Crônica – Dona Margarida

Crônica – Dona Margarida

Ricardo Pulido

 __ Tem certeza de que não quer uma carona?

__ Obrigada, eu tô bem.

__ Tudo bem. Se precisar liga, tia! Beijo!

Viu o táxi partir com o sobrinho pela estrada do cemitério. Respirou fundo e começou a caminhar. Não era longe -morava a algumas quadras dali – e, apesar do perigo de ser assaltada àquela hora, precisava andar. Conversar sozinha, como costumava dizer… Bem, na verdade essa conversa sozinha nunca tinha fim, mas andando as coisas se encaixavam melhor. Estava triste e aliviada. E um pouco culpada por se sentir aliviada. Na verdade sentia vergonha por todo mundo ali: todos aliviados, alguns tristes e a maioria cumprindo rapidamente um rito social. O peso do velório e do enterro pareciam maiores que o da própria morte do seu irmão.

Chegou em casa, estava tudo uma bagunça. Desde ontem não tivera tempo nem de dar um jeito na pia. Tirou o sapato, o coque e o vestido preto. Botou uma roupa de guerra e começou automaticamente a lavar a louça. Pensava melhor arrumando a casa. Lembrou que ainda ia ter que limpar o quarto do Zé Augusto. Será que ela tinha água oxigenada? Sangue seco era bem difícil de limpar…

Coitado do Zé Augusto, tinha morrido tão fraquinho. Com os braços finos e a barriga inchada. Meio amarelo, parecia um desenho animado. Coitado…. Sem perceber, já estava chorando. Um choro quieto, somente um rolar de lágrimas enquanto esfregava a escumadeira…

Por um tempo ficou lembrando da infância dos dois. Brincavam pouco juntos, o Zé, além de mais velho, não gostava de “brincadeira de menina”. Ele gostava mesmo era de futebol. Jogava pelada o dia inteiro, fugia da escola. Ela não, sempre obediente, sempre quietinha. Mas se gostavam. Ela admirava a liberdade dele. Ele a protegia quando o pai meio bêbado chegava em casa. Ainda se lembrava dele falando: sai Má, sai! Ela fugia pela porta dos fundos da cozinha e se escondia no quintal. Apanhavam muito, mas ele bem mais que ela.

Passou um tempo, o pai foi embora. Largou a ela, o Zé e a mãe. Ela se lembra muito pouco daquela época. Lembra que o Zé ficou mais sério e começou a trabalhar. Ele tinha uns 13, 14 anos e foi ajudar um serralheiro italiano que tinha ali perto, o seu Giovanni. Acabou o futebol, acabou a escola, acabou a correria…

A mãe foi trabalhar numa fábrica de chuveiros, e de repente, ela virou dona de casa. Tinha somente 11 anos e chegava da escola, fazia o almoço dela, a janta de todos e limpava a casa. Sempre quieta, pensando, pensando. Não tinha raiva do pai, como o Zé. Na,verdade ela não se lembrava mais do que sentia naquela época. Fazia tanto tempo…

A cabeça não parava de pensar enquanto Dona Margarida lavava a louça. Esfregando a frigideira, tentava se lembrar do Zé Augusto mais novo, quando ele começou a trabalhar naquela firma de ônibus. Qual era? O Zé tinha feito um curso de mecânica e passou a trabalhar consertando alguma coisa dos ônibus. Ganhava bem. Ela tentava se lembrar daquela época, mas só aparecia a imagem de um par de sapatos vermelhos que o Zé tinha comprado no seu aniversário… Onde estavam esses sapatos? Tinha que arrumar o quartinho da bagunça…

Terminou a louça e foi para a lavanderia. Preparou a máquina e colocou a roupa. Só depois de ligar é que percebeu que estava lavando a roupa do irmão.  Não sabia se isso era certo, se precisaria ter feito isso. A luz tão cara, meu Deus… Ia dar a roupa do Zé para quem? Não sabia. Em alguns segundos uma série de pequenas perguntas sobre o que fazer com as coisas do Zé passavam por sua mente. Suspirou. A catraca não parava…

Abriu o armário, mas não achou a água oxigenada. Pegou um outro produto forte, isso devia dar. Deveria usar luvas? Achou melhor. Subiu para o quarto do irmão armada para a limpeza.

Chegou no quarto e abriu as janelas. Foi difícil, há semanas as janelas não eram abertas. Desde que tinha voltado do hospital, o irmão não saía do quarto.. Uns dois meses, será? Ela achava que o Zé ia finalmente se emendar depois daquela internação, mas tinha ficado pior. Mais deprimido e quieto.

O ar frio do começo da noite de setembro entrou no pequeno quarto. Dona Margarida achou que foi por isso que tinha se arrepiado. Olhou em volta: a cama desarrumada, os lençóis sujos, a poça de sangue seco, o copo encardido e a garrafa de pinga num canto. Respirou fundo e decidiu não chorar. Não conseguiu. Via em sua frente o irmão, tão pequeno, amarelo, caído no chão, um passarinho no meio do sangue.

Aos poucos, se recompôs. Jogou o desinfetante no chão do quarto e começou a esfregar, limpando o sangue. Não tinha mais tanto nojo, não era a primeira vez que fazia aquilo. No último ano o Zé tinha dado a vomitar sangue. Tinha sido internado umas três, quatro vezes. E sempre diziam que se ele voltasse a beber morreria. O Zé sorria ao ouvir isso… Parecia que gostava da ideia…

Ela não se lembrava quando o Zé começou a beber como o pai. Mas a culpa era daquela maldita baiana. A primeira mulher do Zé era um demônio. Dona Margarida dizia para ele não ficar com ela…. Ele ria e a mandava não ser ciumenta. Os dois se juntaram e foram morar no quintal da casa, na edícula. Meses depois a mãe morria do coração, não de infarto (como diziam os médicos), mas de desgosto. Foi quando ela ficou sozinha com o irmão e a cunhada.

A cunhada era o inferno, chata, futriqueira. Vivia se metendo na vida dela e do irmão. Assim que engravidou, largou o emprego e ficou se achando a rainha da casa. Ela agora tinha que ser empregada da cunhada? E ainda tendo que ouvir piadinhas por que não tinha casado, não tinha namorado? Ela se achava linda, mas não se enxergava. O clima era tenso. As duas brigavam sempre, mas veladamente. Mas o Zé… o Zé tinha que dar um jeito naquilo.

Teve que parar um pouco com a limpeza quando lembrou daquele dia em que o Zé a encontrou chorando por causa da cunhada. Foi quando ele resolveu se mudar dali, dizendo que precisava de mais espaço para o bebê. Ela ficou tão alegre e tão triste. Ia ficar bem, sozinha, dizia. Tinha concluído o magistério e já tinha conseguido emprego na escola! Tudo ia dar certo. O Zé viria visitá-la.

Tudo pareceu melhorar quando nasceu o sobrinho. Um fofo. Pena que a mãe não deixava ela ficar muito com ele. A cunhada começou a ficar cada vez mais possessiva e controladora, com um ciúme doentio do Zé. Ligava para ela (a cobrar!) tarde da noite procurando pelo marido. Como se ela soubesse!! Ora, tinha mais o que fazer. Ela que cuidasse do seu marido. Se ela fosse menos insuportável, com certeza o Zé ia querer ficar mais tempo em casa… E depois, ele devia estar trabalhando muito, nem tinha mais tempo de visitar a irmã….

Começou a tirar os lençóis da cama, o cheiro era forte. O Zé Augusto já exalava álcool há algum tempo. Mesmo tomando banho, o cheiro persistia. O travesseiro era o pior, estava meio úmido e fedorento. Dona Margarida pegou o travesseiro e levou até o quintal, na lata de lixo. Estava com raiva, a mente continuava matraqueando o que tinha acontecido há tanto tempo. Sentia a mesma raiva que sentia da cunhada quando chegou na casa do irmão e o encontrou sozinho, sentado na cozinha vazia. A vadia tinha levado até o fogão. Dona Margarida percebeu que tinha chegado tarde demais.

Encontrou o Zé Augusto ali, parado, na frente de uma garrafa de pinga. A casa vazia, só tinham sobrado a geladeira, a mesa da cozinha, as cadeiras e um colchão. As roupas do Zé estavam socadas em uma mala velha, no canto do quarto.

__ Ela foi embora?

__ …

__ Levou o menino?

__ …

__ Zé?

Nunca ia se esquecer do vazio no rosto do Zé. Era um vazio que ela nunca tinha visto no irmão antes. Ele se limitava a beber. Naquele dia, ela o trouxe de volta para casa, pela primeira vez. Vendeu a geladeira do Zé, e juntou um dinheirinho, para pagar os aluguéis vencidos. Com certeza a cunhada andava roubando o Zé.

Voltou pro quarto do irmão, pegou lençóis novos e ficou se lembrando de quando o Zé veio morar com ela depois da cunhada ter ido embora.  Ele já bebia muito, mas tinha sido abandonado pela vaca da cunhada. Coitado, ficou tão transtornado que acabou até perdendo o emprego. Foi mandado embora por ter brigado na empresa.  Começou a beber mais e mais. Dizia que nem os direitos a empresa queria pagar a ele. Ela morria de pena. Acordava de manhã para ir à escola e encontrava o Zé, jogado no sofá da sala. Coitado.

Pronto, o quarto do Zé Augusto estava arrumado de novo. Pegou o copo e a garrafa de pinga e levou até a cozinha. Lavou o copo sujo, encardido. O Zé dava trabalho até depois de morto! Sorriu. Lembrou quando ele um dia disse a ela que era hora dele sair por aí. “Estou te incomodando, maninha”. Deu um beijo nela e foi embora, com uma mochila. Queria visitar o filho.

Ficou quase um ano sem ter notícias do Zé. Um dia ele ligou lá de Goiás, mas a ligação estava ruim. Ouvia-se no fundo uma música horrível, um barulho absurdo. Devia estar numa festa. Ele tinha começado a trabalhar em uma obra, como serralheiro, e tudo ia ficar bem. Não, não tinha chegado na Bahia ainda. Queria ganhar dinheiro primeiro para comprar um presente bom para o filho. Ele desligou antes dela poder oferecer-lhe o dinheiro.

Dona Margarida foi para o seu quarto . Tudo meio desarrumado, mas nem de perto igual ao do irmão. Rapidamente, pôs tudo em ordem. Limpou também a escrivaninha, pôs os livrinhos de palavras cruzadas em ordem, guardou as canetas. Saudades de quando lecionava. Adorava corrigir as provas dos alunos, sentada, quieta. Era um dos poucos momentos do dia em que a cabeça não disparava a pensar. As tarefas domésticas não tinham o mesmo efeito nela….

Sentia-se cansada, mas havia ainda algumas coisas para fazer antes de dormir.  Tinha que tomar banho. Enquanto se despia, lembrava de quando irmão voltou de Goiás, pálido, assustado. Dizia que a polícia estava atrás dele.  Tinha vindo se esconder.  Estava magro, macilento. Sem dinheiro, barba por fazer.. Tinha se metido em uma briga, mas não contava mais nada. “Não fui eu! Eu não lembro de nada!”. Era tudo o que dizia.

Chorou mais um pouco. Via nitidamente o irmão voltando para casa, com uma pequena mochila, roupas gastas. Lembrou-se que decidiu cuidar dele, mais uma vez. Era sua obrigação e, sem dúvida, um prazer. Continuava sozinha e, enfim, era seu irmão. A casa era dele também. Instalou o Zé no quarto e comprou umas roupas para ele.

Aos poucos o Zé foi melhorando, pegando corpo. Ela se lembra com carinho daquela época. Ele não conseguia arranjar emprego, tinha um problema de documentação que ela não entendia direito. Mas fazia uns bicos pela vizinhança.  Ela dava aulas no Estado e na Prefeitura. Iam vivendo. Tinham dinheiro para pagar as contas, e até uns luxos. Dava para comprar a cervejinha do Zé sem se apertar.

Ficaram assim uns 5 anos, quem sabe? Poderiam ter ficado assim a vida toda. Mas o Zé era mulherengo. E um dia ele de novo se despediu. Ia morar com a Flávia, no Paraná. Dona Margarida sorria. Gostava um pouco da Flávia, apesar de ela ser meio sonsa. Mas ela não era ciumenta, e tratava bem o Zé.

De novo Dona Margarida ficava sozinha. Já naquela época não nutria mais esperanças de casar-se. Também não queria mais . Tinha já perdido a juventude, e a vida era boa. Tinha a casa que era da mãe, dois vínculos públicos. Que mais precisava?

Terminou o banho, se enxugou, secou o banheiro e pôs o pijama. Não tinha fome. Escovou os dentes e se preparou para dormir. Estava esgotada física e emocionalmente, mas as lembranças não paravam de surgir, uma atrás da outra, em borbotões. Já estava meio incomodada com os próprios pensamentos, rápidos, infinitos. Deitou-se para dormir, fechou os olhos, rezou.

Mas a cabeça não silenciava.

Agora se lembrava de novo da última internação do Zé. Pronto-socorro público, uma maca, uns tubos na boca. A cara desesperançada do médico dizendo que ele ia morrer da próxima. Era um boliviano de sotaque carregado. “Más una y ele no aguenta”. Ela estremecia na cama da mesma forma que naquele dia. Coitado do Zé.

O irmão tinha passado um bom tempo no Paraná. Às vezes ligava, dizia que estava tudo bem. A Flávia não engravidava e isso foi aos poucos azedando o casamento dos dois. Depois de um tempo ela soube que ele tinha se separado dela e ido para o Paraguai. Outros diziam que ele estava em Ribeirão Preto, trabalhando em uma obra grande. Ficou uns cinco anos sem saber do irmão.

Um dia ele ligou, perguntando se podia voltar. Ela ficou ofendida com a pergunta. A casa era dele também! Duas semanas depois, ele voltava, mais magro que da primeira vez. Não queria falar muito a respeito de nada. Tossia muito. Fumava e bebia cada vez mais. Comia pouco. Tratava-a bem, como sempre, mas estava sempre distante. Dona Margarida não sabia o que fazer, mas foi se acostumando. O irmão acordava tarde, fazia a barba e saía pelo bairro. Tinha conseguido se aposentar e ganhava um salário do INSS. Com esse dinheiro, passava o dia nos bares da vizinhança, tomando conhaque e pinga. Voltava para casa de madrugada. Às vezes comia o prato que ela deixava pronto, dentro do microondas.

Um dia, o sobrinho ligou. Nunca mais tinha visto o menino. Ele já estava com 18 anos. Perguntou pelo pai e se podia vir visitá-lo. Viria sozinho, a mãe não queria vir. Dona Margarida não se opôs. Zé Augusto não disse nada.

Virava na cama, a coberta incomodava. Tinha esquecido a máquina de lavar! Desceu, tirou a roupa da máquina e começou a estender. As memórias iam e vinham rápidas. Meu Deus, eram 2 da manhã. Os olhos mal se mantinham abertos, mas o pensamento não parava.

Lembrava quando o sobrinho chegou naquele dia. Um rapaz muito bonito, igual ao Zé quando jovem, mas mais moreno. Muito tímido, educado. Nem parecia filho daquela vaca. Com certeza alguém deveria tê-lo criado. A mãe? Nunca. O menino ficou uns 10 dias com eles. Muito prestativo. Tentava se aproximar do pai, mas o Zé pouco falava. Fumava e bebia muito na presença do filho.

__ Já vai voltar pra Bahia?

__ Já vi o que tinha que ver, tia. Quando puder, venha me visitar. Gostei muito da senhora. Muito obrigado, e desculpa qualquer coisa.

E assim ele se foi, de volta para casa. Uma pena. Tinha começado a gostar do jeito do moço.  Quando o Zé chegou naquele dia e não viu o menino, se trancou no quarto e só saiu dois dias depois. Ela não ouvia o Zé chorar, mas sabia que ele estava destruído. Coitado dele. Mas a vida continuava. Fez um bife a milanesa, arroz e feijão e foi limpar o quarto do Zé. Ele comeu um pouco e saiu, reiniciando a sua rotina.

Teve que ir ao banheiro, a cabeça fervendo, os olhos ardendo. Um sono bobo, que só a fazia se sentir exausta, mas sem conseguir dormir. Pensando, pensando, pensando. Parecia que tinha uma engrenagem no meio do cérebro, que não parava de rodar. Lembrava do Zé, do sobrinho, dos seus alunos, do antigo diretor da escola onde trabalhava, tão bonito e tão casado…. Suspirou no banheiro, com as mãos apertando  as orelhas. A vida do irmão continuava atrapalhando seu sono.

Pensava que estava assim por causa do enterro, mas sabia que estava se enganando. Era sempre assim, todos os dias essa dificuldade para dormir. Tinha piorado depois que se aposentara. E, depois que o Zé ficou doente, o barulho na sua cabeça tinha ficado insuportável.

Voltou para a cama, inquieta. Lembrava de quando o Zé tinha sido internado pela primeira vez. Tinha sido encontrado caído na rua, no caminho entre o boteco e sua casa. Zé Augusto estava tão velho… Ela não tinha percebido até aquele dia. Ligaram para ela do pronto socorro da prefeitura, pediram que o buscasse, pois ele estava de alta.

“Intoxicação alcoólica”, eles disseram. Assinou os papéis o trouxe novamente ele para casa. Tinha caído de frente, e perdido um dente. Estava péssimo, ia ter que arranjar um dentista, mas primeiro, ele precisava de um banho. Dias depois o Zé respondeu com um palavrão quando ela lhe falou do dentista. Os outros dentes foram seguindo o destino do primeiro fugitivo, pouco a pouco, ao longo dos anos que viriam….

E assim foram os últimos quatro, cinco anos. Pegando o Zé em prontos-socorros, no bar, na calçada. Ele já caía em qualquer lugar e dormia. Não importava se fosse dia ou noite. Ainda bem que ela já tinha se aposentado. Imagina ela trabalhando e o irmão por aí…

Levantou novamente da cama, com calor. Arrancou as cobertas, abriu a janela. Menopausa, que horror. O calor vinha no peito e não cedia, durava sempre uma meia hora. A noite estava bonita, uma lua crescente sorrindo ironicamente para ela. Tossiu. Da janela conseguia ver a avenida lá longe, onde quase o irmão tinha morrido. Fora atropelado por uma bicicleta, totalmente bêbado e por pouco um ônibus não terminou o serviço. Nova ida ao hospital, tinha quebrado umas costelas. Foi quando ela despertou o demônio.

Lágrimas quietas vinham de novo quando se lembrou do rosto do irmão naquele dia. Tinha dito a ele que ele não ia mais sair, não podia mais beber, ordens médicas. Zé Augusto ficou vermelho, se levantou com a mão direita sobre a costela quebrada e com a esquerda avançou em cima dela. Mas parou. Não encostou nela, saiu de casa e só voltou no dia seguinte, tão embriagado que nem conseguia abrir a porta. Dormiu na soleira da própria casa.

O calor tinha passado. Ela fechou a porta. Ficou parada olhando para a cama desarrumada. Quando naquele dia abriu a porta e deu de cara com o irmão naquele estado, deu um grito. Zé Augusto despertou com raiva e disse: “Culpa sua”. Foi a primeira vez que ela viu o irmão chorar.

Percebeu então que era inútil. Melhor tentar evitar o pior. Afinal eles eram irmãos. O Zé era, no fundo, uma ótima pessoa. Ela o amava. Levou-o para dentro, cuidou dele, deu banho. Passou o dia e a noite  matutando uma solução.

No dia seguinte acordou cedo e foi ao bar mais próximo de sua casa. Perguntou ao dono do bar qual bebida o Zé costumava beber.

__ Olhe, dona, quando ele sem dinheiro, bebe qualquer coisa que lhe dão. Mas quando ele pode, ele compra mesmo é Pitu.

Combinou então com o dono do bar que lhe mandasse um menino entregar uma garrafa de Pitu por dia na sua casa. Pagaria adiantado o suficiente para um mês. Não queria ser vista comprando tanta pinga no mercado. Ceará, o dono do estabelecimento, concordou, mas fez uma ressalva:

__ Melhor levar logo duas por vez. O Zé não é fraco, não.

Ficaram acertados assim. Todo dia, bem cedo, um menino deixava na porta dela um pacote com as garrafas, na maior discrição. E o Zé não ia precisar sair de casa e correr o risco de morrer embaixo da roda de algum carro.

Ela não imaginava que o irmão fosse aceitar o arranjo tão passivamente. Mas ele deu risada e agradeceu, perguntando se era Pitu mesmo. Isso o tranquilizou de alguma forma. Passou a ficar o dia todo na sala, bebendo e vendo televisão. À noite, ficava deitado no quarto, dormindo, bebendo. Deixava sempre uma garrafa no quarto e outra na sala. Dona Margarida só achava ruim não poder receber mais visitas. E o cheiro. Mas o irmão parecia contente e, principalmente, tinha parado de dar trabalho.

Sorria. Apesar de tudo, foram dois anos muito calmos. O irmão só saía, basicamente, para ir ao banco sacar a aposentadoria. Deixava o dinheiro com ela, o que ajudava na conta do bar. Ela tinha tempo de arrumar as coisas, cozinhar e fazer cruzadinhas. E pensar, pensar, pensar. Ininterruptamente. O silêncio da casa era mais pungente quando comparado com a balbúrdia de sua mente.

Teve sede. Desceu as escadas até a cozinha. Lembrou-se, irritada, que ia ter que acordar cedo, para cancelar as entregas do bar do Ceará. Estava exausta, parecia a  época em que o Zé começou a ter sangramentos. Idas aos médicos, nada funcionando, o irmão piorando e rindo, sem dizer um “a”. E todo dia, duas garrafas de Pitu religiosamente entregues, naquela soleira onde o Zé tinha posto a culpa nela. Suspirou. Acendeu a luz da cozinha. Podia ouvir o barulho do cérebro, como centenas de bobinas zunindo zunindo… O peito apertava levemente, mais um desconforto que uma angústia. Uma tristeza imensa, insuperável. Um cansaço extremo…

Ia abrir a porta do armário para pegar um copo, mas se lembrou que tinha deixado o do irmão, já limpo, no escorredor. Pegou o copo e ia para o filtro quando a garrafa de Pitu apareceu muito nítida em seu campo visual. Parou.

Um pensamento veio, muito claro, no meio da confusão. “Experimenta” sugeria. “Vai, você merece”. Merecia. Sim, merecia, tantos anos de dedicação, de cuidado, de amor pela família. Tantos anos numa vida simples, querendo apenas sossego. Tantos anos….

Pegou a garrafa e encheu o copo. O cheiro incomodava, fazia os olhos arderem ainda mais. Olhou o copo com nojo, mas estava decidida. Tampou o nariz e deu um gole.

Silêncio.

Sua mente tinha parado!

Foi dormir sorrindo. Finalmente entendia o Zé. Seu último pensamento antes de terminar o segundo copo de pinga e deixá-lo sobre o criado-mudo foi de que não ia precisar acordar cedo para cancelar as entregas.

 

Ilustração: Vincent van Gogh, Agostina Segatori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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