Crônica da Semana

Crônica da Semana

São Paulo de Piratininga, aos 11 de março  do Ano da Graça de 2015. Ao Excelentíssimo Senhor Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad Caríssimo alcaide, venho por meio desta – e não de outra - tentar externar minha imensa gratidão à administração de Vossa Senhoria. É preciso notar, senhor Prefeito, que sou de natureza tímida, não sendo da minha índole qualquer tentativa de autopromoção. Hesitei muito antes de finalmente pegar a pena para escrever esta modesta epístola, mas o reconhecimento que sinto por vossos egrégios esforços na administração do Município falou mais alto que minha pudicícia. Mais alto ainda, falou minha fiel esposa, que com apenas um delicado repto ("deixa de frescura, macho, e escreve isso logo!") botou-me a traçar estas linhas. O que motiva este opúsculo foi um fato acontecido semanas atrás. Estava eu aborrecido com tantos percalços da vida, incomodado por ter quebrado minha bengala em um buraco do calçamento, abatido. Decidi então sentar-me ao alpendre, e tomar uma xícara de café, a ver se minha mente arrefecia. Estava lá, preocupado, tentando me acalmar. Olhava para o horizonte, mas horizonte não havia. Apenas centenas de edifícios envoltos em uma nuvem de poeira. Resolvi pousar meus olhos sobre uma praça, mas praça não havia. Se havia, não a divisava lá de cima, enxergando apenas um pouco de lixo, uns bancos quebrados e, num canto, um grupo de jovens. Jovens muito pobres, que compartilhavam o último cigarro com uma estranha sofreguidão... Continuava assim, parado na varanda, tentando achar uma cena que me acalmasse. Sem esperanças, olhei para a rua. Foi aí que se deu o meu momento de epifania. Um gozo urbanístico, caro prefeito! Pois bem, olhei para a rua, desiludido. De um lado um ponto de ônibus, totalmente lotado de pessoas ansiosas, estarrecidas com a demora. Pensei com piedade nesses seres perturbados, que não conseguem esperar nem uma hora sequer sem perder a fleuma. Respirei fundo, e segui com meu olhar para a calçada. Ambulantes, camelôs, skates, cães, transeuntes.... Uma barafunda de pessoas a tropeçarem umas nas outras e nos onipresentes buracos. Mais adiante, um menino esperava o fechar do semáforo para atravessar a rua. Segui seus passos com dificuldade, pois ele se embrenhou no meio dos carros, parou ao lado de um deles, mostrou algo ao motorista (um brinquedo?) e saiu correndo, com um outro objeto na mão.... Já estava ficando farto de tal cena quando o menino pisou rapidamente numa área vermelha do terreno. Meus olhos pararam hipnotizados e perdi o menino. Mas achei cousa mais interessante... Uma faixa vermelha! Sim, senhor alcaide, uma simples faixa vermelha pintada no asfalto, mas com uma estranha particularidade que me seduziu de imediato: o vácuo! A faixa seguia por toda a rua, vermelha, vazia, sem movimento, pairando como um toque de absurdo entre o congestionamento de carros à esquerda e o de pedestres à direita. Uma linha perfeita, uma incisão cirúrgica, um território demarcado. Sem ninguém, nada, somente a cor vermelha, pura, sobre o asfalto. Emocionei-me de imediato com a…

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São Paulo de Piratininga, aos 11 de março  do Ano da Graça de 2015.

Ao Excelentíssimo Senhor Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad

Caríssimo alcaide,

venho por meio desta – e não de outra – tentar externar minha imensa gratidão à administração de Vossa Senhoria. É preciso notar, senhor Prefeito, que sou de natureza tímida, não sendo da minha índole qualquer tentativa de autopromoção.

Hesitei muito antes de finalmente pegar a pena para escrever esta modesta epístola, mas o reconhecimento que sinto por vossos egrégios esforços na administração do Município falou mais alto que minha pudicícia. Mais alto ainda, falou minha fiel esposa, que com apenas um delicado repto (“deixa de frescura, macho, e escreve isso logo!”) botou-me a traçar estas linhas.

O que motiva este opúsculo foi um fato acontecido semanas atrás. Estava eu aborrecido com tantos percalços da vida, incomodado por ter quebrado minha bengala em um buraco do calçamento, abatido. Decidi então sentar-me ao alpendre, e tomar uma xícara de café, a ver se minha mente arrefecia. Estava lá, preocupado, tentando me acalmar. Olhava para o horizonte, mas horizonte não havia. Apenas centenas de edifícios envoltos em uma nuvem de poeira. Resolvi pousar meus olhos sobre uma praça, mas praça não havia. Se havia, não a divisava lá de cima, enxergando apenas um pouco de lixo, uns bancos quebrados e, num canto, um grupo de jovens. Jovens muito pobres, que compartilhavam o último cigarro com uma estranha sofreguidão…

Continuava assim, parado na varanda, tentando achar uma cena que me acalmasse. Sem esperanças, olhei para a rua. Foi aí que se deu o meu momento de epifania. Um gozo urbanístico, caro prefeito! Pois bem, olhei para a rua, desiludido. De um lado um ponto de ônibus, totalmente lotado de pessoas ansiosas, estarrecidas com a demora. Pensei com piedade nesses seres perturbados, que não conseguem esperar nem uma hora sequer sem perder a fleuma.

Respirei fundo, e segui com meu olhar para a calçada. Ambulantes, camelôs, skates, cães, transeuntes…. Uma barafunda de pessoas a tropeçarem umas nas outras e nos onipresentes buracos. Mais adiante, um menino esperava o fechar do semáforo para atravessar a rua. Segui seus passos com dificuldade, pois ele se embrenhou no meio dos carros, parou ao lado de um deles, mostrou algo ao motorista (um brinquedo?) e saiu correndo, com um outro objeto na mão….

Já estava ficando farto de tal cena quando o menino pisou rapidamente numa área vermelha do terreno. Meus olhos pararam hipnotizados e perdi o menino. Mas achei cousa mais interessante… Uma faixa vermelha! Sim, senhor alcaide, uma simples faixa vermelha pintada no asfalto, mas com uma estranha particularidade que me seduziu de imediato: o vácuo! A faixa seguia por toda a rua, vermelha, vazia, sem movimento, pairando como um toque de absurdo entre o congestionamento de carros à esquerda e o de pedestres à direita. Uma linha perfeita, uma incisão cirúrgica, um território demarcado. Sem ninguém, nada, somente a cor vermelha, pura, sobre o asfalto.

Emocionei-me de imediato com a beleza daquela solidão encarnada. Meus olhos cansados de tanto movimento enfim encontraram onde pousar-se. Ali estava um espaço demarcado da cidade, onde nada, nem ninguém se atrevia a invadir. Uma área livre, desmilitarizada. Uma Reserva vermelha no mundo, mostrando como a cidade pode ser mais bela sem as pessoas para atrapalhar.

Ato contínuo, sorri. Meus pensamentos refrearam-se. Meu coração aquietou-se. A paz era uma faixa vermelha, intocada por mãos humanas.

Infelizmente, caro prefeito, nada que é bom é eterno. Minha contemplação da beleza da estreita faixa bike2vermelha não pôde durar mais que duas horas. Já escurecia quando um insano conspurcou a pureza da sua faixa, prefeito, passeando – imagine! – em uma velha bicicleta.

Mesmo assim, sou grato ao seu trabalho, senhor prefeito. Jamais poderia, sem a sua vanguardista visão, poder desfrutar de uma pequena faixa despovoada nessa cidade. Muito obrigado. Continue obrando, alcaide. Continue obrando! Com meus mais elevados protestos de estima e consideração,

Subscrevo-me,

S. Belisário

Munícipe

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Texto de Ricardo Pulido (artelivre@artelivre.net)

faixa

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