Crônica da Semana

Crônica da Semana

Mulatinho Sonia Zaghetto sonia@artelivre.net Basta abrir meus olhos logo cedo, quando os pardais ainda dormem, para eu lembrar de Mulatinho. Passados tantos anos, o velho ainda preenche minhas manhãs com seu chapéu de palha e sua voz grossa como a casca da árvore que então vivia no quintal de minha casa. Eu tinha seis anos e lembro bem do dia em que o vi pela primeira vez. Morava numa cabana, caindo aos pedaços, ao lado de minha casa. Encolhido e pequenino, parecia um caramujo.  Espichei o pescoço e enxerguei os pés rachados que, nus, pisavam o chão. O inseparável chapéu na cabeça e roupas muito velhas compunham sua figura. “Oi”, aproximei-me devagar; a boneca pendurada por um dos braços. Ele apenas me olhou, cachimbo na mão, os olhos meio fechados por causa do sol. Sorriu um riso banguela e coçou a carapinha feita de pequenos rolos de cabelo branco. Ficamos ali, em silêncio, nos estudando. Desviou os olhos. Logo uma baforada do cachimbo apresentou uma nuvem de aromas novos às minhas narinas. Aproximei-me mais: ele cheirava a peixe; um cheiro tão amazônico que denuncia quando a pessoa não usa sabonete. Parece que o peixe gruda na pele e fica lá. Seu cheiro mistura-se aos odores de cada um e produz aquele aroma tão comum e, ao mesmo tempo, particular. Na hora do almoço, a mãe – sempre atenta à fome alheia – me disse: “Leve esse prato para o Mulatinho”. Uma fagulha de alegria tomou meu peito. Peguei o prato como se carregasse a liteira do rei da Espanha e acompanhei atentamente a mão preta que tomou a colher e levou a comida à boca. O caldo do feijão escorreu pelo pontilhado da barba branca e aninhou-se na camisa. Vi que eles se aconchegaram bem no local onde, antes, já haviam se hospedado vários remendos. O velho abriu a boca e seu riso sem dentes encheu de sol a minha manhã. Sorri de volta e saí correndo. Eu era útil, importante e – o melhor – tinha um novo amigo. No outro dia, as mãos enrugadas de Mulatinho me entregaram um embrulho de jornal. Era pequeno e o jornal estava manchado com algo ferruginoso, mas não importava. Abri com volúpia o embrulhinho. Saltou dele uma cesta tecida de palha. Minúscula. Passou a ser meu tesouro. Lili a viu logo. Nem havia como não vê-la, pois eu a exibia sem pudor. Desde esse dia, nunca mais deixei de levar a comida e de receber cestinhas, paneiros e outros mimos –  tudo minúsculo e feito de capim. Ele sorria, tímido. Nunca trocávamos muitas palavras, mas havia sorrisos, olhares, gentilezas. “Mulatinhooooooo” e ele surgia, vergado, as pernas de galhos tortos se esforçando para vir rápido. Deve ter mais de cem anos – eu pensava. Um dia dei-lhe um doce. Sorriu agradecido. E na minha alma de criança floresceu um jardim inteiro. Criei histórias de fadas em que cestinhos de palha enchiam-se de puro ouro; e histórias em que a amizade desconhecia diferenças. Até que, numa…

Uma menina, um ex-escravo, brinquedos feitos de palha e uma lembrança que atravessou o tempo.

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Mulatinho

Sonia Zaghetto

sonia@artelivre.net

Basta abrir meus olhos logo cedo, quando os pardais ainda dormem, para eu lembrar de Mulatinho. Passados tantos anos, o velho ainda preenche minhas manhãs com seu chapéu de palha e sua voz grossa como a casca da árvore que então vivia no quintal de minha casa.

Eu tinha seis anos e lembro bem do dia em que o vi pela primeira vez. Morava numa cabana, caindo aos pedaços, ao lado de minha casa. Encolhido e pequenino, parecia um caramujo.  Espichei o pescoço e enxerguei os pés rachados que, nus, pisavam o chão. O inseparável chapéu na cabeça e roupas muito velhas compunham sua figura. “Oi”, aproximei-me devagar; a boneca pendurada por um dos braços.

Ele apenas me olhou, cachimbo na mão, os olhos meio fechados por causa do sol. Sorriu um riso banguela e coçou a carapinha feita de pequenos rolos de cabelo branco. Ficamos ali, em silêncio, nos estudando. Desviou os olhos. Logo uma baforada do cachimbo apresentou uma nuvem de aromas novos às minhas narinas. Aproximei-me mais: ele cheirava a peixe; um cheiro tão amazônico que denuncia quando a pessoa não usa sabonete. Parece que o peixe gruda na pele e fica lá. Seu cheiro mistura-se aos odores de cada um e produz aquele aroma tão comum e, ao mesmo tempo, particular.

Na hora do almoço, a mãe – sempre atenta à fome alheia – me disse: “Leve esse prato para o Mulatinho”. Uma fagulha de alegria tomou meu peito. Peguei o prato como se carregasse a liteira do rei da Espanha e acompanhei atentamente a mão preta que tomou a colher e levou a comida à boca. O caldo do feijão escorreu pelo pontilhado da barba branca e aninhou-se na camisa. Vi que eles se aconchegaram bem no local onde, antes, já haviam se hospedado vários remendos.

O velho abriu a boca e seu riso sem dentes encheu de sol a minha manhã. Sorri de volta e saí correndo. Eu era útil, importante e – o melhor – tinha um novo amigo.

No outro dia, as mãos enrugadas de Mulatinho me entregaram um embrulho de jornal. Era pequeno e o jornal estava manchado com algo ferruginoso, mas não importava. Abri com volúpia o embrulhinho. Saltou dele uma cesta tecida de palha. Minúscula. Passou a ser meu tesouro.

Lili a viu logo. Nem havia como não vê-la, pois eu a exibia sem pudor. Desde esse dia, nunca mais deixei de levar a comida e de receber cestinhas, paneiros e outros mimos –  tudo minúsculo e feito de capim. Ele sorria, tímido. Nunca trocávamos muitas palavras, mas havia sorrisos, olhares, gentilezas. “Mulatinhooooooo” e ele surgia, vergado, as pernas de galhos tortos se esforçando para vir rápido. Deve ter mais de cem anos – eu pensava.

Um dia dei-lhe um doce. Sorriu agradecido. E na minha alma de criança floresceu um jardim inteiro. Criei histórias de fadas em que cestinhos de palha enchiam-se de puro ouro; e histórias em que a amizade desconhecia diferenças.

Até que, numa tarde, minha voz se perdeu. “Mulatinho?”. Chamei-o de novo. Uma enorme e profunda mudez pairou. Estará dormindo? “Mãe, o mulatinho não quis a comida!”, contei amuada, relutando em entender a recusa. “Não quis?”. “Não”.

A mãe saiu da cabana um pouco mais pálida, seus longos cabelos esvoaçando sobre o vestido amarelo. Chamou meu pai a um canto. O pai chamou a Madalena, que avisou a Iracema, que alertou o Emiliano, que disse ao Dora, ao Evilásio, à tia Dóris, ao Padre Tomás e ao Estevinho. Os sussurros se multiplicaram, baixinho.

Espiei pela porta e vi o mulato encolhido no catre.

“Talvez esteja com frio”, pensei. Ou doente. Ninguém me disse uma sílaba. Mas, como eu perguntasse demais, papai me convidou para pescar no rio. No fim da tarde, carregados de peixes fisgados entre risadas, vimos um pequeno cortejo passar na rua estreita que levava ao cemitério. Um caixão de madeira bruta, cor de terra e de capim ressequido, seguia lá no meio.

Ninguém chorava, mas dentro do meu coração de menina algo avisou que naquela caixa tosca viajava o tecelão. Um sentimento estranho foi se embrenhando e fiquei olhando os homens brutos que já sumiam na curva e levavam consigo minha fábrica de brinquedos.

Nos outros dias, pendurada na janela, eu olhava a casa vazia. Vieram as chuvas, o Natal e outras chuvas, até que, numa manhã em que os pássaros estavam particularmente quietos, um estrondo anunciou que a casa do Mulato estava sendo movida para o passado. Os operários puseram abaixo a cabana e uma fogueira transformou em cinzas os panos e coisas velhas do vizinho.

Muitos meses depois, no lugar onde minha infância começou, construíram uma biblioteca. Uma estante de livros está hoje sobre o cantinho onde o velho Mulatinho acendeu minha imaginação. E eu, que vivo tão longe daquelas terras, daria tudo para voltar à época das cestinhas.

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