que ele iria reagir com um pouco mais de generosidade. Ele falou que era um erro ter contado no livro que D. Pedro I teria casado com Noémie Thierry, em um ritual africano, que isso era impossível. Mas isto está contado no livro de Otávio Tarquínio de Souza. Isso foi verdade! Obviamente não foi uma coisa séria, que contava como registro civil, mas houve uma festa e a boda. Era uma provocação de D. Pedro ao pai.

O que você espera do leitor que lê o livro sobre D. Pedro?

Que esteja fascinado pela história do personagem, pois é um personagem fascinante! Se alguém inventasse D. Pedro I, ninguém iria acreditar! Uma história fantástica, que não precisa você inventar nada, pois está tudo lá. Um homem que nasce e morre no mesmo quarto, no mesmo palácio, com 36 anos de diferença. E que nesses 36 anos dá a independência ao Brasil, torna-se imperador do país, rei de Portugal, rechaça a coroa espanhola e ganha uma guerra civil. É muita coisa para 36 anos de vida.

Sempre lhe perguntam por que D. Pedro I e não D. Pedro II?

Sempre me fazem essa pergunta. D. Pedro II não me interessa. É formal, um tipo normal. Tinha família, falava cinco idiomas, era culto. Era filho de Leopoldina! Fez um império, mas tudo o que fez, ele o fez porque seu pai foi suficientemente louco para tomar decisões que ninguém queria tomar. Então, fiquei fascinado pelas contradições desse personagem tão incrível que é D. Pedro I. Um homem que não podia deixar de ter várias mulheres, mas ao mesmo tempo era um bom pai; que foi um dos primeiros democratas e monarcas constitucionais, mas ao mesmo tempo era muito autoritário; um brasileiro que se sentia português. Para os nacionalistas brasileiros, ele era demasiado português; para os portugueses era um traidor. Ele ficou sempre desgarrado, num limbo entre dois países, dois continentes, dois mundos. Tanto é assim que, tantos anos após sua morte, seu coração está numa urna na igreja da Lapa, no Porto, e os restos de seu corpo aqui no Brasil. Continua desgarrado! É o drama dele. É um personagem fantástico. Pedro I era meio espanhol, era aventureiro, namorador, tudo o que não entra nas convenções burguesas. Noto que os brasileiros gostam muito de D. Pedro II, que tinha uma vida exemplar, reinou durante 49 anos, trouxe o telégrafo. Era perfeito! Mas o que é interessante de contar não é sobre gente perfeita, mas sobre a imperfeição das pessoas. Um cara imperfeito assim, conseguiu fazer o que ele fez. Lógico que não o fez sozinho, pois tinha Leopoldina com ele…

Falando em Leopoldina, das mulheres de D. Pedro, qual a mais fascinante? Leopoldina, Amélia ou D. Carlota Joaquina?

Todos eles são personagens que, se você inventa, ninguém acredita. Desde João VI, com os galetos nas jaquetas até Carlota Joaquina sempre confrontando porque queria ser rainha. Até da Argentina ela queria ser rainha, pois queria ser rainha de algo! Era uma mulher muito moderna, ela não queria viver à sombra de um marido. Era tremenda! Mas a dramatização de toda a história da criação do Brasil não existia. Não havia um livro que contasse a história do Brasil da forma como eu fiz. Por isso tantas cartas de leitores surpresos, contando que agora tinham uma ideia básica e global da história e da grande diferença entre o Brasil, que ficou unido, e o resto da América Latina, que se fragmentou. A diferença é porque a família real se mudou para cá e aqui passou a ser a capital.

Foi o único caso na História de transferência da corte para a colônia

Sim, único caso na história. Se o rei da Espanha houvesse se mudado para o México, as fronteiras da América espanhola seriam totalmente diferentes e não haveria esse fracionamento. E aqui se manteve o país unido graças e quatro pessoas geniais: D. Pedro, que não era tão inteligente, mas era audaz (e é preciso ter audácia); D. Leopoldina, que era realmente inteligente; José Bonifácio e Lorde Cochrane. Sem eles, o Brasil hoje estaria dividido em pelo menos cinco países.

As Montanhas de Buda também gerou algum tipo de reação?

Fui considerado persona non grata pelo Consulado chinês, mas foi tudo. Depois fui à China e não houve problema.

E o Dalai Lama?

Eu o entrevistei várias vezes. Ele é muito simpático, daquele tipo que te dá tapinhas nas costas e ri com muito ruído.

O senhor acha possível que a China volte atrás ou pode-se perder a esperança de um Tibet liberto?

O Tibet está perdido, eu acho. O Tibet é um país ocupado: você caminha nas ruas e vê chineses com uniformes militares e tibetanos pobremente vestidos. É muito bonito viajar pelo Tibet, mas triste. Eu tenho pouca esperança sobre o Tibet.

Na sua opinião, o Dalai Lama também tem consciência de que não há mais esperanças para o Tibet?

Na última vez que vi o Dalai Lama, há cinco anos, ele falou que a situação era de desesperança. Houve recentemente uma série de imolações de monges e os problemas que vi alguns anos atrás só pioraram. Aliás, isso ocorre com dois livros que escrevi algum tempo atrás: os problemas continuam. O primeiro, Caminhos da Liberdade (sobre Chico Mendes e os problemas da Amazônia brasileira) hoje continuam os mesmos. O outro é As Montanhas de Buda, em que a situação está pior. São livros que denunciam a realidade e sempre se tem a vontade de que o livro vai despertar consciências, mudar hábitos. Não muda nada.

O que lhe move em direção da escrita?

Não sei fazer outra coisa. Sou de uma família de escritores. Durante toda a minha vida ouvi falar de textos e de boas histórias. Então, eu me criei sempre entre gente que escrevia e minha vocação é escrever.

Como o senhor escolhe os temas de seus livros?

Não tem regra. Um amigo que fala “olha que história fantástica”, uma sugestão, ou algo que você lê no jornal: “Chegaram do Tibet duas monjas que foram torturadas”. Outras vezes é o editor que dá uma ideia: “Por que você não escreve a história da princesa de Kapurthala. Você vai fazer isso bem, pois você conhece bem a Índia”. Então, depende. Agora, vendo à distância, noto que todos os temas que fiz eram todos praticamente desconhecidos. Pois ninguém sabia nada de Sonia Gandhi. Mesmo ela sendo a mais poderosa mulher da Índia, ninguém a conhecia. As pessoas haviam esquecido a história de Anita Delgado e do marajá de Kapurthala. Minha avó lembrava, mas quem mais lembraria? D. Pedro I também:  em Portugal e na Espanha quase ninguém sabia da história dele. Bhopal idem. Escrevemos o livro para que não fosse esquecida essa tragédia, pois é um drama que nunca acaba.

Há um outro livro sobre a tragédia de Bhopal, Animal’s People, do indiano Indra Sinha, e que é um romance premiado. No que o seu livro difere da obra de Sinha?

Todos os livros publicados sobre Bhopal são muito interessantes, mas são livros de estudo. São livros de historiadores ou de de ativistas sociais. Mas quisemos fazer um livro de escritores. Queríamos contar por dentro o que os outros livros contaram por fora. E para contar por dentro, você deve dar esse salto: fazer a dramatização e contar através de personagens que viveram essa história. Meia Noite em Bhopal é a história dos arquitetos, dos engenheiros que foram trabalhar lá, dos pobres camponeses que viam uma oportunidade de melhorar de vida. É a história do poder local. E ao final, através desses dramas pessoais, se vai entendendo o porquê dessa tragédia . Mesmo sabendo o final, conseguimos manter o suspense, porque é a história de pessoas. É o mesmo que ocorreu com a história de Pedro I. O livro de Tarquínio de Souza é um livro de historiador, mas eu não sou historiador. Para isso existe a literatura: insuflar vida à história morta, para descrever o cheiro do lugar, a música e as impressões. Por exemplo, a chegada de Leopoldina ao Rio de Janeiro, ela que vem de outro mundo, que é a corte da Áustria. Para isso se tem de fazer um exercício de imaginação. Mas aí também entra o rigor, pois essa imaginação tem de estar sustentada por uma boa documentação, senão soa falsa.

Falamos tanto de política e separatismo. Assim, não posso deixar de lhe perguntar como fica seu coração diante do desejo de separação da Catalunha.

A situação é lamentável. É fruto do nacionalismo e foi isso que levou à morte de milhões de pessoas na segunda Guerra. Tudo montagem, mito e mentiras o que os dirigentes catalães inventaram nos últimos trinta anos para convencer as pessoas que a região era melhor que o restante do país. Eu não vejo muito sentido.

O senhor está trabalhando em um algum projeto novo?

Sim.

Pode dizer?

Não, pois dá má sorte.

Nem o país?

É sobre a Espanha e a América Latina. É histórico.

Pois é: há livros sobre Índia, Brasil, Tibet e nada sobre a Espanha?

Se escrevo sobre a Espanha eu não viajo. E o que gosto é viajar. Gosto de viajar, falar com gente, entrevistar, mergulhar na história e fazer amigos de outras sociedades. Quanto chego a Delhi é como se estivesse em casa. No Rio de Janeiro também.

Texto: Sonia Zaghetto (sonia@artelivre.net)

Foto: Gladson Hoffmann

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