Crônicas de viagem: Machu Picchu

Crônicas de viagem: Machu Picchu

Artelivre publica o penúltimo capítulo da série de crônicas de viagem: a chegada a Machu Picchu, no Peru. Nossas crônicas não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”.   Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado.   Clique aqui para ler o Capítulo 1 Clique aqui para ler o Capítulo 2 Clique aqui para ler o Capítulo 3 Capítulo 4: O Longo Caminho até Machu Picchu Vinicius Conceição No próprio hostel que estávamos encontramos um um guia turístico e fechamos um pacote rumo a Machu Picchu. Queríamos muito ir de trem, porém, segundo ele, não havia mais vagas e só poderíamos ir de van até o lugar.  Se, de fato, havia ou não mais vagas é algo que nunca vamos descobrir, pois chegamos em Cuzco em pleno feriado nacional e queríamos agendar o passeio para o dia seguinte. Recomendo a todos os que pretendam visitar a cidade perdida que agendem com antecedência a passagem de trem, pois o nosso roteiro foi o intermediário e recheado de algumas dificuldades desnecessárias oriundas da desorganização do turismo local. Se você é do tipo "Ah, quero aventura, gosto do canal off", então escolha a trilha de cinco dias até Machu Picchu, que é o caminho mais difícil, e faça história. O que não dá pra aguentar é quem utiliza um caminho semicontrolado, como esse intermediário, sem grandes riscos, e vem querer pagar de Bear Grylls no Facebook. Deveríamos sair no dia seguinte bem cedo pela manhã em um passeio que duraria dois dias e uma noite. O mais curioso desse roteiro é que, durante esses dois dias, você só passa quatro horas em Machu Picchu. No máximo. Acordamos às 6h da manhã seguinte, tomamos café, pagamos a diária e arrumamos nossas mochilas. Coisa de 15 minutos antes de entrarmos na van, pensamos: "Ou, será que a gente precisa levar alguma coisa?". Eram somente dois dias e, pelo nível Bolsa Família que a viagem assumia, pensamos que não era preciso levar alguns pertences desnecessários. Quando fiz 18 anos, quase servi no Batalhão da Guarda Presidencial do Exército: aprendi a marchar, bati continência, comi no batalhão,  etc. Uma das poucas e boas lições que aprendi foi a de tentar carregar o mínimo de carga possível, lição que Pimmy aprendeu muito bem (até demais) de uma viagem para outra. Para a nossa viagem…

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Artelivre publica o penúltimo capítulo da série de crônicas de viagem: a chegada a Machu Picchu, no Peru. Nossas crônicas não são textos com dicas de hotéis, passeios e roteiros gastronômicos. São narrativas literárias, que mostram os locais sob perspectivas essencialmente culturais. Um jeito despojado de contar boas histórias – todas reais. É a crônica de quem viaja de forma não convencional e traduz a vida dos anônimos que moram às proximidades dos grandes circuitos turísticos e só aparecem nas fotografias quando se cola neles o adjetivo “exótico”.
 
Dormindo na rede em um barco amazônico ou na casa de indígenas bolivianos, subindo 1.200 metros de escadaria em Machu Picchu, correndo atrás de lhamas e fazendo pausa na imensa brancura dos salares andinos, o autor da série, Vinicius Conceição, alia momentos de pura diversão e questões sociais capazes de ensejar boas reflexões. Tudo com estilo único, ironia fina, imbatível bom humor e olhar aguçado.
 

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Capítulo 4: O Longo Caminho até Machu Picchu

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Vinicius Conceição

No próprio hostel que estávamos encontramos um um guia turístico e fechamos um pacote rumo a Machu Picchu. Queríamos muito ir de trem, porém, segundo ele, não havia mais vagas e só poderíamos ir de van até o lugar.  Se, de fato, havia ou não mais vagas é algo que nunca vamos descobrir, pois chegamos em Cuzco em pleno feriado nacional e queríamos agendar o passeio para o dia seguinte.

Recomendo a todos os que pretendam visitar a cidade perdida que agendem com antecedência a passagem de trem, pois o nosso roteiro foi o intermediário e recheado de algumas dificuldades desnecessárias oriundas da desorganização do turismo local. Se você é do tipo “Ah, quero aventura, gosto do canal off“, então escolha a trilha de cinco dias até Machu Picchu, que é o caminho mais difícil, e faça história. O que não dá pra aguentar é quem utiliza um caminho semicontrolado, como esse intermediário, sem grandes riscos, e vem querer pagar de Bear Grylls no Facebook.

barco2Deveríamos sair no dia seguinte bem cedo pela manhã em um passeio que duraria dois dias e uma noite. O mais curioso desse roteiro é que, durante esses dois dias, você só passa quatro horas em Machu Picchu. No máximo.

Acordamos às 6h da manhã seguinte, tomamos café, pagamos a diária e arrumamos nossas mochilas. Coisa de 15 minutos antes de entrarmos na van, pensamos: “Ou, será que a gente precisa levar alguma coisa?“.

Eram somente dois dias e, pelo nível Bolsa Família que a viagem assumia, pensamos que não era preciso levar alguns pertences desnecessários. Quando fiz 18 anos, quase servi no Batalhão da Guarda Presidencial do Exército: aprendi a marchar, bati continência, comi no batalhão,  etc. Uma das poucas e boas lições que aprendi foi a de tentar carregar o mínimo de carga possível, lição que Pimmy aprendeu muito bem (até demais) de uma viagem para outra. Para a nossa viagem de quase um mês, ele levou aproximadamente sete camisas e uma bermuda. Eu, particularmente, não por opção, ou talvez não uma opção consciente, esqueci de levar meias. Portanto, o nosso único referencial de suplementos e víveres básicos era Gomoto.

barco8Assim, na pressa de sairmos logo, acabamos decidindo carregar somente o básico e deixarmos nossas mochilas no hostel. Peguei um casaco, meu carregador de celular, passaporte e coloquei minha escova de dentes naquele bolsinho minúsculo da calça jeans que ninguém usa. Gomoto tem um casacão que parece aqueles de fotógrafo, cheio de bolsos em que colocamos algumas besteirinhas. Ele ainda carregava a bolsa da câmera do Pimmy, que serviu para amarrarmos a uma segunda bolsa com o xampu e a pasta de dente. Gomotinho, com todo esse carregamento, parecia aquelas lhamas de carga, todas enfeitadas, ainda mais porque usava o típico gorrinho peruano, luva e cachecol.

Fique claro que essa nossa decisão foi um tanto quanto irresponsável porque não tínhamos ideia de como seria o passeio, porque não lemos absolutamente nada sobre o que era necessário (lembra?). Parecíamos trabalhadores do sítio arqueológico ou somente nativos da região, porque enquanto aparecia aquele batalhão de gringos caminhando com uns cajados vendidos em lojas de adventurers (que até hoje não sei para que servem, já que a caminhada é em linha reta), mochilas equipadas com sei lá o que e aquelas roupas trekkers, estávamos só com umas sacolas de supermercado sujas de barro contendo uns chocolatinhos.

Entramos na nossa vanzinha com o motorista louco, a tripulação, quatro mineiros, dois potiguares, uma gaúcha e três equatorianos (um deles acabou se tornando um grande amigo até o final da viagem). Como eram viajantes majoritariamente brasileiros, obviamente nossa partida atrasou e o nosso motorista teve que escutar um sapo da guarda de trânsito por estar estacionado em local proibido. Ele já não estava muito feliz com o atraso e ainda teve que parar no posto para olhar um pneu que parecia estar meio baixo, fatos que, creio, influenciaram o seu comportamento futuro. Estávamos bem atrasados no nosso cronograma, o motorista claramente puto da vida e Gomoto lá no fundo da van, exercendo toda a sua engenharia social com a potiguar e a gaúcha.

Gomoto é um cara que se energiza com o contato social, e conta sempre com o falar e a interação típicos dos librianos. Ele gosta de cavucar o interior mental de estranhos, formular um juízo de valor e criar um enquadramento social muito apropriado. Depois que começa a conhecer melhor o estranho, o processo vai perdendo a graça e ele se distrai com o novo estranho que irá descobrir. O fundo da van era um playground pro cara: tava lá fazendo e acontecendo e se tornando a sensação de nossa ida. Não vou dizer nem que sim, nem que não sobre a existência de algum interesse nas jovens mancebas que ali estavam, mas o nosso bancário estava muito entretido.

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Mesmo com o atraso, no meio do trajeto nosso motorista resolveu fazer um belo desvio de caminho. Percebemos que estávamos entrando em uma estrada vicinal, mas não tínhamos muita noção do que estava acontecendo até que ele parou em frente a uma casa. Esperamos ali uns dez minutos, quando avistamos uma pequena senhora que se aproximou do veículo e, com um sorriso, bateu na janela de nosso condutor. Ele abriu o vidro e ela lhe passou algumas frutas e uma espécie de tapetinho para ele colocar no banco e não machucar as costas no trajeto. Uma cena materna muito graciosa, mas que em razão do atraso e outros motivos atribulava as já combalidas relações existentes entre os viajantes e o condutor.

Muitas pessoas dentro da van achavam o motorista muito imprudente por entrar na contramão em todas as curvas, mesmo quando explicamos a eles que em estradas que contornam montanhas é preciso dirigir assim, pois se você fizer o trajeto correto da curva dentro da sua mão, demora o dobro de tempo no percurso. Um dos mineiros também se irritava com o motorista por ele deixar a janela aberta e entrar poeira dentro do carro sujando a sua roupa. Sua vingança madura foi comer Club Social, propositalmente de boca aberta, fazendo com que voasse farelos por toda parte e sujasse a van (a qual provavelmente nem deveria ser do motorista).

barcoEsse era o estilo da galerinha que tivemos de aguentar por quatro horas de viagem, que, por sinal, é muito desgastante. A estrada é de muito boa qualidade, mas muito sinuosa. O percurso é composto quase que só de curvas e sempre subindo –  ou seja, a altitude atacando. Isso fez com que parecesse viagem escolar: no início todos pilhados, gritando, cantando; no meio as crianças começam a dormir ou a passar mal.

Foi exatamente o que aconteceu: a pressão da potiguar caiu, a gaúcha começou a mascar bala de coca e o mineiro com a camisa do Galo pediu pra sentar na janela porque estava tonto. Em certo momento o asfalto acaba e começa um trecho muito mais sinuoso, feito somente de pedra e cascalho e que contorna uma série de precipícios. É um caminho muito mais tenso pelo fato de se passar muito próximo ao abismo, sempre subindo, notando-se o rio que corre abaixo  diminui cada vez mais enquanto vai se tornando impossível ver os carros que vêm no sentido oposto. Pra se ter ideia de como o caminho é estreito, em certo momento nosso motorista teve que passar tão próximo da parede para não cair no abismo que acabou acertando o pára-choque traseiro no paredão de pedra.

barco3Finalmente chegamos à estação do trem da hidrelétrica, ponto em que os carros não podem mais seguir e as pessoas são obrigadas a caminhar por 3 horas até o pueblo de Aguas Calientes. É uma caminhada em linha reta, em terreno plano e que vai acompanhando o trilho do trem até o povoado. Portanto, não tem nada de impossível, ao contrário do que os aventureiros de Facebook costumam propagar nas redes. Na verdade, é bem chato depois de um tempo, pois o caminho é repetitivo e você enche o saco de caminhar barco41por tantas horas; as únicas pequenas dificuldades que acontecem durante o caminho é a travessia de algumas pontes, mas nada muito aventureiro, e o trem que passa muito próximo de você.

Falando em trem, próximo do fim da jornada, começamos a escutá-lo apitando bem distante e decidi estacionar em uma curva para gravar um vídeo da passagem. Gomoto e Pimmy seguiram caminhando e viveram a infeliz coincidência de estar no túnel no momento em que o trem passou. Segundo os camaradas, foi uma experiência aterrorizante, pois, na hora que viram que o trem estava chegando, se desesperaram para sair do túnel que era MUITO estreito e começaram a correr. Nisso, Gomoto tropeçou e Pimmy pensou que ambos morreriam ali mesmo. Desistiram de sair do túnel e se encostaram ao máximo na parede, encolheram a barriga e torceram. Sobreviveram e, na saída do túnel, enquanto me esperavam, tiveram que escutar de uma argentina um sermão no qual foram acusados de serem irresponsáveis.

O momento em que os encontrei na saída do túnel foi registrado neste vídeo aqui:

Caminhamos por mais alguns minutos e chegamos até o povoado. Nisso já tínhamos nos separado há muito tempo dos outros brasileiros que caminhavam a passos de tartaruga. Tomamos uma cuzqueña com nosso amigo equatoriano Caridian e fomos procurar o guia que nos levaria até o hostel em que ficaríamos. É um sistema absurdamente precário, pois todos os turistas que compram o pacote devem se dirigir a uma praça central, onde você não tem ideia de quem seja o seu guia e eles não tem ideia de quem seja você. Eles vão até a praça, gritam centenas de nomes, encontram alguns gatos pingados e os levam até uma hospedaria nas cercanias. Depois voltam para encontrar mais alguns turistas.
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Quando finalmente encontramos o nosso guia, ele nos conduziu até uma hospedaria próxima bem simplória. Deveríamos encontrar com ele às 20h em um restaurante para que jantássemos e nos desse as instruções sobre a subida para Machu Picchu no dia seguinte. Nesse encontro fomos informados de que deveríamos acordar às 4h da manhã para tomarmos café da manhã no mesmo restaurante e subirmos a montanha para que às 6h, impreterivelmente, pudéssemos encontrar com o mesmo guia na porta do sítio arqueológico.

Para realizar o trajeto até o topo da montanha nos foram dadas duas opções: de ônibus, pelo preço de 30 dólares ou a pé. Mesmo hoje com o dólar valendo mais que a sua casa, eu recomendo que você compre a passagem de ônibus. Juro que vale a pena! Por ter caminhado 3h em linha reta e em terreno plano no dia anterior, pensávamos que o trajeto da subida seria bem tranquilo. barco15Obviamente não foi, pois não perguntamos e nem nos avisaram que não se trata de uma simples trilha, mas sim de uma subida de 2km, de quase 90º de inclinação, pura escada, sem meio termo, durante duas horas, no frio de 4 da madrugada e com a falta de ar devido à altitude.

Quando decidimos subir já eram praticamente 5h da manhã, estávamos novamente atrasados e acabamos indo somente eu e Pimmy. Gomoto ficou esperando e ajudando os brasileiros da van que conseguiram ser os mais atrasados de um grupo gigante de pessoas, isso porque tiveram dificuldades em acordar por terem passado a noite anterior bebendo cachaça dentro do quarto e também porque a gaúcha acabou perdendo o ingresso para Machu Picchu.
Como eu e Pimmy não somos pessoas solidárias, não quisemos esperar pelos irresponsáveis e subimos sozinhos. Fazia uma bela friaca, não se via um palmo à frente da cara na escuridão e não tínhamos ideia do sofrimento que estavamos prestes a vivenciar. Começamos a subir as escadas com todo o gás, achando inclusive que iríamos encontrar o guia antes do horário combinado. Mas a escada nunca terminava – nunca mesmo. Ao longo do caminho você vai vendo pessoas, umas atrás das outras,  sucumbindo, parando para sentar e tomar água – alguns praticamente morrendo. A respiração vaimatando, suas pernas fraquejando. A chave pra coisa dar certo é evitar ao máximo a parada.

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Huayna Picchu

As vantagens do caminho estão na beleza do trajeto, já que você começa a subir a montanha em completa escuridão, cruzando a mata e, à medida que amanhece, vai notando o quão alto você está, no meio das nuvens, com o topo da montanha se revelando tão lentamente quanto o ritmo da sua subida. Depois descobri que quem sobe essa escada já estava ciente das dificuldades e escolhe essa via pela aventura, preparando-se meses antes para isso e não somente para economizar na passagem de ônibus que leva até o topo.

barco12A despeito da beleza, ainda acho que o preço da passagem vale muito a pena. Essa subida torna o passeio todo muito desgastante: ficamos esgotados fisicamente por um ou dois dias juntando todas as trilhas (no total dá aproximadamente 20km de trilhas, mas, com as subidas íngremes, a distância parece muito maior). Mesmo assim, chegar à porta de Machu Picchu COMPLETAMENTE encharcados de suor dá uma impagável sensação de vitória sobre as outras pessoas que foram de ônibus. Quando você sai morrendo do meio daquela mata, sem nenhum casaco, com a camisa toda molhada e vê aquelas pessoas cheirosinhas e com frio esperando pelo guia, elas te olham com admiração e você se sente inegavelmente superior. Só quem já subiu aquela desgraça sabe do que eu estou falando.

Na porta do sítio arqueológico só existe uma máquina de vender água que funciona e uma senhora que barco34guarda os volumes. Guardamos nossas sacolas de supermercado no guarda-volumes e fomos procurar nosso guia. Até então não entendia porque tínhamos de acordar tão cedo e subir naquela escuridão, mas ficou muito claro quando chegamos lá: no momento que o passeio inicia com o guia, já está um pouco claro, mas as nuvens formam uma grande névoa em toda Machu Picchu, de maneira que você não consegue enxergar quase nada. À medida que os minutos vão passando, as nuvens vão se dissipando e a cidade vai se revelando. Não tenho dúvida de que é um dos lugares mais fodas que já passei em toda a minha vida e não pela constatação de historiador que pensa que ali viveu uma civilização avançada e que foi dizimada pelos conquistadores mauzinhos. Não! É por algo imaterial que ronda aquele lugar e que é inexplicável – só sentindo mesmo.

barco14Machu Picchu não é  como museus ou sítios arqueológicos em que existem as camas, objetos e você consegue imaginar como as pessoas ali viviam. São somente pedras e mais pedras, com guias que na verdade são quase todos índios e que devem ter decorado uma série de fatos que os arqueólogos descobriram. Vale dizer que a descoberta de Machu Picchu é muito recente, data do início do século XX e só foi aberta à visitação na década de 1940. Portanto, é algo extremamente vivo: enquanto você anda pelo lugar os arqueólogos estão a cavucar o terreno e a descobrir coisas novas; inclusive, há pouco tempo descobriram uma nova cidade perdida nas proximidades e que o governo peruano pretende utilizar como meio de esvaziamento de Machu Picchu, que é superlotada e ameaça a própria preservação do parque.barco20

É possível perceber que tanto no Peru quanto na Bolívia as coisas são meio feitas na base do “vai fazendo que dá certo e Deus nos proteja!”. Um pouco igual ao Brasil, mas aqui acho que as tragédias são menos correntes. O máximo de risco que o turista estrangeiro se submete no Brasil é a violência ou se ele for andar naqueles buggys insanos pelas dunas do Ceará, que têm tudo para acabar em tragédia e, por alguma razão transcendental, Deus evita que algo de mal aconteça. Já na América andina não é bem assim: em diversos momentos na viagem perguntávamos algo por mero desencargo de consciência, esperando um “Relaxa, é tranquilo, dá nada não“, mas o guia respondia secamente, narrando alguma tragédia que teria ocorrido no lugar. Em Machu Picchu o nosso guia alertava para não irmos nas áreas que estavam delimitadas pela corda, pois “na semana passada uma inglesa tinha caído no abismo”. Quando falava do monte Huayna Picchu (aquele bonitão e famoso que você vê nas fotos), nos contava que  é possível formar um grupo de 200 pessoas para subir ele junto a um guia. Há dois guiaanos, um russo muito rico subiu a montanha no período de chuva e quando estava no topo, em razão de correntes e pulseiras de ouro que portava, atraiu um raio e foi carbonizado ali mesmo. O guia nos contava que qualquer tragédia ali era irremediável, pois não existe helicóptero ou qualquer resgate caso algo dê errado.
O passeio é muito interessante e é impossível de ser feito sem um guia. Sem ele, tudo não passa de um punhado de pedras reunido e sem nenhuma plaquinha explicativa. Quando já terminávamos o nosso tour com o guia, Gomoto chegou com sua crew brasileira de ressaca e portando seus respectivos paus de selfie que não eram abandonados em nenhum momento. Depois que acaba o tour, você ganha algumas horas livres para ficar vagando pelo sítio arqueológico. Pimmy viu um deles e perguntou se já tinham feito o passeio, ao que respondeu:
- Ah não, achamos muito chato o guia falando. Vamos ficar só andando por aqui mesmo.barco13

Até hoje fico impressionado com esse raciocínio. Não bastasse terem enchido a lata na noite anterior, subiram lá só pela vista e pelas selfies, saíram sem saber nada sobre o lugar ou sua a história. Tudo bem, é uma questão de opção, mas não deixa de ser uma opção lamentável. Alguns brasileiros tem disso, não sei se porque a tradição do mochilão é recente aqui ou se porque somos levemente retardados mesmo.

Percebo que existe uma grande necessidade de se atingir achievements, conquistas pré-concebidas e que todos consideram dignas de admiração no Facebook. Por exemplo, os mineiros da van viajavam pela América do Sul por 3 semanas e nesse período eles estavam fazendo o projeto de viagem que programamos dividir em quatro partes num período de cinco anos. Eles não passavam mais do que um dia em uma cidade, mas no Facebook vai estar o achievement, a bandeirinha de que ele passou por Assunção, Caracas, Quito e fez a selfie em Machu Picchu. O cara passou mais tempo na rodoviária, sonhando seu reencontro com o arroz e feijão e caçando wi-fi pra postar foto, mas vai voltar como o último grande aventureiro. Até porque “é coisa de maluco” viajar pela América do Sul, né? Não importa o que se tenha feito.  Você mesmo que me lê agora foi atraído por esse texto porque considera viajar por esses nossos vizinhos algo meio exótico e perigoso. Ninguém se interessaria se isso aqui fosse uma crônica sobre uma viagem ao Beach Park em Fortaleza ou à Serra Gaúcha no pacote da CVC.barco22

Sobre essa nossa cultura do tira-onda, também, sempre vejo as pessoas falando da vontade de realizarem um “mochilão pela América do Sul”, mas não conseguem falar um puto de espanhol ou portunhol. Quando põem os pés nos nossos vizinhos já desatam a praticar tudo que aprenderam na Cultura Inglesa (“Nossa, acho uma língua muito feia“. Quantas vezes não escutei isso na minha vida!) e a caçar gringos europeus para romances fortuitos. Faço mea culpa quanto a isso, pois assim que cheguei em Buenos Aires pela primeira vez, em 2010, tentava fazer a reserva no hostel falando em inglês, mas a atendente me esculachou de uma maneira que só argentino consegue:

É vergonhoso que vocês brasileiros tentem ficar falando em inglês conosco. Não somos irmãos, mas por favor…..

Só mais duas coisas curiosas que percebo toda vez que viajo com brasileiros:

a) como brasileiro tem uma gana, uma fixação, um tesão, um objetivo de vida de falar inglês como se fossebarco21 nativo! Cometemos erros absurdos de gramática, mas o sotaque perfeito tá lá e com todas as expressões e gírias que aprendemos nas séries de TV. Se você for ver qualquer gringo (falante nativo de outro idioma que não o inglês) falando no idioma de Obama, de cara você sabe de onde ele é pelo sotaque carregado, porque ele não tá nem um pouco interessado em falar como um americano ou inglês.

b) como brasileiro adora dizer que não tem cara de brasileiro (como se existisse cara de brasileiro!). A gaúcha adoraaaaaaaaaaaaaava falar: “Bah, quando eu cheguei no hostel todo mundo ficou impressionado quando eu disse que era brasileira, porque eu sou branquinha né? Sempre achavam que eu era europeia. Ninguém acreditava, aí eu precisava explicar pra eles que lá no Brasil não é como eles pensam que só tem índios e negros”. Isso é um dos preconceitos, com o perdão da palavra, mais fudidos e mais 6escondidos que nós temos e que sempre se manifesta quando saímos da terrinha. Qual seria o problema de um demônio inglês achar que no Brasil só tem negro e índio??? O mais absurdo pra mim foi um dos mineiros (sim, tenho tudo contra esses que viajaram conosco: achei todos um poço de tosquice) dizer todo orgulhoso que “segundo uma galera” ele tinha cara de israelense. CARA DE ISRAELENSE! I-S-R-A-E-L-E-N-S-E! Além do fato de ser um povo que tem menos cara definida que brasileiro, aposto minha alma que ele nunca viu um israelense na vida, mas tava lá reproduzindo uma asneira dessas.
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Pimmy e a lhama: frustração

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Eu e a lhama: sucesso

Passadas as constatações, ficamos esperando Gomoto terminar seu passeio e fomos caçar atividades. Avistamos algumas lhamas em um pasto e lá tentamos tirar selfies com elas. Essa talvez tenha sido uma das maiores frustrações da vida do Pimmy, pois ele notadamente é um cara da natureza, trekker, que se energiza com a mãe Gaia. Eu sou um cara mais SP que RJ e fui eu quem conseguiu tirar a selfie com a lhama. Tivemos que rolar num pasto cheio de esterco, botar grama na boca do bicho, mas somente um logrou sucesso – eu, claro. Fomos esperar Gomoto na saída de Machu Picchu, compramos um suco e um sanduíche cada, quando de repente surgiu um pequeno indiozinho inca com olhar de cachorro faminto:

-Eu gosto muito de suco…. – dei meu suco pra ele.
Imediatamente virou para Pimmy:
-Também gosto muito de sanduíche….- Pimmy deu o seu, muito contrariado, afinal tínhamos acordado 4h da manhã, comido nada, caminhado 2km e pago quase 30 reais em um sanduichezinho.
Depois disso comecei a conversar coisas básicas com o garoto (“como você se chama? Quantos anos você tem? Cadê sua mãe?” etc) quando pedi para ele me ensinar alguma palavra em quechua (língua dos índios). Ele incadisse:
- Ahsadasdamsda (incompreensível)
Perguntei o que aquela palavra significava em espanhol e ele botou a mão na minha coxa, com um sorrisinho de ursinho da Parmalat disse:
-  Significa “cariño” señor.
Nesse instante percebi que ele deveria usar essa tática barata com todo mundo que encostava ali e que, mais cedo ou mais tarde, alguma Angelina Jolie da vida iria adotar aquele pequeno projeto de estelionatário inca.

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