Os Pescadores de Pérolas: a beleza de uma ária

Os Pescadores de Pérolas: a beleza de uma ária

A ópera “Os Pescadores de Pérolas”, de Georges Bizet, será transmitida ao vivo do Theatro da Paz, em Belém, Pará, para todo o Brasil no próximo dia 15 de setembro.  
Apreciar apropriadamente uma ópera exige conhecimento, bem o sabemos. Além de estar atento para a criatividade dos libretos, dos cenários de sonho e dos figurinos espetaculares, é necessário, sobretudo,  ter sensibilidade musical e ouvidos treinados para perceber detalhes da interpretação dos cantores e não se deixar impressionar pura e simplesmente por potência vocal.
Nosso comentarista de ópera,  Thiago Monaco, separou duas gravações de uma das mais famosas árias de Os Pescadores de Pérolas, “Je crois entendre encore”, para demonstrar como os detalhes fazem a diferença e revelam a técnica apurada e a maestria de um grande cantor lírico. A gravação (no vídeo abaixo), de 1951, mostra a interpretação, em italiano, do incomparável tenor italiano Beniamino Gigli, aos 61 anos, aqui no Brasil.
“A sua voz doce, emprestada a uma ária em que o personagem sente aquela saudade dolorosa do amor da juventude, que ele nunca mais espera encontrar é, na minha opinião, um monumento! Repare nos agudos a pleno peito, mas contidos, evoluindo para um final em pianíssimo, tão difícil nestas notas para o registro de tenor. Ainda mais aos 61 anos!”, explica Thiago.
 
Compare – convida Thiago Monaco – com outra gravação do próprio Gigli, no vídeo abaixo, em 1925. O tenor tinha, portanto, 35 anos e estava em plena forma: “Primeiro simplesmente se deixe levar a um tempo em que um grande tenor não tentava soar maior do que a música: ele contém a tentação de soltar a voz (que era imensa) e os agudos mais soltos que você ouvirá aqui são em mezza voce, contidos. Repare no final, na última frase “divin sovenir”, “divin”, bem aguda, é feita a mezza voce, imediatamente contida com o “sovenir” agudo em decrescendo, com a nostalgia da ária lindamente morrendo em pianíssimo (trecho musical executado muito suavemente, com pouquíssima sonoridade), técnica usada em ambas as interpretações!”.
 
Thiago Monaco observa que, especialmente na gravação de 1925, na qual Gigli estava absolutamente perfeito, é possível notar que ele contém a potência vocal do início ao fim. “Esta ária, musicalmente e na história que é contada, deve inspirar ternura! Assim, ele usa uma mezza voce contida ao longo de todo o trecho. Agora vamos notar, reparando muito bem como ele consegue nos deliciar? É pura tecnica vocal refinadissima e habilidosa sobre uma voz que era um diamante! Veja nos trechos de 1:34 a 1:40 e novamente 3:10 a 3:17, sobre as palavras “folle ebrezze” (tola embriaguez): ele executa com maestria a chamada messa di voce, dificílima, justamente em um trecho agudo. Na messa di voce, o cantor “ataca” uma determinada nota a baixo volume e, mantendo inalterada a nota, o timbre e o vibrato, causa um aumento de volume, para baixar em seguida, fazendo um crescendo-decrescendo apenas da intensidade sonora. Ouça Gigli atacar em pianissimo, crescer a uma mezza voce quase incontida e retornar ao pianissimo! Isto em seis, sete segundos! O que a maioria faz hoje em dia? Solta um agudo de peito”.
Serviço: 
Texto: Sônia Zaghetto
Foto: Elza Lima

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