Fernando Meirelles estreia na ópera

Fernando Meirelles estreia na ópera

Sonia Zaghetto
Ingênuo seria quem imaginasse que a primeira incursão do cineasta Fernando Meirelles pelo mundo da ópera pudesse se limitar a ser apenas um novo desafio profissional para esse adorável contador de histórias que se notabilizou por filmes intensos como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. A pouca familiaridade com o mundo operístico não intimidou Meirelles, que estreia,hoje (9/09), como diretor cênico da ópera Os Pescadores de Pérolas, de Georges Bizet (1838-1875) e já deixou sua marca de inovação e sensibilidade no vasto universo operístico.
 
Além de misturar ópera e cinema, Os Pescadores de Pérolas terá transmissão ao vivo para todo o Brasil no dia 15 de setembro. Na montagem, Meirelles buscou pontos de contato para unir dois mundos exóticos: o antigo Ceilão (atualmente Sri Lanka, uma ilha ao sul da Índia na qual está ambientada a ópera) e a Amazônia, onde está o Theatro da Paz, local em que o espetáculo será apresentado.
Além dos pescadores, personagens centrais da trama e das populações ribeirinhas da região amazônica, árvores e águas amazônicas enchem as telas. Filmados com a usual maestria de Meirelles, mesclam-se ao cenário construído com materiais típicos da região e aos figurinos sóbrios feitos igualmente a partir de tecidos locais. Na montagem – que integra a programação do XIV Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, Pará – estarão presentes até aromas como o do patchouli, que é considerado um dos perfumes típicos da Amazônia, mas é originário da Índia.

Não bastasse isso, há ainda mais: a aventura operística de Meirelles está sendo filmada para um documentário de 70 minutos, assinado pelo diretor Carlos Nader. Este gravou os cantores líricos entoando, em plena madrugada, as árias da ópera de Bizet entre barqueiros e pescadores do icônico mercado do Ver-o-Peso, em Belém.  E o que dizer do ousado teaser em que o cineasta filmou o tenor Fernando Portari e o barítono Leonardo Neiva entoando um dos mais famosos duetos da ópera (Au fond du temple saint) debaixo de um chuveiro (veja aqui)
Em entrevista exclusiva a Artelivre, Meirelles conta, de forma bastante pessoal e com muita modéstia a experiência de dirigir pela primeira vez uma ópera.

Sri Lanka do Pará

 
P. Como foi a experiência de dirigir uma ópera pela primeira vez?
FM. Está sendo extremamente gratificante. É muito bom poder aprender uma linguagem nova e ser um principiante aos 59 anos. No fundo me sinto como um estagiário a quem ofereceram a possibilidade de ser o chefe da sessão por uma semana.
 
P. O que o público pode esperar de inovador/diferenciado nessa montagem?
FM. Pelo que andei assistindo de óperas na rede, é quase impossível ser inovador nesta área. Já se fez de tudo em ópera: de cantores de ponta cabeça a montagens em lixões. Não tenho a pretensão de inovar o gênero, quem sou eu, mas estou usando alguns truques para deixar a montagem mais popular e acessível para não iniciados, como usar algumas projeções para entendermos melhor os personagens ou às vezes trazer o palco até a plateia para literalmente envolver o público. Nada que já não tenha sido feito.
 
P. Cenários de miriti e filmagens em lugares amazônicos permitem antecipar que Ceilão e Amazônia serão harmonizados. É isso mesmo? Como você elaborou isso?
FM. Em nossa primeira visita a Belém demos um passeio de barco num igarapé e vimos aqueles pontões – ou estivas, como chamam no Pará – debruçadas sobre o rio, e encontramos aí o nosso caminho para cenário e linguagem. Uma comunidade de pescadores no Sri Lanka, onde a história se passa, não é muito diferente de uma vila de pescadores na Amazônia. A partir daí começamos a buscar mais pontos de contato. Fora o tipo de construção ou o uso do genial miriti, estamos usando também o cheiro do patchouli, que é indiano mas também considerada uma fragrância local. Sri Lanka do Pará
P. Houve um momento especial em que você se sentiu “fisgado” pela ópera? Ou foi um processo gradual? Para ser dramática e operística na comparação: foi paixão à primeira audição ou um amor construído à indiana, gradualmente e com ares de definitivo?
FM. Foi um processo lento, mas, cada vez que ouço os ensaios, vou gostando mais da música e do canto lírico, que conhecia por alto. Se pudesse ainda cortava as codas, que são o rabo das músicas onde fica-se repetindo a mesma letra ad infinitum, mas mesmo destes rabos já estou gostando.
 

A ópera

 

Com um cenário que aproxima em muito o antigo Ceilão - atual S“Os Pescadores de Pérolas” (Les pêcheurs de perles) foi escrita em 1863 pelo compositor francês Georges Bizet. A história se passa no Ceilão (atual Sri Lanka) do século 19 e fala do triângulo amoroso entre o líder dos pescadores, Zurga, seu amigo Nadir e a sacerdotisa Leila.  
Apesar de haver sido escrita quando Bizet tinha apenas 26 anos e expresse em sua irregularidade a juventude do compositor, a ópera já anuncia o brilhantismo que culminaria em Carmen, com árias belíssimas, como Je crois entendre encore (que você vê aqui, interpretada por Placido Domingo), Au fond du temple saint (Roberto Alagna e Bryn Terfel) Me voilà seule (na voz de Maria Callas)
A história inicia em uma praia, tendo ao fundo um templo hindu em ruínas (a proximidade geográfica com o subcontinente indiano fez com que a influência da cultura e da religião hindu fosse marcante sobre o Sri Lanka), os pescadores de pérolas elegem Zurga como rei. Ele e seu amigo Nadir se reencontram e recordam de uma bela mulher que viram em um templo hindu, tendo ambos se apaixonado por ela. A amizade entre os dois prevaleceu e eles se comprometeram a não procurar a moça.
Um bote chega à praia e emerge dele uma mulher coberta de véus, acompanhada por Nourabad, o principal sacerdote de Brahma. Ela foi escolhida para proteger os pescadores enquanto estes mergulham para buscar as pérolas. Nadir reconhece a mulher como a bela moça do templo. Seu nome é Leila e ela fez voto de castidade. Ainda assim, Leila e Nadir se apaixonam.
Nourabad percebe a situação e denuncia os amantes ao povo. Zurga intervém, mas, ao reconhecer Leila, entende que Nadir quebrou o pacto de amizade e ordena a execução dos dois. Mais tarde, Zurga é atormentado pelo remorso, mas ao notar o amor de Leila e Nadir recusa-se a conceder o perdão. Leila pede a um pescador que leve um colar à sua mãe. Zurga reconhece a joia como o presente que um dia deu a uma jovem moça que lhe salvara a vida.
Junto à pira sacrificial, Leila e Nadir aguardam a execução, mas, pouco antes do momento final, Zurga distrai
Nourabad e a multidão sedenta de sangue, com a noticia de que a aldeia se encontra em chamas. Todos fogem para salvar suas posses e Zurga liberta Nadir e Leila, explicando que ele é o homem que Leila um dia salvou, tendo deliberadamente ateado o incêndio na aldeia para salvar a vida dela como forma de retribuição. Nadir e Leila fogem.
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Cenário utiliza materiais típicos da Amazônia

 

?????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Nessa montagem de Os Pescadores de Pérolas, o cenógrafo Cássio Amarantes, utilizará um material típicoda floresta amazônica: o miriti.

 O cenário da ópera foi construído em um galpão e transposto, peça por peça, para o palco do Theatro da Paz, onde começou a ser montado desde a semana passada.

Amarantes idealizou trazer o Ceilão, local onde se passa a história, para a realidade ribeirinha da Amazônia, uma vez que pescadores são personagens comuns em ambos os cenários. Pinguelas, igarapés e estivas estarão presentes, unindo o mundo dos que pescam pérolas no oriente e os ribeirinhos da Amazônia.
 
“Fizemos uma espécie de jogo, com peças móveis que a cada cena se montam de uma maneira diferente, tentando simbolizar a beira de praia e do penhasco. E nós descobrimos no miriti um grande parceiro na construção desses elementos que compõem as ambiências, as superfícies onde o coro sobe e os protagonistas cantam”, explicou.
 
Utilizado há centenas de anos pelos povos tradicionais da Amazônia, o miriti é uma fibra vegetal levíssima, bastante moldável, uma espécie de isopor natural. Em Belém, os brinquedos de miriti (pequenos barcos, aviões e ventarolas) estão entre as imagens mais tradicionais da tradicional festa do Círio de Nazaré. “O miriti é um material símbolo. Tem características tão maravilhosas, é esteticamente tão bonito, então, talvez o cenário esteja explorando possibilidades que o miriti só começa mostrar que tem”, elogia o cenógrafo.
 
O cenário tem uma estrutura metálica revestida com madeira de reflorestamento. “É uma grande construção. Compramos tudo aqui nas lojas de construção. O miriti nós compramos no mercado do Ver-o-Peso”, afirma Cássio,  que ficou encantado em saber que a população amazônica usa, rotineiramente, o miriti pra fazer isolamento e pequenas cercas. “Nós estamos descobrindo outras maneiras de utilizá-lo”, disse.
 
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Amarantes e Meirelles com a maquete do cenário

O templo, que é o principal elemento do cenário, é construído entre escarpas, expressando a força do conjunto. “Tem também inspiração na estação Galo do Oriente, em Lisboa, que é feita de metal e com uma geometria que encanta o mundo”, observou.

 Cássio Amarantes é arquiteto formado pela Universidade de São Paulo, diretor de arte e cenógrafo. Foi diretor de arte de vários filmes, como “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles; “Abril Despedaçado” (2001), de Walter Salles; “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2007), de Cao Hambúrguer; “A Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins; e “Xingu” (2012), de Cao Hambúrguer.
 
Serviço:
 
A ópera Os Pescadores de Pérolas será apresentada em quatro récitas, nos dias 9, 11, 13 e 15 de setembro de 2015, às 20 horas, no Theatro da Paz.
Ingressos para assistir nos cinemas: www.cinelive.com.br
 
Ficha Técnica
Nos bastidores do centenário Theatro da Paz, a movimentaçãoXIV Festival de Ópera do Theatro da Paz
Ópera Os Pescadores de Pérolas, de Georges Bizet (1863)
Libreto: Michael Carré e Eugène Cormon
Camila Titinger (soprano) – Leila
Fernando Portari (tenor) – Nadir
Leonardo Neiva
(barítono) – Zurga
Andrey Mira (baixo) – Nourabad
Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz – Maestro: Miguel Campos Neto
Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz – Regente: Vanildo Monteiro
Direção: Fernando Meirelles
Figurino: Verônica Julian
Cenografia: Cássio Amarantes
Iluminação: Joyce Drummond
Diretor assistente: Danilo Gambinni
Coreografia: Marília Viegas

 

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