Floresta de desejos

Floresta de desejos

Eu quero! Eu desejo! Quando os desejos se concretizam, resta uma pergunta: quanto e o que custaram? A exploração meticulosa do longo caminho entre o desejo formulado e sua concretização é a proposta de Caminhos da Floresta (Into the Woods). O filme, dirigido por Rob Marshall, mescla vários contos dos irmãos Grimm e recupera muito do sentido original dos tradicionais contos de fada, com sua carga de violência, crua realidade e forte conteúdo sexual. O enredo gira em torno de um padeiro e sua esposa que, amaldiçoados por uma bruxa, não podem ter filhos. Para anular a maldição eles devem reunir vários objetos na floresta. Em meio às árvores, os personagens e seus desejos se encontram, entre canções que traduzem os sonhos, dúvidas e angústias de cada um. Anseiam por príncipes, por pães e doces, um punhado de dinheiro, um filho, a descoberta de novas paisagens ou o fim do sofrimento.  Para alcançar seus desejos, embrenham-se em caminhos tortuosos, esgueirando-se entre as sombras. Caminhos da Floresta reúne as histórias de Cinderela (Anna Kendrick), Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford), João e o Pé de Feijão (Daniel Hittlestone) e Rapunzel (Mackenzie Mauzy). James Lapine, autor do premiado musical homônimo que deu origem ao filme, ampliou o papel dos pais de Rapunzel e transformou-os no padeiro e sua esposa (James Corden e Emily Blunt). A interação destes com a bruxa interpretada por Meryl Streep é o fio condutor da trama. A escolha de Rob Marshall como diretor dá a impressão de que os produtores apelaram para um plano B por não terem conseguido Tim Burton, uma opção muito mais próxima do espírito sombrio da peça de teatro. Ambientação escura, a equipe técnica de Burton e a presença de Johnny Depp (como o Lobo Mau) dão pistas nesta direção. A direção, entretanto, parece tímida e um tanto frouxa. Diante de Meryl Streep, o diretor desaparece e a atriz domina a cena. Ao contrário do musical do teatro, denso e angustiado ao extremo – em que Rapunzel é assassinada, seu príncipe fica cego, a mulher do padeiro trai o marido e é explícita a tensão sexual entre chapeuzinho vermelho e o lobo –, o filme retoma o destino dos personagens como são retratados nos contos dos Grimm. Evita o peso da versão da Broadway mas igualmente esquiva-se dos finais felizes-para-sempre que as histórias adquiriram nos desenhos da Disney. Sabiamente, o filme afasta-se de ambos os extremos. Mesmo assim, é no mínimo curioso que esse resgate do sentido original dos contos de fada nos chegue por intermédio da Disney – que, junto com Charles Perrault, foi a responsável pela dulcificação dos conteúdos das histórias para adequá-las ao público infantil. O melhor de Caminhos da Floresta é a música. A adaptação cinematográfica manteve a maior parte das canções da montagem teatral, todas do lendário Stephen Sondheim, incluindo Children Will Listen, Giants in the Sky, On the Steps of the Palace, No One Is Alone e Agony. Anna Kendrick Anna Kendrick – que antes de mergulhar na saga Crepúsculo já havia construído uma…

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Eu quero! Eu desejo! Quando os desejos se concretizam, resta uma pergunta: quanto e o que custaram? A exploração meticulosa do longo caminho entre o desejo formulado e sua concretização é a proposta de Caminhos da Floresta (Into the Woods). O filme, dirigido por Rob Marshall, mescla vários contos dos irmãos Grimm e recupera muito do sentido original dos tradicionais contos de fada, com sua carga de violência, crua realidade e forte conteúdo sexual.

O enredo gira em torno de um padeiro e sua esposa que, amaldiçoados por uma bruxa, não podem ter filhos. Para anular a maldição eles devem reunir vários objetos na floresta. Em meio às árvores, os personagens e seus desejos se encontram, entre canções que traduzem os sonhos, dúvidas e angústias de cada um. Anseiam por príncipes, por pães e doces, um punhado de dinheiro, um filho, a descoberta de novas paisagens ou o fim do sofrimento.  Para alcançar seus desejos, embrenham-se em caminhos tortuosos, esgueirando-se entre as sombras.

INTO THE WOODSCaminhos da Floresta reúne as histórias de Cinderela (Anna Kendrick), Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford), João e o Pé de Feijão (Daniel Hittlestone) e Rapunzel (Mackenzie Mauzy). James Lapine, autor do premiado musical homônimo que deu origem ao filme, ampliou o papel dos pais de Rapunzel e transformou-os no padeiro e sua esposa (James Corden e Emily Blunt). A interação destes com a bruxa interpretada por Meryl Streep é o fio condutor da trama.

A escolha de Rob Marshall como diretor dá a impressão de que os produtores apelaram para um plano B por não terem conseguido Tim Burton, uma opção muito mais próxima do espírito sombrio da peça de teatro. Ambientação escura, a equipe técnica de Burton e a presença de Johnny Depp (como o Lobo Mau) dão pistas nesta direção. A direção, entretanto, parece tímida e um tanto frouxa. Diante de Meryl Streep, o diretor desaparece e a atriz domina a cena.

into-the-woods-wolf-redAo contrário do musical do teatro, denso e angustiado ao extremo – em que Rapunzel é assassinada, seu príncipe fica cego, a mulher do padeiro trai o marido e é explícita a tensão sexual entre chapeuzinho vermelho e o lobo –, o filme retoma o destino dos personagens como são retratados nos contos dos Grimm. Evita o peso da versão da Broadway mas igualmente esquiva-se dos finais felizes-para-sempre que as histórias adquiriram nos desenhos da Disney. Sabiamente, o filme afasta-se de ambos os extremos.

Mesmo assim, é no mínimo curioso que esse resgate do sentido original dos contos de fada nos chegue por intermédio da Disney – que, junto com Charles Perrault, foi a responsável pela dulcificação dos conteúdos das histórias para adequá-las ao público infantil.

O melhor de Caminhos da Floresta é a música. A adaptação cinematográfica manteve a maior parte das canções da montagem teatral, todas do lendário Stephen Sondheim, incluindo Children Will Listen, Giants in the Sky, On the Steps of the Palace, No One Is Alone e Agony.

INTO THE WOODS

Anna Kendrick

Anna Kendrick – que antes de mergulhar na saga Crepúsculo já havia construído uma sólida carreira na Broadway, inclusive em vários musicais de Sondheim – é o destaque: voz e interpretação impecáveis a fazem distanciar-se do restante do elenco.

Chris Pine, que faz o Príncipe Encantado, intencionalmente caricato, rasga a camisa e sacode os cabelos entre respingos d’água e um festival de caras e bocas no dueto Agony, com Billy Magnussen. Impossível evitar as gargalhadas.

Johnny Deep deixa fluir o clima de sedução subjacente na história de Chapeuzinho Vermelho e que foi estudado com profundidade por Bruno Bettelheim no clássico “A psicanálise dos contos de fadas”.

A melhor surpresa é Emily Blunt, que rouba todas as cenas. Sua química com James Corden, o padeiro, é responsável por alguns dos melhores momentos do filme. Sem falar do timing magnífico e da sensibilidade quando canta Moments in the Woods.

Meryl Streep, como sempre, impecável. Seu personagem na montagem original é uma alusão às mães superprotetoras e a atriz busca preservar esse tom, particularmente quando interpreta Stay With Me. Rendeu-lhe a 19ª indicação ao Oscar.

Texto: Sonia Zaghetto

Elenco: Meryl Streep, Emily Blunt, James Corden, Anna Kendrick, Chris Pine, Tracey Ullman, Christine Baranski e Johnny Depp.

Diretor: Rob Marshall
Roteiro: James Lapine
Baseado na peça musical de: Stephen Sondheim e James Lapine

Curiosidades

Caminhos da Floresta estreou na Broadway em 5 de novembro de 1987, no Martin Beck Theatre. A produção, que fez 764 apresentações, ganhou o prêmio Tony de melhor trilha sonora, melhor livro e melhor atriz em musical. Entre outros prêmios, o musical ganhou cinco prêmios Drama Desk, incluindo o de melhor musical. Caminhos da Floresta foi produzido pelo mundo todo, incluindo uma turnê nos EUA em 1988, uma produção do West End de 1990, remontagens na Broadway e em Londres, além de uma produção de TV, uma gravação em DVD e um concerto no 10º aniversário.

• O filme concorre a três Oscar: melhor atriz coadjuvante, com Meryl Streep; figurino e design de produção.

Para assistir ao trailer, clique aqui

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