Mondrian e o Movimento De Stijl

Mondrian e o Movimento De Stijl

Sonia Zaghetto
sonia@artelivre.net

Antes de entrar na exposição Mondrian e o movimento De Stijl dispa-se dos preconceitos contra a arte moderna. Você certamente associa Piet Mondrian (1872-1944) à sua obra mais conhecida, a Composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul, de 1921, que décadas depois se tornaria um ícone da moda ao ser usado pelo estilista Yves Saint-Laurent em uma de suas mais famosas coleções.

neoplastica1

Composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul.

Ao observar o quadro, alguém desavisado poderia subestimar a obra de cores básicas e linhas pretas. É um engano natural, decorrente do desconhecimento das motivações desse artista que se dedicou a investigar o próprio ofício com obsessiva tenacidade. A maior virtude da Exposição Mondrian e o movimento De Stijl é apresentar ao público não apenas as telas do artista, mas incorporar a oportunidade de conhecer Mondrian e seu processo criativo. É uma espécie de roteiro da vida do pintor, ilustrado com as obras originais.

Mondrian passou por um longo processo de reflexão sobre a arte, com absorção de influências diversas, corajosas experimentações e profundas mudanças. Movido por um agudo senso de investigação, lançou-se a desafios e descobertas estéticas. Ao final da mostra, você olhará com mais respeito e curiosidade para o quadro acima: ele é o símbolo maior de uma poderosa trajetória artística.

Assim, desfrute da oportunidade única de conhecer de perto o trabalho de um dos mais importantes pintores contemporâneos, mas também de mergulhar em suas descobertas, pensamento e motivações. As aproximadamente 100 obras da mostra – das quais 30 são de Mondrian –  incluem, ainda, um significativo grupo de peças do movimento artístico De Stijl (O Estilo), que compõem o mais completo conjunto desse período já exibido na América Latina. A maior parte do acervo pertence ao Museu Municipal de Haia (Gemeentemuseum, Den Haag), da Holanda, que reúne a maior coleção mundial de obras de Mondrian.

Para entender o processo criativo e a evolução do trabalho de Mondrian é necessário compreender a psicologia do artista e suas crenças pessoais. Adepto da Teosofia – um movimento espiritualista inspirado em diversas tradições filosófico-religiosas orientais –  o pintor aplicou os princípios de suas crenças à arte, IMG-20160422-WA0000buscando a essência das coisas e dos seres.

O artista, obviamente, aplicava os princípios de despojamento à sua própria vida. Veja, na exposição, a fotografia que mostra o hall de entrada da casa dele, no qual se identifica rapidamente a alma de esteta do maior expoente do neoplasticismo. Há, no local, um vaso com uma flor artificial, toda pintada de branco pelo próprio Mondrian e sempre mantida exatamente no mesmo lugar pelo metódico e perfeccionista artista. Era o elemento feminino, segundo o pintor. Era, também, o elemento “orgânico” em meio à aridez decorativa.

Na arte, Mondrian aos poucos foi reduzindo o excesso de informações. Ao procurar  obsessivamente a essência dos objetos retratados, eliminou o supérfluo para chegar à unidade básica do que retratava. Uma decisão perfeitamente traduzida por esta frase dele: “Se alguém amar a superfície das coisas por muito tempo, um dia vai finalmente enxergar algo mais”.

Inicialmente, uma árvore era retratada com seus galhos, folhas e todos os muitos detalhes de sua aparência, como nos acostumamos a ver.  Aos poucos, Mondrian passou a pintá-la reduzindo o número de linhas até o mínimo possível. Ainda era uma árvore, mas os olhos já podiam ver-lhe somente a essência, como no quadro abaixo.

0334317Piet MondriaanTableau no 42013

Pintura nº 4

A exposição organiza cronologicamente a trajetória artística de Mondrian, iniciada em 1892. Ao longo de quase três décadas, ele entrou em contato com outros pintores, estilos, escolas e movimentos. Cada um deles deixou marcas indeléveis em sua pintura. Da preferência pelos tons mais escuros (verdes, vermelhos e marrons especialmente), típicos da Escola de Barbizon, aos poucos permitiu-se um uso mais livre e ousado das cores, bem como mudanças na intensidade das pinceladas e renovadas formas de expressão.

Veja, logo no começo da exposição, os quadros desse período inicial, com paisagens oníricas, pintados em meados de 1895. Nessa época, o artista ainda seguia os padrões da Escola de Haia, que pintava ao ar livre e tinha como tema principal a natureza.

42

Fazenda com salgueiros ao longo do Gein

Poucos anos depois, Mondrian já pintava em um estilo mais moderno, simulando o enquadramento de uma câmera fotográfica, abrindo mão de profundidade e perspectiva, a fim de alcançar a abstração. Seu objetivo era destacar a cor, a forma e o local de cada pincelada. Observe como ele borra, propositadamente, as extremidades dos quadros, justamente porque deseja tirar o foco da perspectiva. Ao fazer isso, ele dirige o olhar do espectador para a superfície, como no quadro abaixo.

44

Celeiro

 

Ao se aproximar dos movimentos artísticos que aconteciam naquela época na Europa, aos poucos ele abandonou as paisagens sombrias que caracterizavam a pintura holandesa do século XIX.  Novas cores se impuseram em sua paleta e as composições ganharam em ousadia à medida em que ele se envolvia com o fauvismo e os pós-impressionistas.

No quadro abaixo já é possível notar que o artista, que amava pintar à noite, esmaece ainda mais as formas, aproxima as cores, permite-se pinceladas mais livres e grossas, fazendo desaparecer ainda mais a perspectiva. É uma fase em que Mondrian cada vez mais investe em uma pintura que ocorre na superfície, com a noção de profundidade sendo criada pelo olhar do espectador.

48

Noite de verão.

 

Essas mudanças surgiram a partir de 1911, quando Mondrian visitou uma exposição em  Amsterdã, Ficou encantado e decidiu partir para Paris, centro da produção artística européia e onde viviam os expoentes cubistas Pablo Picasso e Georges Braque. Ali, retirou um “a” de seu sobrenome (Mondriaan), a fim de adequá-lo aos padrões franceses. Embora não tenha abraçado o Cubismo, os quadros de Mondrian paulatinamente revelam fortes mudanças decorrentes do contato com o conjunto da vanguarda artística parisiense. A pintura de Cézanne, as cores vibrantes e pinceladas vigorosas de Van Gogh e o pontilhismo de Seurat tiveram grande impacto sobre ele e, aos poucos, expulsaram as sombras de suas telas e deram mais liberdade aos pincéis.

Observe, no quadro a seguir, as formas que invadem o espaço do real (a igreja). Na tela bidimensional há azuis que sequer fazem sentido no conjunto da composição, mas que revelam os experimentos do pintor.

0332897Piet MondriaanZeeuwsche Kerktoren

Igreja em Oostkapelle.

De 1911 a 1917, aproximou-se cada vez mais de uma arte abstrata pura, mas o fez gradativamente. É possível notar esse avanço, mas ainda com resquícios de imagem bem presentes. Observe, por exemplo, o quadro de Composição em Oval, de 1914. Nesse período, Mondrian passou a chamar diversas obras de  “Composição”. A intenção do pintor era tirar o foco do assunto, porque este é a origem e não o fim. O quadro retrata a vista da janela do estúdio do artista. Os traços são as fachadas de construções e ruas, com as linhas esmaecidas nas bordas. No canto inferior direito, quase desaparecidas entre as linhas, estão as letras UB, que representam um letreiro que Mondrian enxergava pela janela.

0334318 Piet Mondriaan Compositie in Ovaal met Kleurvlakken 2 POST 2010

Composição em Oval.

Um pouco mais à frente você encontrará outra peça, Composição com planos de cor (1917). Nesta, o artista desprendeu-se completamente da imagem e mergulhou no abstrato. Do que se percebia na Composição Oval, restaram apenas as cores utilizadas. As linhas já desapareceram e os blocos coloridos estão independentes e flutuam no espaço. Essa fase coincide com o lançamento revista De Stijl (O Estilo), que deu origem ao Movimento homônimo.

mondrian43

Composição com planos de cor.

A esta altura da trajetória, é hora de retornar aos quadros com as cores básicas e linhas pretas que acabaram por se tornar sinônimo do nome Mondrian. Observe as diversas experimentações do artista em sua fase madura, bem como os efeitos que causam os nacos de cor na tela, perfeitamente delimitados pelas grossas linhas pretas. Nada ali está colocado ao acaso. São experimentações que demoraram meses para serem produzidas, a fim de gerarem determinado efeito em quem as vê. Mondrian apostava no jogo das cores. Acreditava que havia algumas que “avançavam” e outras que se mantinham “recuadas no fundo da tela”. Ele também testava o efeito da espessura das linhas e as formas, a fim de criar uma obra com extrema força interna. O próprio Mondrian explicou seu pensamento: “As linhas verticais e horizontais são a expressão de duas forças opostas: elas existem em todos os lugares e dominam tudo; sua ação recíproca constitui ‘vida’. Reconheci que o equilíbrio de qualquer aspecto particular da natureza repousa na equivalência de seus opostos”. Por isso, em alguns quadros há mais linhas e menos cores: Mondrian está concentrado no jogo de forças.

Note, ainda, que nenhum desses quadros abstratos têm molduras (Mondrian não as queria) e as linhas terminam abruptamente antes do fim da tela. “É que ele pensava nos quadros como objetos espaciais. São quadros que tem profundidade e se expandem para os lados”, explica o curador holandês Pieter Tjabbes, acrescentando que, na concepção de Mondrian, o que vemos na tela é a cristalização de uma ideia e esta é infinita. “Então, use a sua imaginação para entender o que artista está tentando lhe transmitir”, diz Tjabbes.

O efeito disso é perceptível na exposição: há apenas um quadro por parede, mas, mesmo assim, cada um deles parece preencher todo o espaço.

Poucos anos antes de sua morte, Mondrian mudou-se para Nova York, já que Paris e Londres enfrentavam os horrores da 2ª Guerra Mundial. Ali, sob a inspiração do jazz e do boogie-woogie, mudou pela última vez o estilo, dentro do qual produziu os quadros New York Broadway Boogie-Woogie. As músicas favoritas do pintor são as que você escuta no sistema de som do CCBB enquanto aprecia as obras de sua fase final.

Mondrian experimentou até o último dia de vida. O fracionamento da linha era seu objeto de estudo em Victory Boogie Woogie, sua última obra, de 1944. Impaciente por ter de esperar a tinta secar, passou a colar sobre a tela pequenos quadrados auto-adesivos e, assim, podia admirar o efeito da nova composição.

Mondrian morreu de pneumonia, em 1944, aos 71 anos. Victory Boogie Woogie foi vendido a um colecionar particular. Mas, com o tempo, a tinta secou, os pequenos quadrados coloridos se despregaram da tela e a governanta da casa colou aleatoriamente os pedaços que encontrou no chão. Mais tarde, quando o Museu Municipal de Haia comprou o quadro, uma restauração recolocou as peças nos lugares corretos, com a ajuda de fotografias coloridas da obra feitas pouco antes da morte de Mondrian. O quadro hoje está avaliado em U$ 80 milhões.

IMG-20160422-WA0001

Victory Boogie Woogie

 O Movimento De Stijl

 

0333443, Vilmos Huszar, Compositie De Stijl

Revista De Stijl

“É de pequena importância se o De Stijl ainda existe como grupo; um novo estilo nasceu, uma nova estética foi criada; apenas isso precisa ser compreendido – e cultivado”. Piet Mondrian

 

A  segunda etapa da exposição aborda a efervescência criativa provocada pela revista holandesa De Stijl (O Estilo), da qual Mondrian participava. No período de 1917 a 1928, a revista publicada em papel barato e recheada de ideias fortes foi o meio escolhido para que um grupo de pintores, designers e arquitetos defendesse o estilo neoplástico, a “nova arte”, fortemente embasado na ideia utópica de criar uma nova sociedade, mais justa, aberta e moderna. O objetivo era evitar uma nova guerra mundial e promover a harmonia universal de todas as artes. “Pela unificação da arquitetura, da escultura e da pintura será criada uma nova realidade plástica“, explicou Mondrian em 1937.

O movimento De Stijl espraiou-se pelo mundo, influenciando pintores, designers, arquitetos, músicos, tipógrafos e alcançando a moda e a cultura pop.

“Mondrian acreditava que sua visão da arte moderna transcendia as divisões culturais e poderia se transformar numa linguagem universal, baseada na pureza das cores primárias, na superfície plana das formas e na tensão dinâmica em suas telas. E seus companheiros da De Stijl não só tinham visão semelhante, como aplicaram esses conceitos a todo tipo de arte”, explica o curador.

A peça mais importante é a Cadeira Vermelha Azul, que Gerrit Rietveld criou em 1918.  O objetivo de Rietveld era fazer uma peça de mobiliário sem qualquer massa ou volume, que não contivesse espaço, mas permitisse que o espaço circundante não fosse interrompido . “Rietveld foi o responsável por levar o De Stijl para a arquitetura, ao desenhar e construir, em 1924, a casa para Truus Schroder-Schrader em que aplicou a paleta de cores primárias, privilegiando espaços abertos, luminosidade, ventilação e funcionalidade – uma proposta que rompeu com as convenções arquitetônicas da época”, informa Pieter Tjabbes.

0810110 Rietveld stoel

Cadeira Vermelha Azul. Gerrit Rietveld

 

O movimento De Stijl promoveu um dos mais ricos encontros criativos da história da arte holandesa: Mondrian e o  o artista plástico, designer gráfico, poeta, arquiteto e futuro editor da revista De Stijl, Theo van Deosburg. Obcecado pelo abstracionismo, van Deosburg era incansável na busca por novas formas capazes de “remover o véu que oculta minha existência espiritual e exibir para o mundo o que está escondido em mim”. O encontro entre as duas potências criadoras  foi explosiva, tanto no aspecto artístico como no pessoal, Os fortes temperamentos colidiram e, alguns anos depois, os dois romperam relações.

0214924 Theo van Doesburg Maison particulière

Theo van Doesburg e Cornelis van Eesteren. Maquete de casa.

 

Os doze anos riquíssimos da revista estão representados, na parte final da exposição, por maquetes, mobiliários, louças, fotografias, cartazes, documentários, fac-símiles e publicações de época.

A mais bela das revoluções de 1917 – a artística – continua a impactar positivamente o mundo, mesmo passados quase cem anos. Prova disso é o quarto abaixo, também inspirado na tela famosa de Vincent van Gogh, Quarto em Arles. O trabalho de Vilmos Huszár e Piet Klaarhamer é um dos conjuntos mais emocionantes da mostra, ao reunir em harmonia a arte de dois dos mais brilhantes artistas holandeses.

 

quarto

Vilmos Huszár e Piet Klaarhamer. Quarto de meninos

 

Links sugeridos:

Entrevista com o curador Pieter Tjabbes 

Ouça o Boogie-Woogie

Leia o texto “O equilíbrio de cores e formas de Mondrian

SERVIÇO

 

CCBB BRASÍLIA

De 21.04.2016 até 04.07.2016

Setor de Clubes Sul, Trecho 2 (próximo à ponte JK)

Edifício Tancredo Neves – (61) 3108-7600

Horário: quarta a segunda, das 9h às 21 horas

 

CCBB BELO HORIZONTE

Abertura ao público: 20.07.2016 até 26.09.2016

Praça da Liberdade, 450 – Funcionários – (31) 3431-9400

Horário: quarta a segunda, das 9h às 21 horas

 

CCBB RIO DE JANEIRO

Abertura ao público: 12.10.2016 até 09.01.2017

Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – (21) 3808-2020

Horário: quarta a segunda, das 9h às 21 horas

 

 

 

Share this:

Leave a Reply