Caminhando entre lápides

Caminhando entre lápides

Severo, pesado e cruel são adjetivos que poderiam ser usados para descrever o thriller Caçada Mortal (A Walk Among the Tombstones), baseado na série de livros de suspense de Lawrence Block. O título em inglês traduz melhor o tom do filme e suas intenções: uma caminhada entre lápides, o que, de antemão, anuncia uma experiência sombria e introspectiva. Para os que apreciam o gênero, é um dos melhores e surge como uma boa contribuição para os chamados filmes neo-noir. Matt Scudder (Liam Neeson ) é um detetive sem licença, assombrado pelo episódio que o levou a deixar o emprego como policial em Nova York. Numa reunião dos  Alcoólicos Anônimos ele conhece Peter Kristo (Boyd Holbrook) que o leva até o irmão Kenny (Dan Stevens), um traficante de drogas cuja esposa foi seqüestrada e devolvida aos pedaços após o pagamento do resgate. Kenny pede a Scudder para localizar os assassinos. Inicialmente relutante, ele concorda quando descobre  que os assassinos são uma dupla de psicopatas, Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) que pretendem matar outras mulheres, também casadas com ricos traficantes. É o tipo de filme que você, ao olhar os cartazes e assistir ao trailer, tem uma sensação de déjà vu. Engano. Caçada Mortal possui um sentido oculto e você o nota logo na sequência inicial, quando se torna claro que o diretor e roteirista Scott Frank sabe o que está fazendo. Ao filmar Liam Neeson caminhando, Frank faz os leitores dos livros de Block respirarem aliviados: finalmente alguém trouxe para a tela o ex-policial, personagem principal de 17 romances do autor americano. Scudder é rude e carregado de tristezas. Liam Neeson o interpreta sem um único sorriso. Frank mantém a câmera em cada movimento do ator, fascinado por sua figura de ombros largos, estatura impressionante, rosto anguloso e, ainda assim, extremamente graciosa.  Um olhar para ele, em seu casaco com a gola levantada, é suficiente para adentrar o mundo de Matthew Scudder, um sujeito que parece imune a perturbações. A vantagem do filme é apresentar esse herói pensativo sem aquele cansaço cínico que costuma caracterizar os mocinhos durões que foram vítimas de alguma tragédia no passado.  É um caminhante solitário que vaga por uma cidade marrom, encharcado de luto e lembranças atrozes de algo que ele fez anos atrás, enquanto estava bêbado. Pela segunda vez, um ator de peso interpreta o detetive da série de livros campeã de vendas de Block. O primeiro foi Jeff Bridges em Morrer Mil Vezes  (8 Million Ways to Die) de 1986. Não deu. Em Caçada Mortal, Liam Neeson consegue expor com mais propriedade os demônios que atormentam Scudder. Roteirista experiente - entre seus trabalhos anteriores estão Voltar a Morrer e Minority Report –  Scott Frank faz um trabalho acima da média, embora seja perceptível que ainda irá crescer como diretor. Entre seus acertos está uma certa resistência em fazer concessões aos clichês consagrados. Assim, não espere pelas fórmulas usuais, com protagonistas honrados e bandidos malvados, espetaculares sequências de ação e viradas de jogo. Não há, a rigor, heróis.…

O novo filme de Liam Neeson parece ser uma fórmula repetida. Só parece. Na verdade, o roteirista e diretor Scott Frank surpreende com um filme acima da média.

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Severo, pesado e cruel são adjetivos que poderiam ser usados para descrever o thriller Caçada Mortal (A Walk Among the Tombstones), baseado na série de livros de suspense de Lawrence Block. O título em inglês traduz melhor o tom do filme e suas intenções: uma caminhada entre lápides, o que, de antemão, anuncia uma experiência sombria e introspectiva. Para os que apreciam o gênero, é um dos melhores e surge como uma boa contribuição para os chamados filmes neo-noir.

Matt Scudder (Liam Neeson ) é um detetive sem licença, assombrado pelo episódio que o levou a deixar o emprego como policial em Nova York. Numa reunião dos  Alcoólicos Anônimos ele conhece Peter Kristo (Boyd Holbrook) que o leva até o irmão Kenny (Dan Stevens), um traficante de drogas cuja esposa foi seqüestrada e devolvida aos pedaços após o pagamento do resgate. Kenny pede a Scudder para localizar os assassinos. Inicialmente relutante, ele concorda quando descobre  que os assassinos são uma dupla de psicopatas, Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) que pretendem matar outras mulheres, também casadas com ricos traficantes.

É o tipo de filme que você, ao olhar os cartazes e assistir ao trailer, tem uma sensação de déjà vu. Engano. Caçada Mortal possui um sentido oculto e você o nota logo na sequência inicial, quando se torna claro que o diretor e roteirista Scott Frank sabe o que está fazendo. Ao filmar Liam Neeson caminhando, Frank faz os leitores dos livros de Block respirarem aliviados: finalmente alguém trouxe para a tela o ex-policial, personagem principal de 17 romances do autor americano.

Scudder é rude e carregado de tristezas. Liam Neeson o interpreta sem um único sorriso. Frank mantém a câmera em cada movimento do ator, fascinado por sua figura de ombros largos, estatura impressionante, rosto anguloso e, ainda assim, extremamente graciosa.  Um olhar para ele, em seu casaco com a gola levantada, é suficiente para adentrar o mundo de Matthew Scudder, um sujeito que parece imune a perturbações. A vantagem do filme é apresentar esse herói pensativo sem aquele cansaço cínico que costuma caracterizar os mocinhos durões que foram vítimas de alguma tragédia no passado.  É um caminhante solitário que vaga por uma cidade marrom, encharcado de luto e lembranças atrozes de algo que ele fez anos atrás, enquanto estava bêbado.

Pela segunda vez, um ator de peso interpreta o detetive da série de livros campeã de vendas de Block. O primeiro foi Jeff Bridges em Morrer Mil Vezes  (8 Million Ways to Die) de 1986. Não deu. Em Caçada Mortal, Liam Neeson consegue expor com mais propriedade os demônios que atormentam Scudder.

Roteirista experiente – entre seus trabalhos anteriores estão Voltar a Morrer e Minority Report –  Scott Frank faz um trabalho acima da média, embora seja perceptível que ainda irá crescer como diretor. Entre seus acertos está uma certa resistência em fazer concessões aos clichês consagrados. Assim, não espere pelas fórmulas usuais, com protagonistas honrados e bandidos malvados, espetaculares sequências de ação e viradas de jogo. Não há, a rigor, heróis. Apenas esperança de alguma redenção para alguns personagens. E cansaço. Muito cansaço moral.

Também não há aquele espaço de respiro em que algum personagem secundário faz uma gracinha e, ao soltar a risada, você esquece que está assistindo a um thriller. Não há humor algum.  Frank também evitou as intermináveis cenas de pancadaria. E isso não quer dizer que há pouco sangue, menos tensão ou economia de violência. Longe disso. A câmera que registra a tortura das mulheres facilmente pode ser classificada de misógina. Repulsa e dor estão bem fincados lá, em cenas angustiantemente lentas, detalhistas ao extremo, em que cada suspiro de dor pode ser ouvido. Mas é o que se espera de um filme sobre serial killers, não é?

Por outro lado, a atmosfera de tensão se estende para as tomadas de uma cidade sem sol. O filme, ambientado em 1999, tem um clima retrô a que se acrescenta uma certa paranóia, típica daquele ano em que temores como bug do milênio e o fim do mundo eram hipóteses seriamente consideradas por parte da população.

Algumas coisas não funcionam completamente, como a decisão de recitar o programa de 12 passos do AA durante o clímax. Soa estranho e forçado.

Em compensação, a fotografia de Mihai Malaimare Jr. é um bônus. Ela espreita os detalhes dos apartamentos. Suas cores, luzes e detalhes do mobiliário revelam muito sobre os personagens e seu habitat, inclusive mofos emocionais e manchas gordurosas das almas.

As mudanças que Frank fez em relação ao livro de Block não chegam a comprometer demasiado o resultado final. A troca da nacionalidade dos traficantes libaneses Kenan e Pete Khoury, que no filme se tornaram os irmãos Kristo, americanos da gema, parece apenas ter querido evitar fadiga no vasto mundo das susceptibilidades feridas.

Mais falta fez o final chocante do livro, trocado por uma sequência palatável que segue a linha reta que o roteiro abraçou.  Compreensível: há de se fazer concessões à indústria do cinema e ao singular gosto desta época, que se choca com o bizarro que tem um pé na vida cotidiana enquanto cultua o macabro que jamais se converterá em realidade. Mas isso é outra conversa.

Texto: Sonia Zaghetto (sonia@artelivre.net)

P.S. Espere até quase o final dos créditos só para ouvir Swann e Nouela Johnston interpretando Black Hole Sun, do Soundgarden. É para deixar Chris Cornell orgulhoso. Tem uma amostra no trailer do filme, logo aí abaixo. ;-)

Avaliação: Bom

 A Caçada

Título original: A Walk Among the Tombstones
Gênero: Suspense
Data de Estreia: 04 de dezembro de 2014
Elenco: Liam Neeson, Dan Stevens, David Harbour, Boyd Holbrook
Roteiro e Direção: Scott Frank
Baseado no livro de Lawrence Block
Produzido por: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher, Tobin Armbrust, Brian OliverProdutores Executivos: Kerry Orent, Adi Shankar, Tracy Krohn, John Hyde, Mark Mallouk, Lauren Selig, Nigel Sinclair

Trailer no Youtube:

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