Cinema – Macbeth

Cinema – Macbeth

Sonia Zaghetto

Filmar Shakespeare é como flertar com o abismo: simultaneamente fascinante e perigoso. Quatrocentos anos depois, o bardo inglês ainda mesmeriza o mundo, com suas tramas que expõem a complexidade da alma humana e seus tormentos.

Na mais recente produção cinematográfica da tragédia escocesa Macbeth, o diretor australiano Justin Kurzel abre mão de algumas passagens muito caras aos amantes da obra shakespeariana e se dá ao luxo de algumas licenças poéticas e releituras, mas é impossível sair do cinema sem estar impactado.

Os grandes conflitos emocionais de Macbeth e de sua mulher estão bem traduzidos pelo cenário externo, tomado por uma névoa gélida que tudo encobre ou por céus rubros de fogo e sangue. A grandiosidade da paisagem da Escócia – com suas montanhas a perder de vista e imensos campos que silenciosamente humilham os homens e suas mesquinhas lutas – casa-se perfeitamente com a mais famosa das falas da peça, que mostra a vida como um nada:

Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

Por sobre todo esse cenário que oprime e angustia, a música soturna de Jed Kurzel acrescenta um peso extra, ininterrupta e lúgubre, como uma voz escapando de túmulos e campos de guerra para assombrar os homens. Muito adequada para contar a história do nobre escocês Macbeth (Michael Fassbender), que mata seu rei após ouvir uma profecia de três feiticeiras, as weird sisters, que dizem que ele será o novo monarca. Instigado pela esposa, Lady Macbeth (Marion Cotillard), ele mergulha cada vez mais profundamente em um mundo de loucura, tirania e decadência.

As cenas de batalha foram rotuladas, por muitos críticos europeus, de “banho de sangue” e um cruzamento de 300 e Coração Valente, além de destinadas a capturar os fãs de Game of Thrones. De fato, o diretor apostou alto em cenas hiper-realistas, com farto uso de recursos digitais, slow motions angustiantes e câmeras de mão que revelam mais do que se desejaria ver de uma guerra medieval. Uma selvageria descritiva que a peça de teatro não comporta, mas que o cinema pode prover com precisão. E é justamente nas impressionantes cenas desse campo de batalha que a fotografia impecável de Adam Arkapaw – um dos grandes destaques do filme – tem seu ponto alto.

Para os atores, Kurzel reserva grandes closes, com uma câmera invasiva, que cria profunda empatia e induz a compartilhar as tumultuadas emoções dos personagens.

Michael Fassbender entrega-se a uma performance intensa, física e emocionalmente. Os escorpiões na mente de Macbeth são quase visíveis. A interpretação do ator alemão permite enxergar o que há da intenção original de Shakespeare ao construir um personagem que se faz joguete do destino induzido pelas três bruxas e pela própria esposa, mas que, em verdade, é vítima de si mesmo e assim mergulha em progressiva loucura. São perceptíveis a imensa fragilidade moral, sua falibilidade como amigo e soberano, sua crueldade e frieza, além de sua incapacidade de resistir às sombras internas.

A escuridão é a marca de Lady Macbeth e Marion Cotillard a constrói de forma diferenciada. Rótulos jamais se aplicariam à personagem, que impulsiona o marido ao crime e à morte, embriagada por sonhos de poder. Mesmo na cena em que evoca as fúrias e seres infernais, buscando forças para concretizar a barbárie, Cotillard empresta à sua Lady um encanto inesperado. A atriz francesa inova ao revestir de fragilidade a rainha  atormentada pela lembrança dos crimes tenebrosos,  que descobre aos poucos que as marcas de sangue não estão apenas em suas mãos, mas impressas em camadas profundas da memória e da alma. O filme ajuda a aliviar a imagem de Lady Macbeth ao lhe dar “motivos” para desejar vingar-se da vida.

Os roteiristas Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso ousaram reduzir o texto de Shakespeare – logo ele, o maior roteirista de todos os tempos! – ao mínimo, eliminando vários momentos notáveis e tomando liberdades por vezes desnecessárias. Optaram por uma abordagem essencialmente cinematográfica, muito poderosa do ponto de vista visual, mas ainda assim há perdas dignas de nota. Uma delas: a execução pública da esposa e filhos de Lorde Macduff (que na peça ocorre em segredo), algo que só teria utilidade se fosse para exemplificar a crueldade do tirano Macbeth, mas isso está explícito nas falas subsequentes. Por outro lado, suprimiu-se a emblemática fala de Lady Macduff, lamentando por o marido deixá-la para trás, à mercê da vingança de Macbeth. Ininteligível também a cena da fuga do filho do rei Duncan, Malcolm –  muito melhor construída por Shakespeare.

Não chegam a comprometer demais o conjunto pecadilhos como o anacronismo de uma catedral gótica em Dunsinane, a redução do peso dos elementos mágicos (o espectro de Banquo tratado como mera alucinação e a apresentação das bruxas, no filme mostradas com aspecto de camponesas), a falta de unidade no sotaque dos atores e a residência de Macbeth – em Inverness – mostrada não como o castelo que era, mas como mero acampamento em torno de uma igreja de madeira.

São melhor recebidas algumas licenças poéticas como a morte do filho do casal Macbeth (já que é uma peça em que a luta dinástica está muito presente), um significativo conteúdo erótico entre o casal de protagonistas ou o incêndio que traz a floresta de Birnam a Dunsidane sob a forma de cinzas flutuantes depois que as tropas de Malcolm ateiam fogo às arvores. Assim se cumpre a profecia das bruxas, em uma bela alternativa ao texto de Shakespeare, no qual os soldados se disfarçam usando galhos de árvores.

Inegável desafio é filmar uma das míticas histórias de Shakespeare – já memoravelmente recriada por diretores do porte de Orson Welles (1948), Akira Kurosawa (1957) e Roman Polanski (1971) –  e da empreitada emergir algo realmente novo. Pelo caminho certamente se erguerão os puristas, indignados perante quaisquer heresias ao texto original, e os modernos espectadores que estranharão a linguagem e as rebuscadas imagens shakespearianas. Apesar destes e das inevitáveis falhas, nessa nova montagem está bem vivo o fascínio imortal da história criada há mais de 400 anos. Sobre ela pairam, renovados, o gênio criador do bardo, a sofisticação de seu texto e o espetacular conhecimento dos escuros recantos onde se abriga a humana emoção. Kurzel evitou a queda espetacular. Mas Shakespeare será eternamente abismo.

Macbeth

Direção: Justin Kurzel

Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie, Todd Louiso

Música: Jed Kurzel

Elenco: Michael Fassbender (Macbeth), Marion Cotillard (Lady Macbeth), Paddy Considine (Banquo), Sean Harris (Macduff), Jack Reynor (Malcolm), Elizabeth Debicki (Lady Macduff), David Thewlis (Rei Duncan), Ross Anderson (Rosse), David Hayman (Lennox), Maurice Roëves (Menteith), Hilton McRae (Macdonwald), Seylan Baxter, Lynn Kennedy, Kayla Fallon e Amber Rissmann (AS Bruxas), Lochlann Harris (Fleance) e Barrie Martin (Thane)

Ano de produção: 2015

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