A arte provocadora de Patricia Piccinini

A arte provocadora de Patricia Piccinini

Sonia Zaghetto A exposição ComCiência, da artista australiana Patricia Piccinini, é uma instigante oportunidade de reflexão e de por à prova a máxima do filósofo David Hume sobre a beleza das coisas existir não no objeto em si, mas no espírito que as contempla. Manipulação genética, biotecnologia e evolução são apenas pontos de partida para que o público encare de frente novas possibilidades e observe a própria reação perante o que consideramos feio, chocante ou repulsivo. O Grande Esperado. Os padrões estabelecidos e aceitos para o que deve ser objeto de amor sofrem um abalo diante da ternura que une humanos e bizarras criaturas na exposição.  O sono sereno do menino que dorme abraçado a um ser com corpo de leão-marinho e rosto de mulher idosa introduz o espectador a uma cena de doce intimidade que destrói instantaneamente qualquer prevenção. Estão confortáveis, à vontade, entregues um ao outro - indiferentes aos preconceitos de quem os observa. Da mesma forma, desarma o senso comum a criança cujos olhos  brilham de alegria diante de uma criatura que se assemelha a uma feia lagosta humanoide, de longas pinças. Em pé, como se estivessem pulando sobre uma cama, os improváveis amigos estão envolvidos num terno abraço e são observados pela majestosa e fria beleza de um pavão. Numa outra cama, vestindo um pijama azul estampado de estrelas, um menino dorme de conchinha com um estranho animal, cujas costas são cobertas de escamas. Numa sala comum, com sofá, estante e exemplares da National Geographic (com reportagens sobre Darwin) em cima da mesa de centro, um aparelho de TV antigo exibe um filme perturbador sobre pequenos bichos peludos que se aproximam e cercam uma criança que dorme. Na mesma sala, a escultura "De bruços" provoca os limites ao apresentar um híbrido de criança e porquinho, de aparência algo monstruosa e simultaneamente enternecedora. Em uma parede, uma criança com o rosto e o corpo coberto de grossos pelos escuros, contempla embevecida uma criatura disforme e sem olhos. Grande Mãe A exposição é, antes de tudo, um convite ao amor, à aceitação do outro e ao questionamento das visões solidificadas e por vezes estreitas, que não permitem qualquer abertura ao novo ou ao diferente. É também reconciliação, como na escultura "Grande Mãe", na qual uma fêmea de aparência simiesca amamenta um bebê humano.  Está nua, exposta, ao lado de com uma bolsa azul semelhante às que são usadas pelas mães modernas para carregar fraldas e apetrechos de recém-nascidos. O ancestral humano - tão repudiado à época de Darwin - exibe no rosto a tristeza e o desamparo muito familiar aos que geraram um filho que, depois de adulto, os rejeita por considerá-los inferiores. O elo entre as etapas da grande trajetória humana está, ainda, no menino ruivo, com aparência de macaco, e que carrega um papagaio; e no outro garoto, de pés disformes, que faz acrobacias sobre uma cabra. Piccinini libera a imaginação para criar criaturas que fazem pontes entre reinos, em um lembrete silencioso de que estamos unidos…

As 41 peças da exposição ComCiência, da artista australiana Patricia Piccinini, são uma instigante oportunidade de reflexão e de por à prova a máxima do filósofo David Hume sobre a beleza das coisas existir não no objeto em si, mas no espírito que as contempla.

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Sonia Zaghetto

A exposição ComCiência, da artista australiana Patricia Piccinini, é uma instigante oportunidade de reflexão e de por à prova a máxima do filósofo David Hume sobre a beleza das coisas existir não no objeto em si, mas no espírito que as contempla. Manipulação genética, biotecnologia e evolução são apenas pontos de partida para que o público encare de frente novas possibilidades e observe a própria reação perante o que consideramos feio, chocante ou repulsivo.

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O Grande Esperado.

Os padrões estabelecidos e aceitos para o que deve ser objeto de amor sofrem um abalo diante da ternura que une humanos e bizarras criaturas na exposição.  O sono sereno do menino que dorme abraçado a um ser com corpo de leão-marinho e rosto de mulher idosa introduz o espectador a uma cena de doce intimidade que destrói instantaneamente qualquer prevenção. Estão confortáveis, à vontade, entregues um ao outro – indiferentes aos preconceitos de quem os observa.

Da mesma forma, desarma o senso comum a criança cujos olhos  brilham de alegria diante de uma criatura que se assemelha a uma feia lagosta humanoide, de longas pinças. Em pé, como se estivessem pulando sobre uma cama, os improváveis amigos estão envolvidos num terno abraço e são observados pela majestosa e fria beleza de um pavão. Numa outra cama, vestindo um pijama azul estampado de estrelas, um menino dorme de conchinha com um estranho animal, cujas costas são cobertas de escamas.

Numa sala comum, com sofá, estante e exemplares da National Geographic (com reportagens sobre Darwin) em cima da mesa de centro, um aparelho de TV antigo exibe um filme perturbador sobre pequenos bichos peludos que se aproximam e cercam uma criança que dorme. Na mesma sala, a escultura “De bruços” provoca os limites ao apresentar um híbrido de criança e porquinho, de aparência algo monstruosa e simultaneamente enternecedora.

Em uma parede, uma criança com o rosto e o corpo coberto de grossos pelos escuros, contempla embevecida uma criatura disforme e sem olhos.

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Grande Mãe

A exposição é, antes de tudo, um convite ao amor, à aceitação do outro e ao questionamento das visões solidificadas e por vezes estreitas, que não permitem qualquer abertura ao novo ou ao diferente. É também reconciliação, como na escultura “Grande Mãe”, na qual uma fêmea de aparência simiesca amamenta um bebê humano.  Está nua, exposta, ao lado de com uma bolsa azul semelhante às que são usadas pelas mães modernas para carregar fraldas e apetrechos de recém-nascidos. O ancestral humano – tão repudiado à época de Darwin – exibe no rosto a tristeza e o desamparo muito familiar aos que geraram um filho que, depois de adulto, os rejeita por considerá-los inferiores.

O elo entre as etapas da grande trajetória humana está, ainda, no menino ruivo, com aparência de macaco, e que carrega um papagaio; e no outro garoto, de pés disformes, que faz acrobacias sobre uma cabra.

Piccinini libera a imaginação para criar criaturas que fazem pontes entre reinos, em um lembrete silencioso de que estamos unidos na aventura terrena: máquinas antropomorfizadas (lambretas amantes, girinos metalizados), flores sexualizadas, plantas com cabelos e nádegas. Em todos eles, o paradoxo da beleza se faz presente, forçando limites consolidados, vencendo repugnâncias e encarando desafios.

Surrealismo é, sem dúvida, a grande influência de Patricia Piccinini. O hiper-realismo está ali somente para agregar valor à proposta criativa da artista. Além de esculturas hiper-realistas, feitas com silicone, plástico e cabelos humanos, há também desenhos, fotografias, filmes e um interessante conjunto de, em um total de 41 peças que constitui um belo conjunto retrospectivo da obra de Piccinini.

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Os Amantes

 

 

Exposição ComCiência, de Patricia Piccinini.

Local: Centro Cultural Banco do Brasil – Brasília – Até 4 de abril de 2016

Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro – De 26 de abril a 27 de junho de 2016.

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