Cinderela

Cinderela

Refilmar um clássico é desafio. Filmar em live-action um dos desenhos mais icônicos da Disney, em uma época na qual histórias de fadas são revisitadas e os papéis femininos tradicionais estão sob forte vigilância, é desafio quadruplicado. Mas Kenneth Branagh não se intimidou. Sua Cinderela consegue a mágica de unir, em um filme visualmente espetacular, o espírito do conto original e atitudes mais modernas, sem perder a mensagem essencial do triunfo da bondade e da gentileza. Cinderela é a história mais conhecida do cinema, e já foi recriada em centenas de produções cinematográficas, desde Georges Mélliès em 1899 (veja aqui), passando por Mary Pickford em 1914,  pelo clássico desenho da Disney de 1951 e desaguando em Para Sempre Cinderela, filme de Andy Tennant  com Drew Barrymore no papel principal. Acredita-se que as primeiras versões escritas de Cinderela datam do século I d.C. - um texto do escritor grego Strabo. O psicólogo Bruno Bettelheim registra, ainda, que no século IX d.C., na China, o conto tornou-se popular e, dessa época, viria o detalhe dos pés minúsculos. Esta versão de Branagh, produzida pela própria Disney, quase não adiciona novos elementos à milenar fábula, mas consegue encantar ao investir em um jeito deslumbrante de recontar antigas histórias. Aliás, suponho que eu não precise contar em detalhes a história da jovem Ella (Lily James, de Downton Abbey), órfã que é submetida à crueldade da madrasta (Cate Blanchett) e de suas filhas, Anastasia (Holliday Grainger) e Drisella (Sophie McShera), e, com a ajuda de uma fada-madrinha (Helena Bonham Carter) conhece o príncipe Kit (Richard Madden, de Game of Thrones) com quem será feliz para sempre. É óbvio que depois de Valente e Frozen, espera-se que os Estúdios Disney não mais retrocedam à época da donzela passiva que apenas espera pelo amor de um homem. Mas como fazer isso de forma a não alterar substancialmente a conhecidíssima história da moça coberta de cinzas que se casa com o príncipe? Kenneth Branagh encontrou o ponto certo. Desde o primeiro momento, de um fortuito encontro da floresta, Cinderela não é submissa ao príncipe, não se mostra intimidada e emite opiniões contrárias às dele. Com sutileza, Brannagh e o roteirista Chris Weitz mostram uma relação igualitária entre os protagonistas. Cinderela é positiva e honesta. “Tenha coragem e seja gentil" é o mantra que repete, mesmo nas horas da adversidade.  Não é uma atitude de quem se encolhe diante do opressor, mas uma sábia estratégia de sobrevivência aprendida com a mãe (Hayley Atwell): coragem para encarar os momentos duros, sem se deixar abater pela perversidade dos outros. Não é simples: requer descomunal autocontrole não se permitir ser contaminado pelo amargor alheio. Cinderela, portanto, é frágil apenas na aparência. Ela está no controle.  A crueldade da madrasta não altera o que ela considera essencial: a autopreservação, o refinamento do gesto. Na sequência final, enquanto todos os outros personagens se debatem entre raiva, maquinações e desejos, ela simplesmente canta. As grades não a prendem de fato. Sua felicidade não depende de parceiro ou…

A Cinderela de Kenneth Branagh consegue a mágica de unir em um filme visualmente espetacular o espírito do conto original com atitudes mais modernas e sem perder a mensagem essencial do triunfo da bondade e da gentileza.consegue a mágica de unir em um filme visualmente espetacular o espírito do conto original com atitudes mais modernas e sem perder a mensagem essencial do triunfo da bondade e da gentileza.

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Refilmar um clássico é desafio. Filmar em live-action um dos desenhos mais icônicos da Disney, em uma época na qual histórias de fadas são revisitadas e os papéis femininos tradicionais estão sob forte vigilância, é desafio quadruplicado. Mas Kenneth Branagh não se intimidou. Sua Cinderela consegue a mágica de unir, em um filme visualmente espetacular, o espírito do conto original e atitudes mais modernas, sem perder a mensagem essencial do triunfo da bondade e da gentileza.cinderella poster 2

Cinderela é a história mais conhecida do cinema, e já foi recriada em centenas de produções cinematográficas, desde Georges Mélliès em 1899 (veja aqui), passando por Mary Pickford em 1914,  pelo clássico desenho da Disney de 1951 e desaguando em Para Sempre Cinderela, filme de Andy Tennant  com Drew Barrymore no papel principal.

Acredita-se que as primeiras versões escritas de Cinderela datam do século I d.C. – um texto do escritor grego Strabo. O psicólogo Bruno Bettelheim registra, ainda, que no século IX d.C., na China, o conto tornou-se popular e, dessa época, viria o detalhe dos pés minúsculos. Esta versão de Branagh, produzida pela própria Disney, quase não adiciona novos elementos à milenar fábula, mas consegue encantar ao investir em um jeito deslumbrante de recontar antigas histórias.

Aliás, suponho que eu não precise contar em detalhes a história da jovem Ella (Lily James, de Downton Abbey), órfã que é submetida à crueldade da madrasta (Cate Blanchett) e de suas filhas, Anastasia (Holliday Grainger) e Drisella (Sophie McShera), e, com a ajuda de uma fada-madrinha (Helena Bonham Carter) conhece o príncipe Kit (Richard Madden, de Game of Thrones) com quem será feliz para sempre.

É óbvio que depois de Valente e Frozen, espera-se que os Estúdios Disney não mais retrocedam à época da donzela passiva que apenas espera pelo amor de um homem. Mas como fazer isso de forma a não alterar substancialmente a conhecidíssima história da moça coberta de cinzas que se casa com o príncipe? Kenneth Branagh encontrou o ponto certo. Desde o primeiro momento, de um fortuito encontro da floresta, Cinderela não é submissa ao príncipe, não se mostra intimidada e emite opiniões contrárias às dele.

Com sutileza, Brannagh e o roteirista Chris Weitz mostram uma relação igualitária entre os protagonistas. Cinderela é positiva e honesta. “Tenha coragem e seja gentil” é o mantra que repete, mesmo nas horas da adversidade.  Não é uma atitude de quem se encolhe diante do opressor, mas uma sábia estratégia de sobrevivência aprendida com a mãe (Hayley Atwell): coragem para encarar os momentos duros, sem se deixar abater pela perversidade dos outros. Não é simples: requer descomunal autocontrole não se permitir ser contaminado pelo amargor alheio. Cinderela, portanto, é frágil apenas na aparência. Ela está no controle.  A crueldade da madrasta não altera o que ela considera essencial: a autopreservação, o refinamento do gesto. Na sequência final, enquanto todos os outros personagens se debatem entre raiva, maquinações e desejos, ela simplesmente canta. As grades não a prendem de fato. Sua felicidade não depende de parceiro ou de fortuna. Lily James irradia a pureza e a bondade presentes na heroína do desenho dos anos 50.cinderella-2015-38117842-1600-2400

As alterações de Brannag e Weitz resultaram em um aprofundamento da psicologia do personagem. Cinderela é alguém que tenta entender as razões das atitudes alheias e oferece a outra face, não como demonstração de covardia, mas de força e maturidade.

Além de Cinderela, outras mulheres dominam o filme. Cate Blanchett, como Lady Tremaine, equilibra-se entre a glacial elegância e a crueldade. Impossível tirar os olhos dela. Com seus trejeitos afetados e vestidos espetaculares, Blanchett é uma força da natureza, formidável em sua interpretação da arquetípica figura da madrasta. O roteiro permite a ela explicar a origem da maldade do personagem e sua impotência diante da realidade que a arrasta para um destino que não deseja. Blanchett  o faz em pequenos gestos que traduzem a dor e o inconformismo diante de sonhos despedaçados.

A fada madrinha é o contraponto de leveza e diversão no elenco. Uma fada algo atrapalhada, distante da perfeição, mas cheia de uma graça que a humaniza e nos encanta.CINDERELLA

A mãe de Cinderella marca sua curta passagem com a forte impressão que deixa sobre a filha. É ela quem permanece como a orientadora  dos atos da menina que aos poucos se converte em jovem mulher, plena de força e segurança.

Como diz uma das canções do filme, há um mínimo de magia. Nesse caso, a mágica dos efeitos especiais. Não fez falta. O visual suntuoso foi obtido por um design de produção caprichado (o ótimo Dante Ferretti), figurino deslumbrante, uma enérgica paleta de cores e a fotografia competente de Haris Zambarloukos (Mamma Mia!), todos harmoniosamente combinados para produzir uma experiência emocionante.

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Elisabeth da Áustria

Na mistura de estilos vê-se elementos de tudo o que nosso mundo ocidental concebeu em termos de romantismo e de realeza: o salão de baile e a decoração do palácio remetem à ostentação dos brocados, veludos, mármores e dourados de palácios como Versalhes; e às escadarias da Ópera Garnier, em Paris.  As estrelas de diamante nos cabelos e o vestido cheio de anáguas de Cinderela evocam Elisabeth da Áustria, a lendária Sissi.cinder prince

As fotografias de divulgação transmitem mensagens de paixão, beleza e aristocracia, inclusive uma delas, que parece foto oficial de algum novo novo casal reinante de Buckingham.

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O Balanço, de Jean-Honoré Fragonard

A imagem de Cinderela no balanço com o príncipe têm como clara referência as cenas galantes do rococó. Impossível não associá-la a Fragonard, cuja obra “O balanço” retrata uma relação ilícita, no qual o sapato da jovem retratada escapa do pé.

E o que dizer do céu de Goya ao fundo do pôster de Cinderela fugindo do príncipe?

Como diretor, Branagh sempre demonstrou um talento particular para visuais espetaculares – que o diga seu Hamlet. Em Cinderela, as primeiras cenas são banhadas por uma atmosfera de felicidade traduzida por uma luz suave e dourada. A mesma luz que parece seguir Cinderela adulta por toda parte.

A abóbora transformada em carruagem e o lagarto que se converte em lacaio são momentos em que a criatividade iluminou o já conhecido. As cenas de salão de baile são explosões de cor e de energia.cate

A Lady Tremaine de Blanchett evoca as divas do cinema da década de 40.  A figurinista Sandy Powell (Shakespeare Apaixonado, O Aviador e A Jovem Victoria) mais uma vez demonstra toda a sua maestria.

Já cansei de lamentar que Branagh tenha deixado, como ator e diretor, a imponência majestosa de Shakespeare, para abraçar os blockbusters (Harry Potter, Thor), mas consolou-me desta vez vê-lo recriar o clássico de Perrault recorrendo à  teatralidade cenográfica para criar as cores impossíveis e a beleza irreal de um conto de fadas agora rejuvenescido.

 

Texto: Sonia Zaghetto  (sonia@artelivre.net)

Sete informações extras sobre Cinderela

  1. Algo que lamentei: a perda, na tradução, do delicioso trocadilho Cinder (cinzas, em inglês) + Ella (nome da personagem.
  2. Nos cinemas, Cinderella é precedido por dez minutos de um curta chamado “Febre Frozen”, no qual Elsa, Anna, Olaf e todo o elenco do filme de 2013 aparecem em uma nova aventura.
  3. O filme original Cinderela (Cinderella) foi um sucesso monumental na história cinematográfica da Disney. Com um orçamento de produção de quase $3 milhões, o filme foi um enorme risco financeiro para o estúdio na época, mas foi recebido com aclamação da crítica e faturou mais de $34 milhões, solidificando firmemente o estúdio como uma grande força no setor. Hoje, o filme está incluído na lista do American Film Institute entre os “10 Melhores Filmes de Animação de Todos os Tempos” e é um dos títulos mais estimados do estúdio.
  4. Em 1697, o escritor francês Charles Perrault publicou uma nova versão do conto milenar, intitulada “Cendrillon or the History of the Little Glass Slipper”. Perrault apresentou a fada madrinha e a carruagem de abóbora. Nela se baseou o desenho da Disney de 1951. A história dos irmãos Grimm, “Aschenputtel”, foi lançada na Alemanha em 1812 e apresentava um pássaro no lugar de uma fada madrinha.
  5. O diretor Kenneth Branagh advertiu que “no roteiro, tentamos deixar bem claro que estávamos apresentando uma garota cuja vida não seria dependente ou definida pela chegada de um homem”. Para ele, a vida de Cinderela não seria dependente nem definida pela chegada de glamour ou de coisas caras. “Esta garota também não seria definida por uma magia disponível facilmente ou por uma força sobrenatural, como uma fada madrinha, como um agente onipotente e onisciente que cuidaria de tudo. A Fada Madrinha ajuda, é claro, mas como na vida, as coisas dependem mais de cada um. Cinderela enfrenta o desafio.
  6. Para elaborar o castelo e o salão de bailes, Dante Ferretti pesquisou arquitetura de diferentes épocas e locais, e acabou tirando grande parte de sua inspiração da Europa nos séculos 16, 17 e 18. O salão de bailes, construído no famoso estúdio de som 007 em Pinewood (Inglaterra) tem impressionantes 45 metros de comprimento e 32 metros de largura, com direito a uma gigantesca escadaria, assoalhos de mármore, cortinas com mais de 1.800 metros e enormes candelabros fabricados especialmente na Itália.
  7. A carruagem dourada usada no filme funciona mesmo e é puxada por quatro cavalos, mas teve toques da equipe de efeitos visuais, é claro

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