Crônicas de viagem: Sim, o Acre existe! 

Crônicas de viagem: Sim, o Acre existe! 

Artelivre publica semanalmente uma série de crônicas de viagem. Não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”. Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado. Clique aqui para ler o Capítulo 1.   Clique aqui para ler o Capítulo 2        Capítulo 3: Sim, o Acre existe! Vinicius Conceição Castanheira solitária. Foto: Silvio Margarido.   Chegamos em Porto Velho às 6h da manhã. Começávamos a nos preocupar com o planejamento da viagem: tínhamos medo de não chegar a tempo em Santa Cruz de la Sierra, de onde saía nosso voo de volta para Brasília. Assim, decidimos comprar a passagem do primeiro ônibus rumo a Rio Branco. Na pressa para chegarmos logo ao destino, não pedimos informações e acabamos comprando em uma companhia que parava em todas as cidades no caminho, o que dobrava o tempo de viagem. Em apenas um dia, viajamos por 13 horas ininterruptas, cruzamos três estados e utilizamos quatro diferentes meios de transporte (um barco, dois táxis, um ônibus e uma balsa). Acre Muito nos impressionou a paisagem que se via nas estradas do Acre e de Rondônia. Durante todas essas horas de viagem só víamos fazendas de gado e a ausência quase total de pessoas – dimensão que só pode ser compreendida quando vista e não lida. Adoro comprar rodízios de carne em sites de compras coletivas, nunca li O Capital (de Marx) e não boicoto os EUA por causa do bloqueio econômico a Cuba, mas é impossível não pensar na lógica de consumo desproporcional que vivemos. Além da questão do desmatamento que é gritante (especialmente no leste do Acre, a ponto de você não se sentir na Amazônia e sim no Centro Oeste), é meio louco pensar em dois estados consideravelmente grandes e que existem quase que unicamente para criarem bois. Não defendo a ideia de que a vida urbana é o caminho para o alcance do tão combalido conceito de desenvolvimento, mas o que se nota é a ocupação de extensões inimagináveis de terra e direcionamento de recursos naturais e financeiros para a manutenção de um padrão alimentar totalmente insustentável. Tentei falar como o motorista acreano. Respondeu: - "Ah, as fazendas aqui nem são tão grandes produtoras. Você precisa ir ao Mato Grosso pra ver o que é fazendona!"       Isso ainda é mais impressionante, pois considerando ainda os Estados de…

No terceiro capítulo da viagem pela Amazônia brasileira, Peru e Bolívia, o cronista viajante Vinicius Conceição chega à fronteira do Brasil com o Peru e à cidade de Cuzco. O clima leve dá lugar a muitas reflexões e, embora ainda haja bom humor, os problemas sociais, ambientais e culturais dão o tom dessa fase da jornada.

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Artelivre publica semanalmente uma série de crônicas de viagem. Não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”.

Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado.

 

       Capítulo 3: Sim, o Acre existe!

Vinicius Conceição

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Castanheira solitária. Foto: Silvio Margarido.

 

Chegamos em Porto Velho às 6h da manhã. Começávamos a nos preocupar com o planejamento da viagem: tínhamos medo de não chegar a tempo em Santa Cruz de la Sierra, de onde saía nosso voo de volta para Brasília. Assim, decidimos comprar a passagem do primeiro ônibus rumo a Rio Branco.

Na pressa para chegarmos logo ao destino, não pedimos informações e acabamos comprando em uma companhia que parava em todas as cidades no caminho, o que dobrava o tempo de viagem. Em apenas um dia, viajamos por 13 horas ininterruptas, cruzamos três estados e utilizamos quatro diferentes meios de transporte (um barco, dois táxis, um ônibus e uma balsa).

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Acre

Muito nos impressionou a paisagem que se via nas estradas do Acre e de Rondônia. Durante todas essas horas de viagem só víamos fazendas de gado e a ausência quase total de pessoas – dimensão que só pode ser compreendida quando vista e não lida. Adoro comprar rodízios de carne em sites de compras coletivas, nunca li O Capital (de Marx) e não boicoto os EUA por causa do bloqueio econômico a Cuba, mas é impossível não pensar na lógica de consumo desproporcional que vivemos. Além da questão do desmatamento que é gritante (especialmente no leste do Acre, a ponto de você não se sentir na Amazônia e sim no Centro Oeste), é meio louco pensar em dois estados consideravelmente grandes e que existem quase que unicamente para criarem bois.

Não defendo a ideia de que a vida urbana é o caminho para o alcance do tão combalido conceito de desenvolvimento, mas o que se nota é a ocupação de extensões inimagináveis de terra e direcionamento de recursos naturais e financeiros para a manutenção de um padrão alimentar totalmente insustentável. Tentei falar como o motorista acreano. Respondeu:

- “Ah, as fazendas aqui nem são tão grandes produtoras. Você precisa ir ao Mato Grosso pra ver o que é fazendona!”      

Isso ainda é mais impressionante, pois considerando ainda os Estados de MT, MS, PA, GO, MG – que são muito maiores – significa assumir que boa parte do nosso país é dedicada a produzir alimentação. Instantaneamente me tornei consciente de que somos uma cozinheira de mão cheia, bem opulenta e de proporções continentais, que vivemos para alimentar um filho faminto chamado mundo.

O motorista do nosso ônibus em direção a Rio Branco era insuportável. Agia como se fosse um Comandante de Airbus-380 da American Airlines, todo cheio de si. Nunca tinha visto um motorista de ônibus ir até os passageiros para dar instruções como uma comissária de bordo:

-Senhores, não percam a passagem de vocês com o comprovante de bagagem. Se perderem, vocês me perdoem, mas eu não irei abrir exceções. As regras da empresa, em consonância com a portaria X da ANTT é clara a esse respeito e vou estar amparado pela lei para negar a devolução da bagagem.

Dada a instrução normativa, seguimos viagem e, depois de algumas horas, tivemos de descer para pegar uma balsa. Nesse momento uma senhora gritou que havia perdido sua bolsa e lá veio o nosso motorista- comandante com o peito inflado e tom professoral:

-Olha Senhora, infelizmente não posso me responsabilizar. Avisei no início para que tivessem cuidado e que todos descessem do ônibus para que esse tipo de coisa não acontecesse. É aí que mora o problema:  vocês não me escutam, é complicado demais. Vocês precisam ter mais atenção e cuidado com as próprias coisas.

Minha raiva – que já era alta – aumentou quando estávamos no restaurante e perguntamos humildemente ao nosso timoneiro das BRs quanto tempo de viagem ainda tínhamos. Ele parou de comer aquela galinhada de beira de estrada, tomou um gole de Coca-Cola e respondeu  qualquer coisa sem sequer olhar na nossa cara. Era um motorista extremamente legalista, que obedecia àquela placa de “não fale com o motorista” até mesmo na hora do almoço.

Quando chegamos a Rio Branco tivemos de nos separar do nosso amigo peruano, Sr. Lélio, e que nos acompanhava desde o barco. Pegamos um táxi e a corrida de menos de 10 minutos nos custou o singelo valor de 35 reais. Ficamos em um hotel muito bom ao lado da gigante bandeira do Acre, da qual os acreanos parecem ter muito orgulho. Provavelmente o café da manhã desse lugar foi a última refeição decente que fizemos na viagem. Mas ainda não sabíamos disso…

Aproveitamos esse dia e fomos conhecer o centro revitalizado de Rio Branco, que muito me surpreendeu pela organização e segurança. Aparentemente, os problemas que afligem nossos grandes centros urbanos não estão ali presentes ou, pelo menos, não na mesma intensidade. No Acre acentuou-se a percepção de que existem vários “brasis”, que compartilham de problemas comuns às outras regiões, mas que são marcados por problemas específicos. Pergunto-me, desde então, se o cerne de toda a problemática de nosso país, bem como da América do Sul, não residiria na falha ideia de que somos todos iguais.

Essa é uma das maiores falácias já inventadas, pois fica claro que os problemas do Acre são completamente diferentes dos que a população de São Paulo ou de Brasília vivenciam. Entretanto, quando partimos da premissa de igualdade de direito e não de fato, tentamos encaixar realidades múltiplas em um modelo pré-estabelecido que talvez funcione para uma única realidade particular. Assim, acabamos por gerar anomalias sociopolíticas como o estado do Acre, esquecido política, econômica, social e – o que é mais grave – culturalmente. Um povo, assim como o de toda a Amazônia, em constante luta para ser ouvido e conhecido pelo resto do país, lutando para se encaixar no “modelão” que deve ser seguido para dar certo. Imaginei o eleitor do interior do Acre escutando a discussão entre Dilma e Aécio sobre a autonomia do Banco Central ou as pedaladas fiscais, o que deve funcionar como intervalo comercial do debate, pois o nível de distanciamento entre o discurso e a realidade é além de sobrenatural.

Lembrei de um amigo que trabalha em uma empresa de consultoria que atende o Ministério da Saúde. Ele me contava que foi ao Pará encontrar-se com o secretário de saúde de um município da ilha do Marajó, o qual, para chegar a um dos postos de saúde mais distantes de seu município, fazia uma viagem de 18h, pegando um carro 4×4, uma voadeira (lancha), uma rabuda (barco pequeno para águas rasas) e, a depender das condições do solo, um moto-táxi ou um búfalo. Esse modelo político homogeneizado que só falta vir em embalagem Tetra-Pak precisa ser revisto, de modo que se atenda às particularidades das diferentes regiões e que trate igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.

Mas, voltando à viagem… dormimos ouvindo a enorme bandeira do Acre  tremular por toda a noite e acordamos cedo no dia seguinte. Pela manhã, falamos com o recepcionista e ele nos indicou um taxista para nos levar até Assis Brasil, município fronteiriço com o Peru. Ficamos meio receosos quando entramos no carro e o motorista nos disse que “por pouco” não poderia nos levar:

- Eu tava indo fazer uns exames agora, mas a crise tá braba e não dá pra ficar perdendo oportunidade assim.

-Exame de quê, amigo? Tá doente?

-Não, não, era coisa de psiquiatra mesmo…..

Já tínhamos passado por tanta coisa que nem ligamos para a condição tarja-preta de nosso condutor. Embarcamos na Zafira e cruzamos a paisagem completamente desmatada do interior do Acre. As castanheiras, abundantes na paisagem vista do barco, agora eram escassas. As poucas que víamos foram as que resistiram às queimadas e formavam uma paisagem mórbida: uma ou duas árvores solitárias no meio de um mar de hectares de pasto. Não se via o fim das fazendas e muito menos quaisquer indícios de florestas. Isso me fez enxergar os inimigos de Chico Mendes, embora não tenha conseguido ver o objeto da sua luta, já que naquela região parecia não existir mais nada a ser defendido.

Por falar no líder extrativista, passamos por Xapuri, cidade em que nasceu e morreu. Perguntei ao taxista o que pensava sobre o assunto e ele respondeu o que eu já esperava: era um agitador, atrapalhava os fazendeiros que eram os que traziam o desenvolvimento para a região e que virou herói depois que morreu. Segundo ele, isso ainda “trazia problemas para o Acre” porque a luta contra o desmatamento tornou-se bandeira do estado, que apresenta hoje os melhores índices de preservação das florestas e virou exemplo mundial (exceto, pensei comigo – pela desflorestada região do leste do Acre, que atravessávamos naquele instante) e fazia com que os grandes proprietários de terra migrassem para MT, PA e RO que são mais lenientes.

Isso me fez pensar nas diferenças entre o raciocínio sociopolítico do brasileiro médio e de nossos vizinhos latino-americanos. Estes possuem um discurso populista e apaixonado, que até facilita o processo de exploração pela classe política, mas é impensável a defesa da grande propriedade pela população. Muitos de nós veem o latifúndio como a salvação de nossas vidas e economias: ficamos orgulhosos de ser os maiores exportadores mundiais de produtos primários, de chamar de vagabundo quem luta pela reforma agrária (não me refiro a movimentos organizados) e de ridicularizar a função social da terra no mundo jurídico. O brasileiro, mesmo vivendo na rabeira do mundo em diversas áreas, ainda defende um modelo utilitarista e pragmático como se fosse um pequeno representante iletrado da escola liberal de Chicago. As contradições sociais que vivenciamos no plano concreto são mero reflexo de nosso pensamento político contraditório no plano abstrato.

Assim, cruzamos por horas essa paisagem devastada e chegamos em Brasiléia, onde mudamos de táxi. Nosso novo motorista era muito falador e vivia na fronteira com Peru e Bolívia. Ele nos mostrou um Brasil ainda mais desconhecido. A tríplice fronteira parece o velho oeste americano: muita terra, construções em andamento, quase nada ocupado e muita gente diferente reunida, oxigenando a cidade. Goianos, mineiros, gaúchos, peruanos, bolivianos e, agora, haitianos e senegaleses formavam um caleidoscópio social. Todos com objetivos diferentes, mas ocupando um espaço que aparentemente estava esquecido até há pouco tempo.

Notamos que os conflitos entre os povos começam a surgir, com as diferenças culturais vindo à tona pela prática e não pelo conhecimento teórico. O taxista reclamava que os bolivianos eram falsos: “Sempre pedem descontos, mas, quando possuem seus negócios, falam que ‘este é o preço; se quiser mais barato, que procure outro lugar”, que sua comida é nojenta e que são sujos. Os peruanos – avaliava – eram boas pessoas, assim como os haitianos, que vêm para o Brasil sem nenhum tostão e esperam, em Brasileia, pelo dinheiro enviado dos parentes já empregados para que possam migrar para os grandes centros urbanos. Estes, por sua vez, não se misturam com os senegaleses que, segundo o nosso amigo, são criadores de confusão e nunca tomam banho. Não é raro que se instaure o conflito quando cidadãos do Haiti e do Senegal se encontram nas ruas, sendo necessários constantes apartamentos.

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Foto: Silvio Margarido

Ao mesmo tempo, goianos, sulistas e mineiros investem na criação de negócios locais, como supermercados, frigoríficos e restaurantes. É impressionante como esses brasileiros migram para onde há oportunidade e mostram-se completamente desapegados de sua terra natal. Não importa se não há infraestrutura, amigos ou parentes: eles vão para onde há trabalho e executam essa tarefa com maestria. Fomos a uma churrascaria que não devia nada às de Brasília. Tudo de primeira qualidade – e pagamos míseros 16 reais no rodízio.

A cidade estava em processo de reconstrução das enchentes que aconteceram no início do ano. Andando pelas ruas, era possível notar o nível a que o rio chegou: as casas foram completamente cobertas pela água e as mais próximas do rio foram inteiramente devastadas. No centro havia uma pequena orla e todas as construções que ali haviam foram destruídas, mas não completamente: restaram somente as fachadas e nada atrás. Era uma orla fantasma, bizarra, feita de fachadas sem portas e janelas através das quais se via o rio lá atrás.

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Artur Paschoali: desaparecido há dois anos

Saímos da cidade, chegamos à fronteira com o Peru e nos dirigimos para o posto da Polícia Federal. Na porta do posto havia três haitianas que,  segundo o taxista, eram as que esperavam pelo dinheiro dos parentes para que pudessem cruzar a fronteira. No posto imigratório existia o clichê good cop bad cop, mas à moda brasileira: o bad cop era o típico burocrata que usa todas regras, portarias, regulamentos e decretos ao seu alcance para criar dificuldades; e o good cop é aquele que aceita qualquer coisa só para se livrar do serviço. Já se podia perceber o nível de burocracia só de se olhar para eles: o bad cop velho, careca, com uniforme completo da Polícia Federal, arma na cintura e cara fechada; o good cop com roupas civis, sem arma e perguntando se o outro tinha visto as fotos do churrasco do final de semana passado. Ao adentrarmos o posto vimos a foto de um garoto de Brasília, Artur Paschoali, que foi a Machu Pichu e que está sumido há dois anos. Comentamos que ele era da nossa cidade. O good cop respondeu: “Esse daí nem adianta mais procurar porque não encontram mais nada”. Fiquei pensando no pai do menino –  que nós sabemos já ter gasto um dinheiro que nem tem para pagar a investigação particular do caso, por não confiar na polícia peruana – indo até aquela fronteira no fim do mundo com o panfletinho do filho, nutrindo alguma esperança. Menos de uma semana depois que voltamos da viagem, a polícia peruana descobriu rastros de sangue na casa do dono de um bar em que o rapaz trabalhou.

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Tudo resolvido na fronteira brasileira, fomos para o posto peruano e lá carimbamos nosso passaporte. Trocamos alguns reais pela moeda do país (soles) que está mais valorizada que o real, o que nos fez perder um pouco de dinheiro na troca. Esse foi um dos primeiros momentos na viagem em que me deparoei com o altivo orgulho brasileiro que faz com que ignoremos por completo a realidade de nossos vizinhos. A economia peruana, ao que parece, vai bem e a moeda se fortaleceu, fato sobre o qual não temos o menor conhecimento: primeiro porque, desde o século XIX, quando o Brasil proclamou sua independência, sendo uma “flor exótica monarquista entre repúblicas” temos orgulho de sermos diferentes do “caos” sul americano. Não conhecemos minimamente a realidade da vizinhança e temos orgulho de confundir Lima com La Paz, embora não consigamos suportar que norte-americanos digam que Buenos Aires é a capital do Rio de Janeiro. Quantas vezes não ouvi que “franceses e norte-americanos vivem numa bolha, são muito alienados, nada sabem além da própria cultura”?

É incrível o esforço mental que brasileiros fazem para serem escutados e conhecidos pelos países desenvolvidos quando viajam. Nos hostels em que passamos, o tempo todo escutava brasileiros tentando desconstruir paradigmas e estereótipos que permeiam nossa cultura no exterior. Obviedades do tipo “Nem todas as brasileiras são prostitutas”, “Falamos português e não espanhol”, “Sabia que São Paulo tem mais de 10 milhões de habitantes e não devemos nada a qualquer cidade europeia?”.

Paradoxalmente, estamos sempre implorando e gritando pela atenção de pessoas que não tem interesse em nos ouvir, enquanto ao nosso lado existem milhares de indivíduos interessados em nossa cultura e que nos admiram. Somos patéticos a tal ponto que sequer conseguimos utilizar o nosso ridículo preconceito a nosso favor, e seguir John Milton: “É melhor reinar no inferno do que servir no céu”. Seria melhor ser o Quico na Vila do Chaves que é a América do Sul do que continuar tentando ser o Pinky no laboratório do Cérebro que é o mundo desenvolvido.

O segundo aspecto que vejo na manutenção desses olhos fechados para o continente diz respeito à imagem do Brasil como o “gigante adormecido” que finalmente havia acordado (e que, pelo visto, apertou o botão soneca do alarme do celular e voltou a dormir por mais cinco minutinhos).

Durante os últimos quinze anos, os marqueteiros nos convenceram tão bem de que agora éramos grandes e de que ninguém nos seguraria que se tornou impossível vislumbrar qualquer possibilidade de outros países latino-americanos estarem progredindo. Ainda mais o Peru, né? A começar por ser um país que leva nome de sinônimo peniano, é um “povo feio”, “tudo índio”, não tem como ter dado certo. Pois é, mas deu: estradas perfeitas, universidade mais antiga do continente, Lima totalmente inserida no roteiro gastronômico internacional, moeda mais forte que o Real e Prêmio Nobel de Literatura.

Logo que saímos do posto de imigração pegamos uma van para a cidade de Porto Maldonado. Viajamos por 3h pelo território peruano, o qual tinha florestas bastante preservadas e nenhuma fazenda na beira da estrada, ao contrário da paisagem acreana. Não sei como e nem porque, mas era algo que se repetia em todas nossas viagens pelas estradas do Peru e da Bolívia: no meio do nada, em estradas que cortavam lugares completamente desabitados e que conectavam esse nada a lugar nenhum, apareciam passageiros sinalizando para os transportes pararem. Dessa vez entrou uma mulher-fantasma que, além do fato de ter aparecido no meio da escuridão da estrada deserta, ainda carregava um envelope escrito Defensoria Publica del Pueblo, o que significa dizer que a burocracia latino-americana é tão grande que ela existe até em realidades e dimensões paralelas no meio do nada. A burocracia chega antes até mesmo da existência humana.

Chegamos à cidade e fomos imediatamente procurar a rodoviária em busca de passagens para Cuzco. Obarco motorista da van nos deixou em um lugar que facilmente poderia ser o centro de alguma cidade asiática em que o 007 vai realizar a missão da vez.

Muitos tuc-tucs, moto-taxis, música alta e táxis coloridos compunham o cenário. Talvez tenha sido o momento em que nos demos conta de estarmos de fato na América Latina dos clichês. Esperamos o taxista terminar sua conversa com os amigos e embarcamos em seu possante que, de tão decadente, parecia ter vindo diretamente do inferno. O carro tinha o volante do lado do motorista e o velocímetro no lado do passageiro. Na rodoviária compramos nossa passagem para Cuzco e os primeiros chocolates Trangula que acompanharam Pimmy e eu pelo resto da viagem. Junto com a batata Lay’s, tornaram-se componentes essenciais da nossa cesta básica em ônibus e trilhas.

Foi uma viagem difícil porque, além de estarmos viajando por mais de dez horas, a estrada para Cuzco sobe a montanha e é cheia de curvas. Portanto, passamos a noite toda sendo jogados de um lado para o outro e o frio aumentando, de maneira que não dormimos quase nada. No alvorecer, acordei com o vidro embaçado e as montanhas avermelhadas que circulam a cidade, sentindo os primeiros efeitos da altitude.

Em razão da alimentação porca à base de salgadinho e chocolate, combinada com a altitude, comecei a sentir uma leve tontura. Pimmy não podia tomar conhecimento disso, pois, em nossa viagem de 2014, quando descíamos a Cordilheira dos Andes, fiquei muito enjoado com a mudança abrupta de altitude e avisei o meu camarada de jornadas.  A única ajuda que ele me deu foi oferecer a janela da van, fato que ele considera como a salvação da minha vida e sempre joga na minha cara. Em razão desse episódio, fui agraciado com o prêmio “Che Guevara” da viagem (Che tinha asma e na viagem que fez pela América do Sul, em diversos momentos, teve sérias crises que quase tiraram sua vida), condecoração que eu mesmo criei para conferir àquele que mais ficasse doente durante a viagem. Dessa vez estava decidido a não ser agraciado com a premiação e ele não podia tomar conhecimento desse mal-estar (ainda mais tendo a altitude como causa).

Coletei todas as balinhas que vinham no lanche que a empresa oferece (sim, eles possuem serviço de barco3bordo, alimentação, wi-fi e até um rodo-moço no ônibus) e fiz uma seleção de sobrevivência. Melhorei quase ao mesmo tempo em que chegamos à cidade e logo buscamos um táxi que nos levasse ao hostel. Qual hostel? Não tínhamos ideia, não olhamos nada de hospedagem. Andamos pela rodoviária e procuramos o primeiro rosto rosadinho, caucasiano, de país desenvolvido e que já tivesse programado toda sua viagem com um guia bombado. Assim o fizemos e um francês nos sugeriu dois hostels.

Com o endereço em mãos, pegamos um taxi até o hostel. O motorista era muito alegre, sorridente e conversador. Depois descobrimos o motivo de tanta alegria ao pegarmos o taxi de volta para a rodoviária: nos cobrou 30 soles por uma corrida que deveria ter custado 4 soles. Mesmo assim fomos conversando e cometi uma grande gafe cultural. Por todos os lados e em hotéis havia bandeiras arco-íris, iguais às do movimento LGBT, junto às bandeiras do Peru e de outros países. Por se tratar de uma zona turística com muitos hotéis, comentava com o taxista toda vez que via uma “Aah, um hotel gay-friendly”, “Olha outro” e “Outro”. Ele só dava um sorrisinho meio amarelo e não comentava mais nada. Eu achava que não estava me fazendo entender. Depois, ao andar pela cidade, vimos essa bandeira nas igrejas e nas roupas dos policiais: descobri que era a bandeira da municipalidad del Cuzco!!

O motorista nos deixou em frente a um hostel bem badalado e que, claro,  não tinha vagas, pois só no Brasil é que justiça divina (assim como a dos homens) não funciona e sempre garante sucesso aos desorganizados. Fazer uma viagem sem planejamento tem suas vantagens e desvantagens: além de não ter trabalho nenhum antes da viagem, é um ponto positivo vivenciar as experiências aleatórias a que você se submete na busca por hospedagem, e a sujeição à sorte caótica que o mundo te oferece. Porém, você precisa estar disposto a perder tempo com isso, a enfrentar o cansaço, a se sujeitar ao que estiver disponível e fazer tudo sem reclamar, afinal você fez da preguiça de planejar sua religião, e do bordão “dá tudo certo no final” a sua filosofia. Mas, se for essa a escolha, é preciso saber lidar com o karma, ter consciência de que tudo o que você pediu pra comer no restaurante da vida será cobrado numa conta ao final. Por isso, eu, como sempre, estava rindo da cara de todo mundo, pois sabia que iria enfrentar muitas dificuldades com a nossa falta de planejamento. Paciência.

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Rua de Cuzco. Peru.

Entretanto, havia um casal de brasileiros que parecia não ter esses ensinamentos tão claros na mente. Eram do Espírito Santo e não haviam feito a reserva, assim como nós, mas estavam indignados porque iriam ter de procurar outro hostel. Ao saber da notícia, o rapaz fez uma cena:  saiu de maneira triunfal, voltou (porque esqueceu a mochila) e, chamando a mulher em tom imperativo, bradava que aquilo era um absurdo.

Abro um parêntese para uma observação. Há duas coisas que brasileiro adora dizer: 1) quando repórteres vão às ruas pedir a opinião do povo sobre algum fato, sempre há alguém que fala em “situação bastante complicada”; 2) diante de algum fato negativo, o brasileiro sempre fala que aquilo é um “absurdo”. O “absurdo” está completamente banalizado, só se deveria usar esta a palavra para, sei lá, um corpo que cai subindo ou chuva de pedra que dá leite. Mas, não, estão usando pra dizer que escândalo de Petrobras é um “absurdo”. NÃO É! A corrupção tá aí desde a época que escondiam ouro nos santinhos de pau oco e, se você investigar direitinho, tem uma racionalidade por trás, um sentido, só que você ainda não entendeu ou não quer entender. Não tô defendendo e nem naturalizando a corrupção – nós podemos discordar o quanto quisermos dela, mas ela é a regra e não exceção no país. E, se é regra, não é absurdo.

Voltemos à cena, que ficava ainda mais ridícula quando se olhava para o homem, vestido como se fosse descer da sonda Oportunity: todo paramentado e equipado com coisas térmicas prata e uma máscara de ninja que impossibilitava ver a sua cara e escutar sua voz. Junto dele estava sua mulher: um olhar cansado, aquele olhar de retirante de livro do Graciliano Ramos, mas tão cansado que dava pena. A cachorra baleia de Os Sertões era mais humana que aquela pobre alma. Ele, sempre andando à frente, muito distante, só falava com a mulher aos gritos e para reclamar. Ela, sempre atrás e carregando muito mais bagagens, acho que desejava secretamente o fim do pesadelo que estava sendo aquela viagem. Ou sonhava com um pacote da CVC pra Buenos Aires: coisa de 3 dias, 4 noites, show de tango, ida à La Bombonera, túmulo da Evita e churrascaria.

Fomos procurar novos hostels e eles nos acompanharam, sem parar de reclamar. Se tem uma coisa que eu não gosto em viagem é andar com brasileiro, especialmente em países subdesenvolvidos quando agimos como se nosso país fosse a Suécia dos trópicos.

Acho que um dos pontos que caracterizam todos nós, latino-americanos, é a nossa capacidade de não conseguirmos cumprir com perfeição tudo o que nos propomos a fazer. Acertamos em algumas coisas, erramos em outras, mas nunca acertamos ou erramos tudo. Somos o famoso meio de tabela do campeonato: não lutamos pelo título nem contra o rebaixamento. O peruano tem boas estradas, mas toma refrigerante quente (Inka Cola!!!); o argentino possui ônibus melhores que os aviões brasileiros, mas precisam de 1,56 trilhão de pesos para comprarem uma balinha; o brasileiro tem geladeiras que funcionam (em nenhum país da América do Sul até agora foi possível encontrar coisas realmente geladas), mas estradas esburacadas, coisa que não existe no Peru, e assim sucessivamente.

Portanto, todos os países do continente tem coisas que funcionam e outras não. Mas, quando o brasileiro sai do país e vê uma dessas coisas que não funcionam, ninguém segura aquela linguinha guarani-kaiowá nas críticas. O melhor de todos foi assistir aos cariocas reclamando que levaram um pequeno golpe e sofreram um assalto na Bolívia. Claro: não devemos banalizar a violência, mas a indignação deles era tão gritante! A mulher quase chorava na frente do banheiro. Dizia que nunca mais poria os pés na Bolívia e falava como se tivesse sido criada no meio de filhotes de elefantes, longe da selvageria humana. Porém, tudo fez sentido quando ela disse:

-Essexxx filhoxxx da p…. me ameaçaram com um pau! Vim pra esse fim de mundo pra ser ixxxcrotizada por essexxx m….que não sabem o que é bandido de verdade.

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Hostel em Cuzco

Percebi então que era somente orgulho ferido, pois quando saímos do Brasil, baixamos nossa guarda. Se somos alvo de violência, não é aquele sentimento de impotência contra uma sociedade doente que sentimos, mas a dor moral de ser assaltado fora do Brasil. Nós, os experts em malandragem e violência urbana. É como se nós só pudéssemos sofrer a violência na terra brasilis, nunca fora dela. Quem nunca ouviu a frase “Saí do Brasil pra ser assaltado. Pode um negócio desses?”. Somos nós que avisamos os gringos quais lugares são perigosos, nunca o contrário. Nós que temos o Cidade Alerta. Somos nós que derrubamos helicóptero da polícia e temos o Bope. A violência, tal qual a comida, é nosso motivo de orgulho no exterior porque nos torna grandes sobreviventes e só sobrevivemos porque somos espertos. A esperteza e a violência são dois valores muito caros aos brasileiros e estão intimamente conectados e retroalimentadas. Precisamos ser espertos para não sofrermos os males da violência, que só existe porque há alguém mais esperto que você e quer benesses sem esforço. Compreendi melhor a dor da mulher carioca ao sofrer a violência: é um atentado aos valores mais essenciais de nossa cultura.

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Hostel em Cuzco

 

Depois de tentarmos vagas em cinco hostels e nos livrarmos do casal insuportável, conseguimos encontrar hospedagem e fizemos a reserva por uma noite, pois no dia seguinte sairíamos em uma van para Machu Pichu. O grupo nessa van, por sinal, era composto de dois equatorianos e, nada mais nada menos que nove (9. Nueve. Neuf. Nine. Seis ao contrário) brasileiros MUITO PILHADOS. E assim seguiríamos rumo às ruínas incas, com companheiros que vestiam camisas do Cruzeiro, Atlético Mineiro e, claro, da onipresente Seleção canarinho.

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  1. Crônicas literárias: Machu Pichu - artelivre.net
    Crônicas literárias: Machu Pichu - artelivre.net2 years ago

    […] Artelivre publica o penúltimo capítulo da série de crônicas de viagem. Não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”.   Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado.   Clique aqui para ler o Capítulo 1 Clique aqui para ler o Capítulo 2 Clique aqui para ler o Capítulo 3 […]

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