Poemas sobre a morte

Poemas sobre a morte

Gustave Doré. Death on the Pale Horse 1. Romance, de Mário Faustino Para as Festas da Agonia Vi-te chegar, como havia Sonhado já que chegasses: Vinha teu vulto tão belo Em teu cavalo amarelo, Anjo meu, que, se me amasses, Em teu cavalo eu partira Sem saudade, pena, ou ira; Teu cavalo, que amarraras Ao tronco de minha glória E pastava-me a memória, Feno de ouro, gramas raras. Era tão cálido o peito Angélico, onde meu leito Me deixaste então fazer, Que pude esquecer a cor Dos olhos da Vida e a dor Que o Sono vinha trazer. Tão celeste foi a Festa, Tão fino o Anjo, e a Besta Onde montei tão serena, Que posso, Damas, dizer-vos E a vós, Senhores, tão servos De outra Festa mais terrena — Não morri de mala sorte, Morri de amor pela Morte. 2. Consoada, de Manuel Bandeira Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: - Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com os seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar. 3.  A Morte Chega Cedo, de Fernando Pessoa A morte chega cedo, Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida.   O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou.   E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto. 4. Dizeres Íntimos, Florbela Espanca É tão triste morrer na minha idade! E vou ver os meus olhos, penitentes Vestidinhos de roxo, como crentes Do soturno convento da Saudade!E logo vou olhar (com que ansiedade! ...) As minhas mãos esguias, languescentes, De brancos dedos, uns bebês doentes Que hão-de morrer em plena mocidade! E ser-se novo é ter-se o Paraíso, É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, Aonde tudo é luz e graça e riso! E os meus vinte e três anos ... (Sou tão nova!) Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ...” Responde a minha Dor: “Que linda a cova!” 5. A um ausente, de Carlos Drummond de Andrade Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair.   Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada?   Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e…

Romance, poema de Mário Faustino

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Gustave_Doré_-_Death_on_the_Pale_Horse_(1865)

Gustave Doré. Death on the Pale Horse

1. Romance, de Mário Faustino

Para as Festas da Agonia

Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —

Não morri de mala sorte,

Morri de amor pela Morte.

2. Consoada, de Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

3.  A Morte Chega Cedo, de Fernando Pessoa

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
 
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
 
E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
4. Dizeres Íntimos, Florbela Espanca
É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!E logo vou olhar (com que ansiedade! …)

As minhas mãos esguias, languescentes,

De brancos dedos, uns bebês doentes

Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,

É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,

Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos … (Sou tão nova!) Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! …”

Responde a minha Dor: “Que linda a cova!”

5. A um ausente, de Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
 
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
 
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
 
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
6. Tu tens um medo, de Cecília Meireles

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
 
E então serás eterno.
7.  Vozes de um túmulo, de Augusto dos Anjos

Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho
Destes meus olhos apagou!… Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta…
Hoje, porém, que se desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!

8. Funeral Blues, de W. H. Auden (tradução de Sonia Zaghetto) .

 
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do cão com um osso suculento,
Silenciem os pianos e, com um som abafado de tambor,
Tragam o caixão, deixem vir os enlutados.
Deixem que o vôo circular dos aviões, gemendo lá no alto,
Rabisque no céu a mensagem: Ele está morto,
Ponham fitas de luto nos brancos pescoços dos pombos de rua,
Deixem que os guardas de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana de trabalho e meu descanso de domingo,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, minha canção.
Pensei que o amor duraria para sempre: eu estava errado.
As estrelas não são mais desejadas: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e desmontem o sol;
Derramem o oceano e varram as florestas;
Pois nada agora poderia trazer algo bom.
9. A Mário de Andrade ausente, de Manuel Bandeira
 
Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo, assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra,
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente
 
Mas agora não sinto a sua falta.
 
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
 
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz já tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua.
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.
 
10. Quando Vier a Primavera, de Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
 
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
 
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

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