A arte sublima a morte

A arte sublima a morte

Desde o século II, cristãos de todo o planeta dedicam o dia 2 de Novembro para relembrar os entes queridos que já morreram. Artelivre selecionou oito momentos em que a arte sublimou a morte, abordando temas como a saudade e a efemeridade da vida. Santos e pecadores, famosos e anônimos, abastados e miseráveis são reunidos pela morte, que a todos iguala. 1. As tragédias de Shakespeare Pedro Américo. Visão de Hamlet Hamlet, Macbeth, King Lear, Romeu e Julieta, Othello - as tragédias de William Shakespeare são dignas desse nome. Ali, a morte domina, devasta, mas sempre vem revestida de um texto impecável, uma assombrosa poesia que tudo eleva. Ela está nas mãos sujas de sangue de Lady Macbeth, no luto de Montecchios e  Capuletos, no ciúme de Othello, na crueldade de Iago, nos olhos da afogada Ophelia, no fantasma do pai de Hamlet, mas também está, soberana, no memorável monólogo do príncipe da Dinamarca sobre a morte, tendo nas mãos a caveira do comediante Yorick, personagem de sua infância: "-Ah, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio, um companheiro de inúmeras brincadeiras, de notável fantasia, que carregou-me às costas umas mil vezes, e agora, quão abominável me parece! Causa-me um nó na garganta vê-lo agora. Aqui ficavam os lábios que beijei tantas vezes. Onde estão suas brincadeiras agora? Suas cambalhotas? Suas canções?" (Hamlet, V.i)   2. O Réquiem, de Mozart Conta-se que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) temia que este Réquiem (missa fúnebre) fosse sua obra final e servisse para o seu próprio funeral. Estava certo. A Missa - provavelmente encomendada pelo conde Walsegg-Stuppach, cuja esposa havia falecido recentemente - sequer foi terminada, pois Mozart morreu antes de completar a peça, concluída por  seu amigo e discípulo Franz Xaver Süßmayr. Mozart ficara impressionado quando um desconhecido encapuzado e sombrio lhe encomendou uma Missa fúnebre e pagou um adiantamento. Acredita-se que o enviado do conde Walsegg-Stuppach queria ser discreto, pois o nobre pretendia - como diz-se que era sua prática - apresentar-se como autor da obra, que estreou em Viena no dia 2 de janeiro de 1793.
 3.  o filme "A Partida" Okuribito (A Partida) é um filme japonês de 2008 dirigido por Yojiro Takita. Merecidamente vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, narra a história de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um violoncelista  recém-casado que perde o emprego após o encerramento das atividades da orquestra na qual tocava.  O casal resolve voltar à cidade natal de Daigo, mas o único trabalho que Daigo consegue é como "nokanshi", uma profissão-tabu, cercada de preconceitos e de dor: o nokanshi é apessoa que prepara os mortos para o velório e a cremação. A partir de então, desenvolve-se uma trama de extrema sensibilidade, em que o tema da morte é tratado com refinamento. Atente para a bela trilha sonora de Joe Hisaishi e do diretor de fotografia Takeshi Hamada, além do trabalho impecável dos atores.
4. o poema "romance", do escritor brasileiro Mário Faustino Henry Wallis. A Morte de Chatterton. Mário Faustino (1930-1962) morreu jovem, aos…

A arte sublima a morte.

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Desde o século II, cristãos de todo o planeta dedicam o dia 2 de Novembro para relembrar os entes queridos que já morreram. Artelivre selecionou oito momentos em que a arte sublimou a morte, abordando temas como a saudade e a efemeridade da vida. Santos e pecadores, famosos e anônimos, abastados e miseráveis são reunidos pela morte, que a todos iguala.

1. As tragédias de Shakespeare

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Pedro Américo. Visão de Hamlet

Hamlet, Macbeth, King Lear, Romeu e Julieta, Othello - as tragédias de William Shakespeare são dignas desse nome. Ali, a morte domina, devasta, mas sempre vem revestida de um texto impecável, uma assombrosa poesia que tudo eleva. Ela está nas mãos sujas de sangue de Lady Macbeth, no luto de Montecchios e  Capuletos, no ciúme de Othello, na crueldade de Iago, nos olhos da afogada Ophelia, no fantasma do pai de Hamlet, mas também está, soberana, no memorável monólogo do príncipe da Dinamarca sobre a morte, tendo nas mãos a caveira do comediante Yorick, personagem de sua infância:

“-Ah, pobre Yorick! Eu o conheci, Horácio, um companheiro de inúmeras brincadeiras, de notável fantasia, que carregou-me às costas umas mil vezes, e agora, quão abominável me parece! Causa-me um nó na garganta vê-lo agora. Aqui ficavam os lábios que beijei tantas vezes. Onde estão suas brincadeiras agora? Suas cambalhotas? Suas canções?” (Hamlet, V.i)

 

2. O Réquiem, de Mozart

Conta-se que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) temia que este Réquiem (missa fúnebre) fosse sua obra final e servisse para o seu próprio funeral. Estava certo. A Missa – provavelmente encomendada pelo conde Walsegg-Stuppach, cuja esposa havia falecido recentemente – sequer foi terminada, pois Mozart morreu antes de completar a peça, concluída por  seu amigo e discípulo Franz Xaver Süßmayr.

Mozart ficara impressionado quando um desconhecido encapuzado e sombrio lhe encomendou uma Missa fúnebre e pagou um adiantamento. Acredita-se que o enviado do conde Walsegg-Stuppach queria ser discreto, pois o nobre pretendia – como diz-se que era sua prática – apresentar-se como autor da obra, que estreou em Viena no dia 2 de janeiro de 1793.

 3.  o filme “A Partida”

Okuribito (A Partida) é um filme japonês de 2008 dirigido por Yojiro Takita. Merecidamente vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, narra a história de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um violoncelista  recém-casado que perde o emprego após o encerramento das atividades da orquestra na qual tocava.  O casal resolve voltar à cidade natal de Daigo, mas o único trabalho que Daigo consegue é como “nokanshi”, uma profissão-tabu, cercada de preconceitos e de dor: o nokanshi é apessoa que prepara os mortos para o velório e a cremação. A partir de então, desenvolve-se uma trama de extrema sensibilidade, em que o tema da morte é tratado com refinamento. Atente para a bela trilha sonora de Joe Hisaishi e do diretor de fotografia Takeshi Hamada, além do trabalho impecável dos atores.

4. o poema “romance”, do escritor brasileiro Mário Faustino

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Henry Wallis. A Morte de Chatterton.

Mário Faustino (1930-1962) morreu jovem, aos 36 anos, em um acidente aéreo, predito por uma vidente, nos Estados Unidos. Jornalista, tradutor, crítico literário e poeta, ficou conhecido por seu trabalho de divulgação da poesia no Jornal do Brasil quando assinava o Suplemento Dominical, na seção Poesia-Experiência. Publicou apenas um livro de poesia O Homem e sua Hora (1955). Sua temática principal? A morte, que ele não temia: amava. Romance é uma declaração de amor à morte.

Romance
Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —
 
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

5. Igualdade perante a morte, de William-Adolphe Bouguereau.  

Igualbouguereaudade perante a morte (Égalité devant la mort), de 1848, é a primeira grande pintura de Bouguereau. Produzida quando ele tinha apenas 23 anos, mostra o anjo da morte que cobre o corpo de um homem jovem com uma mortalha. A imagem evoca a inevitabilidade da morte e o julgamento da conduta do homem que acaba de deixar a vida, como se depreende desta nota em um desenho preparatório do pintor: “Igualdade. Quando o anjo da morte cobrir você com sua mortalha, sua vida terá sido sem sentido se você não tiver feito algum bem sobre a terra” (“Egalité. Lorsque l’ange de la mort étendra sur vous son linceul, à quoi vous aura servi la vie si vous n’avez fait le bien sur la terre”.

 

6. A morte de moema no poema épico “Caramuru”, de Frei José de Santa Rita Durão

Frei José de Santa Rita Durão (1722-1784), religioso agostiniano brasileiro, é famoso pelo seu poema épico Caramuru, a primeira obra a ter como tema o indígena brasileiro. Publicado em 1781, Caramuru é um poema épico de dez cantos, que conta a história  verídica de Diogo Álvares Correia, um náufrago português que se transformou em líder da tribo tupinambá, na Bahia. Diogo, conhecido como Caramuru, casou-se com uma nativa, Catarina Paraguaçu. El rejeita o amor de outra bela índia, Moema. Esta, desesperada, nada até o navio onde estão Caramuru e Paraguaçu, e se deixa afogar diante deles. Antes, faz um forte discurso, onde mágoa e vingança são a tônica. Eis um trecho:
“Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
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Victor Meirelles. Moema

Acha forças no amor que enfim o domem;
Só a ti não domou, Por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas pagar tanto amor com tédio e asco…
Ah! que corisco és tu… raio… penhasco!”

7. O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Haverá mais instigante imagem que a da morte que joga xadrez com o homem?

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8. o poema “Funeral Blues”, de W.H. Auden 

W.H. Auden (1907-1973), poeta e crítico inglês, escreveu Funeral Blues em 1936. É a Canção 9 do livro Twelve songs. Expressa a dor da de morte e da perda do ser amado. O poema tornou-se popular ao ser recitado no filme Quatro casamentos e um funeral, na cena em que o personagem Matthew homenageia seu parceiro morto. Funeral Blues foi musicado por Benjamin Britten.

Funeral Blues
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Com um osso suculento, impeçam os cães de ladrar
Silenciem os pianos e com rufares abafados
Tragam o caixão, deixe virem os enlutados
Que os aviões circulem gemendo sobre nós
Escrevendo no céu a mensagem “Ele está Morto”
Ponham laços de luto nos pescoços brancos dos pombos de rua,
Que os policiais de trânsito vistam luvas de algodão preto.
Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana de trabalho e o meu descanso de domingo,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha conversa, minha canção;
Eu pensei que o amor duraria para sempre: eu estava errado.
As estrelas não mais são desejadas; apaguem-nas, uma a uma;
Embalem a lua e desmanchem o sol;
Esvaziem o oceano e varram as florestas; 
Pois agora nada mais pode vir a ser bom.

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