Crônicas de Viagem – A Amazônia segundo Baco (2)

Crônicas de Viagem – A Amazônia segundo Baco (2)

Artelivre publica  uma série de crônicas de viagem. Não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”. Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado. Clique aqui para ler o Capítulo 1. O segundo capítulo, publicamos a seguir. Capítulo 2 - Um barco na Amazônia   Vinicius Conceição   Esse capítulo é inteiramente dedicado aos dias em que passamos no barco. Vai ter uma pegada meio Kafka porque é difícil estabelecer uma ordem cronológica e linear para os acontecimentos. Portanto, se o seu cérebro está acostumado com roteiros de Avengers, Era de Ultron, Thor, Capitão América, etc, talvez você não esteja pronto para isso. Essa dificuldade em narrar na correta ordem acontece porque os dias no barco são como um confinamento e o ser humano pauta a sua existência pelo início e fim de pequenos ciclos diários: começo do trabalho, hora do café, hora do almoço, dia do futebol, dia de beber, mês de viajar, ano de trabalho. Esses pequenos ciclos são fundamentais no nosso controle existencial particular e, sem eles, ficamos completamente perdidos. Um historiador francês chamado Le Goff afirmava serem esses ciclos tão importantes que o controle sobre eles foi fundamental para o processo de consolidação do domínio cultural da Igreja Católica sobre a cristandade (as badaladas dos sinos da igreja ditavam o ritmo de funcionamento da cidade, por exemplo) O que importa é que, no barco, esses parâmetros cotidianos, que nos fazem ter noção da linearidade do tempo, estavam totalmente comprometidos. Assim, foquei a narrativa nas pessoas e suas histórias em vez de buscar a ordem cronológica dos fatos, tal qual os historiadores pós-modernos e culturalistas, facilmente encontráveis nos diretórios acadêmicos das universidades brasileiras. Vou começar pelas nossas vizinhas mais próximas, que raramente se moviam das suas redes: D. Lori e Nazaré. A primeira era uma velhinha que me acordava com as migalhas dos biscoitos de água e sal que “voavam” pra dentro da minha rede. Acomodou, debaixo de sua rede, uma bagagem gigante, que ela  explicando que era toda a sua bagagem: estava de mudança para a casa do filho, em Porto Velho. A segunda era professora em Rondônia. Na faixa dos 40 anos, extremamente vaidosa, cabelo tingido de loiro, todas as manhãs fazia chapinha ao acordar, lia esses romances eróticos de banca de revista e rapidamente desenvolveu uma paixão ardente pelo seu vizinho de rede: meu amigo Pimmy. Passado o primeiro momento de…

Três amigos, uma viagem pela Amazônia brasileira, pelo Peru e pela Bolívia. Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série de histórias, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões.

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Artelivre publica  uma série de crônicas de viagem. Não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”.

Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado.

Clique aqui para ler o Capítulo 1.

O segundo capítulo, publicamos a seguir.

Capítulo 2 – Um barco na Amazônia

 

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Vinicius Conceição

 

Esse capítulo é inteiramente dedicado aos dias em que passamos no barco. Vai ter uma pegada meio Kafka porque é difícil estabelecer uma ordem cronológica e linear para os acontecimentos. Portanto, se o seu cérebro está acostumado com roteiros de Avengers, Era de Ultron, Thor, Capitão América, etc, talvez você não esteja pronto para isso.

Essa dificuldade em narrar na correta ordem acontece porque os dias no barco são como um confinamento e o ser humano pauta a sua existência pelo início e fim de pequenos ciclos diários: começo do trabalho, hora do café, hora do almoço, dia do futebol, dia de beber, mês de viajar, ano de trabalho. Esses pequenos ciclos são fundamentais no nosso controle existencial particular e, sem eles, ficamos completamente perdidos. Um historiador francês chamado Le Goff afirmava serem esses ciclos tão importantes que o controle sobre eles foi fundamental para o processo de consolidação do domínio cultural da Igreja Católica sobre a cristandade (as badaladas dos sinos da igreja ditavam o ritmo de funcionamento da cidade, por exemplo)

O que importa é que, no barco, esses parâmetros cotidianos, que nos fazem ter noção da linearidade do tempo, estavam totalmente comprometidos. Assim, foquei a narrativa nas pessoas e suas histórias em vez de buscar a ordem cronológica dos fatos, tal qual os historiadores pós-modernos e culturalistas, facilmente encontráveis nos diretórios acadêmicos das universidades brasileiras.

Vou começar pelas nossas vizinhas mais próximas, que raramente se moviam das suas redes: D. Lori e Nazaré. A primeira era uma velhinha que me acordava com as migalhas dos biscoitos de água e sal que “voavam” pra dentro da minha rede. Acomodou, debaixo de sua rede, uma bagagem gigante, que ela  explicando que era toda a sua bagagem: estava de mudança para a casa do filho, em Porto Velho.

A segunda era professora em Rondônia. Na faixa dos 40 anos, extremamente vaidosa, cabelo tingido de loiro, todas as manhãs fazia chapinha ao acordar, lia esses romances eróticos de banca de revista e rapidamente desenvolveu uma paixão ardente pelo seu vizinho de rede: meu amigo Pimmy.

Passado o primeiro momento de animosidade (quando pedimos para levantarem da rede por 5 minutos), na qual agimos todos como legítimos representantes de civilizações que não falam a mesma língua e nutrem desconfiança mútua, construímos a primeira ponte social de uma amizade eterna: oferecemos repelente contra os carapanãs (nome local para mosquitos).

Nazaré nos chamou para visitar Porto Velho, “comer um peixe na orla e passear de carro”. Pediu para tirar uma foto de nós três e, quando a convidamos para se juntar a nós, negou, alegando que queria somente os rapazes na foto. Curiosamente, esse fato que se repetiu várias vezes, ao longo da viagem, com outras senhoras.

Alguns dias depois, em um momento em que estavam somente ela e Pimmy, soltou um “psiu” pro nosso amigo químico e convidou:

– Olha a foto dos gatos lá de casa! Quando Pimmy olhou para a tela do celular, lá estava a foto que havia tirado de nós três!. Meio sem graça, talvez querendo compartilhar a vergonha alheia, Pimmy me chamou para ver, mas ela não quis mostrar. Somente o lolito estava autorizado.

Desde então, Pimmy passou a relatar que acordava com dona Nazaré velando seu sono com incendiários olhares além-balzaquianos, que transmitiam claramente desejos de protagonizar selvagens histórias de

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Pimmy

amor com aquele barbudo aventureiro do cerrado. Era nítido que ela, assim como várias outras pessoas fantasiavam sobre a nossa existência.

Uma noite, Pimmy – a essa altura já entronizado na condição de ninfeto favorito – subiu para a área de lazer após o toque de recolher, a fim de fotografar as estrelas. Quando voltou, dona Nazaré o aguardava:

– Tu não deveria fazer isso.

- Fazer o quê, Dona Nazaré?

- Ficar cheirando pó no teto do barco…

Até hoje me pergunto como ela chegou a uma conclusão tão dadaísta, mas logo aceitamos que fazia parte do imagético popular criado a nosso respeito. Do mesmo rol faz parte o episódio em que um rapaz me perguntou em que trio de forró tocávamos, e o momento em que juraram que éramos cientistas, por causa dos livros que líamos (Gomotinho lia “Mulheres”, do Bukowski!).

O comportamento da Dona Nazaré muito me lembrava a maior, melhor e mais poderosa metrópole da Amazônia: Belém do Pará. Não sei isso ocorreu por ter sido criado na Sibéria emocional que é Brasília – onde se corre o risco de levar multa do condomínio caso se diga “Bom dia” para os vizinhos – mas o fato é que, sempre que eu visitava Belém, sentia uma fortíssima tensão sexual no ar. Uma frase muito comum no interior do Pará é:

-Se a menina já consegue levantar dois baldes cheios de açaí, então já aguenta…

Não é à toa que, enquanto eu ainda comia “churros do Tio” na frente do colégio, minhas primas já estavam grávidas. No barco era possível notar o mesmo clima nas encaradas de cima a baixo que recebíamos de mulheres de todas as idades, no comportamento da dona Nazaré, no jeito de um adolescente homossexual (notadamente oprimido por aquela cultura extremamente machista, conservadora e repressora) que andava pelos cantos, nos observando de longe. Mas o ápice foi D. Lori, UMA SENHORA DIABÉTICA, COM MAIS DE 70 ANOS, PARA QUEM EU LI A PASSAGEM BÍBLICA DA RESSURREIÇÃO DE LÁZARO! Certo dia ela pediu passagem na fila do restaurante e nós três, para auxiliar a pobre e debilitada senhora, pusemos nossas mãos em suas costas e braços para ajudá-la, quando gritou:

– Esses “minino” tão aproveitando pra “mim” alisar!!!!!. Foi a senha para o barco explodir numa gargalhada. Era uma gaiola de araras que reagia em gostosas risadas à tirada humorística colonial e hiperssexualizada.

Havia duas holandesas no barco que compartilharam conosco o papel de atração. Mal subiam para tomar sol na área de lazer e logo se formava um círculo de cadeirinhas ao redor para apreciar as jovens

12flamencas em seus largos biquínis. Era lamentável: parecia a cena do Rei Leão em que o Simba e a Nala sobem nos domínios proibidos do Scar e aquelas hienas da cracolândia da selva os rodeavam, lambendo os beiços. Eu e Gomoto ainda tentamos, de maneira sutil, incorporar o papel do pássaro chato que avisa sobre os perigos do cemitério de elefantes. Tudo em vão. Chegamos à conclusão de que os europeus são os novos bons selvagens: puros e inocentes.

A propósito, já que falamos nas holandesas, devo dizer que elas foram responsáveis por fazer ressurgir em nossas vidas o antigo desafeto de Gomoto: o “Considerado”, mencionado no primeiro dia de viagem. Com seu gingado malemolente, sua marca registrada (a expressão “Considerado”) e suas frases que iniciavam e terminavam com o pronome “Eu”, virou-se pra mim e disse:

- Eae “considerado”, tu num tem as mora de falar em inglês com essas holandesa pra mim?

- Claro que tenho, “Considerado”, vamo lá. O que que tu quer?

– Eu queria beijar essas holandesa, eu.

- Cara, vai ser difícil….

- Eu quero demais, eu. Ajuda eu, Considerado.

E então começamos uma dança do acasalamento com tradução simultânea. Por si só já seria constrangedor, mas, pra completar, juntaram mais quatro ou cinco amigos dele que estavam interessados nas moças. Ao mesmo tempo que iam para ver o processo, aproveitavam para dar em cima coletivamente. As perguntas eram as melhores e conheci mais a fundo o raciocínio caminhoneiro:

-Pergunta qual homem do barco elas acham mais bonito…

-Pergunta como é a roupa que elas usam lá no país delas…

- Pergunta se ela gostaria de viver uma aventura….

- Pergunta se tem cantor na Holanda….

As meninas estudavam medicina em Amsterdam, estavam fazendo intercâmbio na Guiana para estudar doenças tropicais e ignoravam completamente a existência dos considerados. Ao encontrar pessoas que falavam inglês no barco, queriam contar das experiências que vinham tendo na viagem e os roteiros que queriam fazer.

Não se tocavam do perigo das hienas ex-presidiárias que as rondavam e,  a cada pergunta surreal dos 11apaixonados, davam uma resposta europeia realista, com a tradicional rispidez que o Velho Continente nos concede. Eu tentava amenizar as respostas: elas respondiam uma verdade crua de 4 palavras e eu transformava em uma mentira sincera de 400 palavras.

O “Considerado” começava a dar sinais de impaciência, pois elas davam a resposta seca e já começavam a falar de mil coisas aleatórias. Ele não entendia nada do que estávamos falando e achava que eu estava dando em cima das meninas, secretamente, em inglês.

Pô Considerado, qualé? Tá furando meu olho? Eu vou descer no Humaitá pra ver minha mulher e meu filho, só quero aproveitar até lá. Daí pra Porto Velho tu manda vê, vai ter um dia de viagem com a gringa ainda….

Ficava tenso, fingindo prestar atenção no que a holandesa falava, mas na verdade estava atento ao que os amigos conversavam. E toda vez que se impacientavam, eu dizia:

-Eae considerado, não tem mais nenhuma pergunta pra ela? Assim tu não vai conseguir nada… –  Então a zona recomeçava. Digladiavam-se pela próxima pergunta, que eu traduzia, a menina respondia secamente, eu criava a mentira e assim foi durante muitoooo tempo. Meu foco era tanto nos amigos, que não lembro de uma só palavra que essa holandesa disse. Até que fomos salvos pelas senhoras do barco que começaram a gritar para irmos dormir, afinal já era de madrugada: 22h15.

 - Acaba com esse tititi. Vão dormir! – disse uma.

-Eu vou chamar o Pereira pra acabar com essa bagunça. – fez coro a segunda.

Era engraçado que o Cmte. Pereira, além de responsável por conduzir o barco, era uma espécie de diretor de escola. Ele dava a palavra final em tudo, absolutamente tudo: dos pequenos aos grandes problemas. Um dia o “Considerado” tirou da sua bagagem um videogame e falou com a Kartia, a dona do bar:

Eu queria jogar playstation, eu. Pode ligar na TV?

Obviamente ela disse que não, mas se tinha uma coisa que o Considerado sabia era a legislação social do barco. Em um ato de desprezo pela autoridade da Kartia, comentou com o amigo:

-Eu vou falar com o Pereira, eu. Ele que manda em tudo mesmo.

Fico imaginando o Pereira largando o timão para analisar o recurso de apelação do Considerado contra a sentença da Kártia na questão do playstation. A microfísica do poder do Foucault comprovada empiricamente em um barco no Rio Madeira. No final ele arranjou uma televisão de 14 polegadas (não sei como nem onde) e jogava videogame madrugada adentro.

O Considerado depois se mostrou muito mais chato do que perigoso. Mostrou a foto do filhinho vestido de marinheiro, pegou meu all-star pra dar uma volta pelo barco (disse que era muito chique na cidade dele) e abriu o coração para o Pimmy:

Minha vida é fumar maconha…

 7Volto agora ao primeiro dia de viagem. Assim que o barco zarpou, subimos para a “área de lazer”, onde aproveitamos os últimos minutos de internet e pudemos passar por um dos momentos mais mágicos, folclóricos e esperados da viagem: o encontro das águas do Rio Negro e Solimões! Não vimos nada. O barco atrasou e passou pelo local à noite. Só descobrimos que era ali, pois Leo, orientando-se por algum ponto misterioso na escuridão ou nas estrelas, nos informou disso.

Leo era um personagem muito particular. Nativo, 29 anos, de fala mansa, olhinhos apertados e sempre com um sorriso no rosto. Era quem nos explicava tudo sobre matas, botos, rios, jacarés e castanheiras quando passávamos próximo da margem. Porém, a todo momento, tentava nos provar que era um Primus Inter Pares, um primeiro entre iguais, melhor e acima de toda aquela gente do barco.

Isso já se percebia em nosso primeiro diálogo:

Prazer, me chamo Leo

- Opa, tudo bem? Prazer, Vinicius. Tá indo pra onde Leo?

- Tô indo pra Humaitá, porque o pai desse menino com quem eu tô viajando tem muitas posses e tem medo que ele sofra algum mal no caminho. Então tô aqui, fazendo a escolta do garoto.

-  Entendo.

- Pois é. Sou do ramo da segurança e presto alguns serviços para o exército.

Ficamos impressionados com o currículo e falávamos que, em caso de naufrágio, iríamos colar nele para sobreviver nas matas. Porém, depois ficou comprovado que o “ramo da segurança” é o trabalho que ele tem como porteiro de boate e “os serviços prestados ao exército” eram o serviço militar obrigatório de dez anos atrás. Quanto à escolta, era somente a mudança das bagagens do pai do menino, o qual desejava economizar utilizando o transporte fluvial em vez do aéreo.

Fazia questão de dizer, com muito orgulho, que era carioca (saiu do RJ com um ano de idade), que tinha uma bolsa engatilhada para estudar medicina na Argentina, que falava alemão (mas que não conseguia entender o alemão de um gringo do barco, porque só entendia o alemão austríaco) e de como as pessoas ficavam assustadas quando ele ia ao mercado e perguntava se tinha erva (erva-mate, do chimarrão). Portanto, era um amazonense que dizia ser carioca e que encarnava o gaúcho ao tomar chimarrão no calor do Rio Madeira.

Parecia muito um desses personagens do Machado de Assis que se valem de pequenas mesquinharias para se sentirem superiores a um grupo de pobres coitados.

A propósito do chimarrão, Leo e o Pimmy foram tomá-lo na área de lazer. Lá se encontrava um dos gringos do barco que fomos conhecendo aos poucos. A bem da verdade, esse foi o único que não conhecemos porque quase não abria boca. Era sírio, careca, jeitão de mafioso e não falava quase nada de português, inglês ou qualquer outra língua humana. Em um dos seus poucos momentos de humanidade interagiu com o Leo e o Pimmy ao pedir um pouco do chimarrão. Não lembro dos detalhes porque não conheço o modus operandi da bebida gaúcha, mas parece que ele fez tudo errado: mexeu o canudo pra tudo que é lado, botou açúcar, mexeu mais ainda, botou o chimarrão num copo plástico, achou péssimo o gosto, fez cara feia e jogou o conteúdo pra fora do barco. Ao jogar o chimarrão no rio, não contava com o vento que levou o líquido em direção à bandeira do Brasil e que ficava hasteada na parte traseira do barco. Com medo do que poderia ser um crime de lesa-pátria, desesperadamente começou a estapear e socar o “querido símbolo da terra” para secá-la, piorando ainda mais a situação. Os populares que já não iam muito com a cara do sírio por ser considerado um “caladão”, guardaram esse episódio com uma gota de ressentimento. E falar mal dele se tornou um meio muito fácil de fazer novas amizades.

O barco, além do sírio, contava com as duas holandesas bronzeadas, três italianos e um peruano. No primeiro dia de viagem, ao ver um desses italianos, Mateo (a esse vou dar o nome verídico, pois merece), tal qual presidiários que inventam as maiores atrocidades diante o ócio, fiz uma aposta interna com os meus camaradas:

 - Só vou tomar banho depois que esse cara tomar.

4Ledo engano. Mateo era um romano que andava de cajado, caderninho de antropólogo, camisa verde musgo do Krishna, lápis na orelha e sandália de profeta. Dois dias depois da viagem encontramos com ele em uma van no Peru com um look social (uma meia com estampa de vaquinhas e um all-star branco).

Mesmo sabendo que tinha um oponente de peso, encarei o desafio de frente, com a certeza da vitória. Afinal, sou um boto e estávamos lutando no meu território. Obviamente eu estava mais acostumado às condições adversas da geografia local, tal qual os vietcongues contra os americanos. Passei a primeira noite sem tomar banho (um grande sofrimento, pois caminhamos o dia inteiro no sol de Manaus), sobrevivi à manhã seguinte e, no final da tarde, constatei que NUNCA iria ganhar: flagrei Mateo tomando o famoso banho de gato. Aquele banho na pia, daqueles que você faz uma conchinha com a mão, pega a água e passa nas partes críticas do corpo. Mateo precisou exatamente de três conchinhas para terminar sua higiene: uma pro rosto e duas pra debaixo dos braços.

Sim, eu contei as conchinhas porque estava incrédulo de que aquele cara ia sobreviver cinco dias só com o banho de gato. ASSIM O FEZ. Gostaria que todas as minhas amigas que foram/vão ao Ciência Sem Fronteiras pudessem ver essa cena e relativizassem a cega admiração que nutrem por homens europeus, cortando de imediato todas as relações diplomáticas bilaterais amorosas que mantêm com a escória higiênica da humanidade.

Assim, assumi minha derrota, tomei banho, mas não deixei barato: fiz uma denúncia anônima à dona do bar, a Karlia. Se o Cmte. Pereira era o Diretor da escola, ela era o bedel (confesso que tinha um pouco de medo dela). Fumando seu tradicional Derby, comandava com mãos de ferro o terceiro andar, impedindo qualquer atentado aos bons costumes. Só a vi sorrindo uma vez, quando comentava sobre sua visita à praia de Alter do Chão, no Pará. Sacudi a cabeça constatando que somente a querida lembrança do melhor Estado da Federação seria mesmo capaz de acalmar aquela alma doce como pó de café. Ao tomar conhecimento da minha queixa-crime sobre o banho de Mateo, ela disse:

– Se eu vir esse nojento fazendo isso de novo, ele tá lascado! Tem banheiro pra isso, p…

Ah, os banheiros do barco… Depois que conheci entendi melhor Mateo (mentira, mentira: nunca vou entender). Eram quatro banheiros: dois para os homens e dois para as mulheres. Ou seja, uma média de 60 pessoas de cada sexo para dois banheiros. Era um cubículo 1×1 com uma lixeira, um vaso e uma ducha que molhava a lixeira e o vaso. O melhor a se fazer era não pensar no que as pessoas faziam ali, mas era inevitável quando se olhava para o chão com um constante espelho d’água de cor barrenta e densidade viscosa. Também era bem desagradável olhar pra todos aqueles papéis usados na lixeira e que estavam encharcados pela água do chuveiro. Acho que acontece alguma reação química entre papel, água e dejetos o que faz com que o cheiro fique muito pior. Mas, tinha um buraquinho que dava vista pro rio.

Os banheiros ficavam ao lado do restaurante, este sim, tinha uma papel muito importante, pois as refeições ditavam o ritmo do dia, como os sinos das igrejas medievais: café da manhã 5h30, almoço 10h45, jantar 16h45. No final de semana rolava um churrascão (lá pelas 8h30, 9h) à moda amazônica. Além de um dos produtos mais visados do churrasco serem as bananas, os populares formavam uma fila para a carne e depois que a colocavam na boca, pegavam uma das 3 colheres comunitárias e as enfiavam na boca cheias de farinha. 3 colheres para 120 pessoas. 117, pois não participamos desse ritual.

O aviso da hora de comer era dado por um “tripulante” (a comida era responsabilidade de uma família, com uns 10 integrantes, que cozinhavam em troca de passagens) que passava entre nós soprando com um apito estridentemente insuportável. Se você não acordasse ou simplesmente ignorasse o apito das 5h30 da manhã, como eu sempre fazia, com certeza passaria algum vizinho balançando sua rede pra te acordar e falar em tom fatalista que você passaria fome.

Aliás, no segundo dia de viagem, quando ainda me acostumava à rotina, passei horas tentando dormir, lutando contra a rede e o calor indescritível. Quando finalmente repousei meus olhos reais, Gomoto balançou minha rede com força e me acordou. Já me armava com a primeira pedra que deveria ser atirada em Maria Madalena quando entendi tudo: um homem roliço, de havaianas, bermuda, touca de frio (!) e uma singela metralhadora na mão me olhava fixamente. Não era um assalto, mas uma visita da Polícia procurando um sujeito que havia matado um policial no dia anterior. Mandaram os homens para direita e as mulheres para esquerda do barco para o reconhecimento. Foi um alívio de certo forma, pois pararam a música por uns 20 minutos.

No quarto dia de viagem, decidimos descer em Humaitá e não mais em Porto Velho por motivos de não aguentarmos mais. Era final de tarde, estávamos tranquilos com as perninhas na grade, olhando o

9belíssimo pôr-do-sol que se armava. Filhotes de botos pulavam para fora d´água, uma lanchinha passava ao nosso lado – acenamos para ela. Todo esse quadro idílico mudou quando, de repente, o barco fez um grande ruído e o sentimos parar. De imediato, começou a manobrar e voltar! Um burburinho se instalou: as pessoas começaram a correr de um lado para o outro, dirigiam-se para a porta do Cmte. Pereira, crianças choravam, velhos dormiam, o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o Mateo gritando:

-MÁ QUÊ? POR QUE VOLVE? NO NO NO NO NO! NO POSO MAIS! Tal desespero me causou uma dessas pequenas alegrias da vida. A mesma alegria que você sente em estourar plástico bolha ou em falar “eu te avisei…” ou sentar em uma privada gelada com a certeza de que ela é virgem ou há muito tempo não é tocada por outras bundas.

O bucólico barquinho que tínhamos acenado veio avisar que alguns tripulantes de nosso barco foram pescar em uma lancha e tiveram problemas com o motor. Ficaram pra trás e agora íamos resgatá-los. Nas buscas pelos pescadores, o barco inteiro se mobilizou e olhava atentamente para as bordas dos rios, até que viram uma lanterninha chamando a atenção: lá estava a fonte de nosso atraso.

Daí pra frente a viagem seguiu tranquila, sem nenhum transtorno. Cansados, aguardávamos o tão sonhado 3Humaitá. Por volta das 4h da manhã chegamos ao nosso destino e dividimos um taxi do cais até Porto Velho com seu Lélio, um simpático senhor peruano. Sempre enaltecia o Peru, falava que no Brasil tudo era ruim, que a cerveja era péssima, que as crianças não eram educadas (disse que soube da história de um filho que queria ter relações sexuais com a mãe e, como o pai o impediu, o garoto exterminou toda a família com um facão) e que tudo era muito caro:

Chicos, se voy até o porto de Manaus procurando una “mêniná”, elas me cobram 30 dólares só pra dar uma cheiradinha lá embaixo!

Confabulamos sobre o assunto e concluímos que, seguramente, a inflação dos serviços sexuais amazonenses está muito mais relacionada com a precária aparência do seu Lélio do que com a situação macroeconômica do País.

O barco atracou em Humaitá e fomos os últimos a descer. Quando já estávamos em terra, Gomoto avistou um atrasadinho avisando que iria descer também. O problema é que o barco já estava um pouco afastado do pier e o elemento tinha de jogar as bagagens para terra firme. Calculou errado e jogou todos os seus pertences na água.

Entramos no táxi e pegamos a estrada de Humaitá para Porto Velho. Estrada muito boa, boa até demais. O asfalto era macio, com retas infinitas e acompanhadas por pastos intermináveis que funcionavam como um verdadeiro convite ao sono para o nosso taxista. Nós estávamos morrendo de sono também, pois os considerados decidiram não dormir a última noite e jogar o bendito playstation durante toda a madrugada, até a hora que chegássemos.

Depois que o taxista atropelou uma mucura (nome amazônico para gambá) na estrada, seu Lélio dormiu, Gomoto dormiu, Pimmy dormiu e o taxista quase dormiu. Pegou a sua vara e começou a pescar de sono, dirigindo a 120 km/h! Logo avisei Pimmy e Gomoto, falei para conversarem com ele para mantê-lo acordado. Pimmy foi o primeiro:

– ESTRADÃO BONITO AQUI, HEIN CHEFE? – gritou. Nosso condutor, de olhos vermelhos, só deu uma coçada na cabeça por dentro do boné das tintas Suvinil, e emitiu um grunhido incompreensível.

– ISSO TUDO AQUI É FAZENDA DE CRIAÇÃO DE GADO OU TEM ALGUMA OUTRA ATIVIDADE NA REGIÃO? – tentou Gomoto. Ele respondeu qualquer coisa suficiente para esclarecer e ao mesmo tempo não existir nenhuma possibilidade de continuidade de diálogo.

Pimmy, vendo que a conversa não fluiria, pediu para ele colocar música, o que talvez o mantivesse acordado. Respondeu que só tinha um CD do Amado Batista que havia tocado no início da corrida, ao que respondemos prontamente e em coro: “PODE SER, AMIGO!”. O fato é que ele não “pescou” mais, não sei se porque de fato o distraímos ou se tão irritado com as nossas tentativas de conversa que perdeu o sono.

Apesar de tudo, depois de duas horas, chegamos à terra prometida de Porto Velho…

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