Para entender Kandinsky

Para entender Kandinsky

No princípio era o ponto. E o ponto era o centro nervoso da tela. Em torno dele se construía toda a pintura - concêntrica, rica de referências, plena de memórias de infância, espiritualidade, música e elementos da cultura russa. O processo de criação de Wassily Kandinsky (1866-1944) incorporou poderosamente alguns desses elementos biográficos. A exposição que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inaugurou nesta quarta-feira, 12 de novembro, é uma oportunidade rara de decifrar os caminhos emocionais e artísticos do inquietante pintor russo. Decifrar Kandinsky é essencial para compreender sua obra. À primeira vista, ele parece hermético. Aos incautos, sua pintura parece aleatória e os tolos poderiam evocar aquela frase de triste lembrança: “Até uma criança faz isso”. Tolice. Kandinsky é arte pura, toda ela unindo o emocional e o intencional. Uma obra refinada, plena de inspiração e beleza, que traduz um espírito livre, idealista e profundamente sensível. Como em todos os artistas viscerais, a alma de Kandinsky está traduzida em seu trabalho. Não são obras feitas para impressionar ou vender, mas para oferecer ao espectador uma experiência sensorial e emocional profunda. É como um presente oferecido pelo pintor: “Eis aqui a minha vida, minhas lembranças mais profundas, o lodo de minha terra e a luz de meus olhos: deleite-se”. A partir das imagens e narrativas tradicionais russas, percebe-se facilmente como Kandinsky evoluiu para seu estilo característico. A exposição ajuda a rastrear a trajetória evolutiva do artista, identificando os traços folclóricos e populares na sua obra madura. A trajetória de Kandinsky – que dominava as técnicas clássicas de desenho e pintura – foi transmudando-se como o próprio artista. Cada vez mais, ao longo da vida, o pintor mergulhou em si mesmo, em suas raízes e em sua arte, a fim de buscar a essência e modificar a forma de expressão. Como o homem que abandona o caminho óbvio, ele deu o salto para o abstracionismo e, ao mergulhar no vazio desafiador, criou uma rede de proteção invisível que marcou a arte moderna: o figurativo deixou de ser o único caminho de transmissão das emoções. Perfeitamente de acordo com o pensamento de um homem que acreditava que o artista tem o dever de despir os objetos e fenômenos de seus revestimentos externos e revelar sua essência oculta. Por isso, ainda, a exposição destaca a relação de Kandinsky com o compositor Arnold Schönberg (1874-1951). A afinidade instantânea que ambos sentiram ao se conhecer os fez percorrer, juntos, a tremenda jornada em busca de uma arte inconformada e nova, que emerge da alma e não teme ultrapassar as fronteiras da segurança. Kandinsky era um sinesteta: associava cores com sons. Assim, podia ver as imagens pintadas como notas musicais. Essa informação é essencial para entender seu movimento em direção à abstração. Música puramente instrumental é abstração. E mesmo sem se propor a representar o que quer que seja, tal música tem grande valor artístico. Por que deveria ser diferente com a pintura? Kandinsky e Schönberg trilharam caminhos semelhantes, que iniciaram com o estudo e posterior…

Avaliação

O processo de criação de Wassily Kandinsky (1866-1944) incorporou poderosamente alguns elementos biográficos. A exposição que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inaugura nesta quarta-feira, 12 de novembro, é uma oportunidade rara de decifrar o inquietante pintor russo.

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No princípio era o ponto. E o ponto era o centro nervoso da tela. Em torno dele se construía toda a pintura – concêntrica, rica de referências, plena de memórias de infância, espiritualidade, música e elementos da cultura russa. O processo de criação de Wassily Kandinsky (1866-1944) incorporou poderosamente alguns desses elementos biográficos. A exposição que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inaugurou nesta quarta-feira, 12 de novembro, é uma oportunidade rara de decifrar os caminhos emocionais e artísticos do inquietante pintor russo.

Decifrar Kandinsky é essencial para compreender sua obra. À primeira vista, ele parece hermético. Aos incautos, sua pintura parece aleatória e os tolos poderiam evocar aquela frase de triste lembrança: “Até uma criança faz isso”. Tolice. Kandinsky é arte pura, toda ela unindo o emocional e o intencional. Uma obra refinada, plena de inspiração e beleza, que traduz um espírito livre, idealista e profundamente sensível.

Como em todos os artistas viscerais, a alma de Kandinsky está traduzida em seu trabalho. Não são obras feitas para impressionar ou vender, mas para oferecer ao espectador uma experiência sensorial e emocional profunda. É como um presente oferecido pelo pintor: “Eis aqui a minha vida, minhas lembranças mais profundas, o lodo de minha terra e a luz de meus olhos: deleite-se”.

A partir das imagens e narrativas tradicionais russas, percebe-se facilmente como Kandinsky evoluiu para seu estilo característico. A exposição ajuda a rastrear a trajetória evolutiva do artista, identificando os traços folclóricos e populares na sua obra madura.

A trajetória de Kandinsky – que dominava as técnicas clássicas de desenho e pintura – foi transmudando-se como o próprio artista. Cada vez mais, ao longo da vida, o pintor mergulhou em si mesmo, em suas raízes e em sua arte, a fim de buscar a essência e modificar a forma de expressão. Como o homem que abandona o caminho óbvio, ele deu o salto para o abstracionismo e, ao mergulhar no vazio desafiador, criou uma rede de proteção invisível que marcou a arte moderna: o figurativo deixou de ser o único caminho de transmissão das emoções. Perfeitamente de acordo com o pensamento de um homem que acreditava que o artista tem o dever de despir os objetos e fenômenos de seus revestimentos externos e revelar sua essência oculta.

Por isso, ainda, a exposição destaca a relação de Kandinsky com o compositor Arnold Schönberg (1874-1951). A afinidade instantânea que ambos sentiram ao se conhecer os fez percorrer, juntos, a tremenda jornada em busca de uma arte inconformada e nova, que emerge da alma e não teme ultrapassar as fronteiras da segurança. Kandinsky era um sinesteta: associava cores com sons. Assim, podia ver as imagens pintadas como notas musicais. Essa informação é essencial para entender seu movimento em direção à abstração. Música puramente instrumental é abstração. E mesmo sem se propor a representar o que quer que seja, tal música tem grande valor artístico. Por que deveria ser diferente com a pintura?

Kandinsky e Schönberg trilharam caminhos semelhantes, que iniciaram com o estudo e posterior domínio das técnicas tradicionais de arte para, no futuro, romperem com elas e desbravarem caminhos revolucionários. Kandinsky com o abstracionismo e Schönberg com o dodecafonismo. Ambos colheram o resultado da ousadia sob a forma de rejeição: “Isto não é arte!”, decretaram os que não ousavam se afastar do que é clássico e consolidado. Na verdade, Schönberg e Kandinsky estavam fazendo convites para um novo jeito de pensar a arte, abrindo os espíritos para possibilidades diferentes: telas que exigiam indesejados mergulhos na abstração e arranjos sonoros que os ouvidos não se permitiam desfrutar.

A ligação de Kandinsky com a espiritualidade – um dos pontos centrais da exposição – também está igualmente vinculada à cultura russa. A tradicional devoção a São Jorge está marcada em sua obra, assim como as formas de representação da devoção popular.

Aos 23 anos, um fato foi divisor de águas: Kandinsky  viajou à Vologda, no norte da Rússia, onde viviam os Kómi, um povo de costumes simples, quase primitivos, cujas práticas religiosas o  impressionaram profundamente. A Rússia do fim do século XIX, assim como toda a Europa, respirava uma atmosfera de forte interesse pelo exótico e pelas raízes da cultura popular. No caso russo, o centro do interesse era o remoto Norte e a Sibéria.

O fato de ter antepassados siberianos só aumentou a intensa ligação de Kandinsky com as tradições e crenças dos Kómi. A natureza intocada e as paisagens da região descortinaram a ele, pela primeira vez, a possibilidade viva de que havia diferentes formas de expressar emoções, além do modo tradicional.

Seus primeiros trabalhos – ainda figurativos – igualmente remetem aos padrões e ao lirismo da arte que permeava a vida na Russia. Sua paleta de cores vivas apenas vai transmudando as figuras da paisagem e da arte que decorava a vida cotidiana até resgatar a essência subjacente e dissolvê-la nas belas telas abstracionistas.

Já em 1911, quando realiza a primeira mostra do movimento Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), incorpora à exibição vários objetos de arte xamânica da coleção do Museu Etnográfico de Mônaco. Assim, antecipa em quase um século a tendência moderna de confrontar a obra de arte contemporânea com os artefatos de arte primitiva, dando-lhes equivalente  valor estético e antropológico. A exposição do CCBB retoma essa vontade do artista.

Embebido na paixão pelas raízes russas, Kandinsky abraçou os ideais da Revolução Comunista. Em janeiro de 1918, quando é criado o Comissariado de Educação do Povo, foi convidado a a colaborar. Aceitou, inaugurando uma fase em que intensificou seu relacionamento com jovens pintores vanguardistas.

Aos poucos, entretanto, começa a perceber uma intervenção estatal cada vez mais profunda e ditatorial no processo de criação artística. A ligação umbilical com a pátria se manifesta mais uma vez e as telas se tornam escuras, explicitando a dor que antecipava o afastamento. Assim, em 1922, Kandinsky aceita a proposta de Walter Gropius de dar aulas na Bauhaus e abandona a Rússia. Jamais voltaria. Suas pinturas passam a ser rejeitadas pelo Estado soviético, mas a Rússia prosseguiu, em referências delicadas e cores peculiares, no espírito e nas obras de Kandinsky.

Inegavelmente,  a exposição do CCBB faz um belo trabalho ao apresentar as raízes do artista, seus amores e reflexões, sua inquietação em ultrapassar as fronteiras do que é seguro. Da mostra emerge um Kandinsky mais familiar, profundamente nostálgico e, sim, indiscutível e eternamente russo. Ele mesmo um artista-xamã, que mergulha na alma dos objetos, decifra suas essências espiritualmente ativas e as libera nas cores de uma tela para que continuem a contar suas histórias para nós, de um outro tempo, de um outro lugar.

Sônia Zaghetto (sonia@artelivre.net )

 

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2 Comments

  1. Anônimo
    Anônimo3 years ago

    Muito legal!

  2. rafael
    rafael3 years ago

    Apesar de ser importante compreender seu contexto e sua vida, esperava com o texto aprender sobre como entender seu trabalho. queria entender por que ele não é hermético ou aleatório. o que diferencia uma verdadeira arte de um trabalho de criança, enfim, entender o processo, a informação embutida.

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