Como comportar-se no bonde

Como comportar-se no bonde

Machado de Assis (1839-1908) tinha uma alma pândega, isso todos sabem. Nosso maior escritor não resistia a uma ironia caprichada. Seus textos, muito atuais, demonstram que pouco mudou no comportamento do brasileiro desde o século 19. Suas lições sobre etiqueta, política e relações afetivas serão publicados neste espaço, para esclarecimento geral da Nação. Este primeiro texto, por exemplo, é um engraçadíssimo conjunto de regras para os passageiros de bondes, mas podem ser perfeitamente usados hoje pelos que utilizam ônibus, metrô, vans, táxis, über e carona do vizinho. Divirta-se! Para ler o texto de Machado de Assis com a grafia original, clique aqui. Ocorreu -me compor uma certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.   Art. I - Dos encatarroados Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.  Quando a tosse for tão teimosa que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: - ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc. Art. II - Da posição das pernas   As pernas devem trazer-se.de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.   Art. III - Da leitura dos jornais Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.     Art. IV - Dos quebra-queixos   É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer. Nota: No século 19, os charutos de má qualidade eram chamados de quebra-queixo   Art. V - Dos amoladores   Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, .pisando e repisando as coisas, de…

Machado de Assis (1839-1908) tinha uma alma pândega, isso todos sabem. Nosso maior escritor não resistia a uma ironia caprichada. Seus textos, muito atuais, demonstram que pouco mudou no comportamento do brasileiro desde o século 19. Suas lições sobre etiqueta, política e relações afetivas serão publicados neste espaço, para esclarecimento geral da Nação. Este primeiro texto, por exemplo, é um engraçadíssimo conjunto de regras para os passageiros de bondes, mas podem ser perfeitamente usados hoje pelos que utilizam ônibus, metrô, vans, táxis, über e carona do vizinho. Divirta-se!

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Machado de Assis (1839-1908) tinha uma alma pândega, isso todos sabem. Nosso maior escritor não resistia a uma ironia caprichada. Seus textos, muito atuais, demonstram que pouco mudou no comportamento do brasileiro desde o século 19. Suas lições sobre etiqueta, política e relações afetivas serão publicados neste espaço, para esclarecimento geral da Nação. Este primeiro texto, por exemplo, é um engraçadíssimo conjunto de regras para os passageiros de bondes, mas podem ser perfeitamente usados hoje pelos que utilizam ônibus, metrô, vans, táxis, über e carona do vizinho. Divirta-se!
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Ocorreu -me compor uma certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

 

Art. I – Dos encatarroados

cigarros contra asma e catarro
Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.
 Quando a tosse for tão teimosa que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: – ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.
Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.
Art. II – Da posição das pernas
 pernas
As pernas devem trazer-se.de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.
  Art. III – Da leitura dos jornais
jornais
Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.
 
 
Art. IV – Dos quebra-queixos
 
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É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.
Nota: No século 19, os charutos de má qualidade eram chamados de quebra-queixo

 

Art. V – Dos amoladores
 
A ghostly 19th-century illustrationToda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, .pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.
 
Art. VI – Dos perdigotos
 
SneezeReserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.
 
Art. VII – Das conversas
 
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Quando duas pessoas, sentadas a distância; quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.
 Art. VIII – Das pessoas com morrinha
 
As pessoas com morrinha podem participar do bondes indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela
 
Art. IX – Da passagem às senhoras
senhoras
Quando alguma senhora entrar, o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má-criação.
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Art. X – Do Pagamento
condutorQuando o passageiro estiver ao pé de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.

 

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