A obra-prima que matou George Orwell

A obra-prima que matou George Orwell

Em 1946, o editor do The Observer, David Astor, emprestou a George Orwell uma remota casa de fazenda escocesa para que ele escrevesse seu novo livro, 1984. Este tornou-se um dos mais significantes romances do século 20.  Robert McCrum (também do The Observer), contou, em 2010, a história da torturante estada de Orwell na ilha onde o autor, próximo à morte e atormentado por demônios criativos, envolveu-se numa corrida febril para terminar o livro. O texto original de Robert McCrum você lê aqui: The masterpiece that killed George Orwell Robert McCrum/ The Observer Tradução de Sonia Zaghetto “Era um dia claro e frio de abril, e os relógios marcavam treze horas”. Sessenta e um anos após a publicação da obra-prima de Orwell, 1984, essa cristalina primeira frase soa mais natural e atraente que nunca.  Mas quando você vê o manuscrito original, encontra algo mais: não tanto a vibrante clareza, mas a reescrita obsessiva, em diferentes borrões, que trai o extraordinário tumulto por trás da composição. Provavelmente o romance definitivo do século 20, uma história que permanece eternamente nova e contemporânea e cujos termos como “Big Brother”, “duplipensar” e “novilíngua” tornaram-se parte do cotidiano, 1984 foi traduzido para mais de 65 línguas e vendeu milhões de cópias no mundo, dando a George Orwell um lugar único na literatura mundial. “Orweliano” é agora uma abreviatura universal para qualquer coisa repressiva ou totalitária, e a história de Winston Smith, um homem comum para sua época, continua a ecoar nos leitores cujos medos do futuro são bem diferentes dos de um escritor inglês de meados dos anos 1940. As circunstâncias que cercam a elaboração de 1984 constituem um narrativa angustiada que ajuda a explicar a desolação da distopia de Orwell. Ali estava um escritor inglês, desesperadamente doente, lutando sozinho contra os demônios de sua imaginação em uma erma casa de fazenda escocesa em meio às desoladoras consequências da Segunda Guerra Mundial.   A ideia de 1984 - cujo título alternativo era “O Último Homem na Europa” - estava incubada na mente de Orwell desde a guerra civil espanhola. O romance dele, que deve algo à ficção diatópica We (Nós), de Yevgeny Zamyatin, provavelmente começou a adquirir sua forma definitiva entre 1943 e 1944, período em que Orwell e sua esposa Eileen adotaram seu único filho, Richard. O próprio Orwell afirmou ter sido inspirado em parte pela reunião dos líderes Aliados na Conferência de Teerã em 1944. Isaac Deutscher, um colega do The Observer, narrou que Orwell estava “convencido de que Stalin, Churchill e Roosevelt conscientemente conspiraram para dividir o mundo” em Teerã. Orwell trabalhou para o The Observer de David Astor desde 1942, primeiro como revisor de livros e depois como correspondente. O editor declarou ter grande admiração pela “absoluta franqueza, honestidade e decência” de Orwell e foi seu patrono ao longo da década de 1940. Essa estreita amizade é crucial para a história de 1984.   A vida criativa de Orwell já havia se beneficiado da associação dele com o The Observer quando escreveu Animal Farm (“A Revolução Dos Bichos”). Com a guerra se aproximando,…

Em 1946, o editor do The Observer, David Astor, emprestou a George Orwell uma remota casa de fazenda escocesa para que ele escrevesse seu novo livro, 1984. Este tornou-se um dos mais significantes romances do século 20. Robert McCrum contou, em 2010, a história da torturante estada de Orwell na ilha onde o autor, próximo à morte e atormentado por demônios criativos, envolveu-se numa corrida febril para terminar o livro.

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Em 1946, o editor do The Observer, David Astor, emprestou a George Orwell uma remota casa de fazenda escocesa para que ele escrevesse seu novo livro, 1984. Este tornou-se um dos mais significantes romances do século 20. 
Robert McCrum (também do The Observer), contou, em 2010, a história da torturante estada de Orwell na ilha onde o autor, próximo à morte e atormentado por demônios criativos, envolveu-se numa corrida febril para terminar o livro.
Robert McCrum/ The Observer
Tradução de Sonia Zaghetto

“Era um dia claro e frio de abril, e os relógios marcavam treze horas”.

escritoSessenta e um anos após a publicação da obra-prima de Orwell, 1984, essa cristalina primeira frase soa mais natural e atraente que nunca.

 Mas quando você vê o manuscrito original, encontra algo mais: não tanto a vibrante clareza, mas a reescrita obsessiva, em diferentes borrões, que trai o extraordinário tumulto por trás da composição.
Provavelmente o romance definitivo do século 20, uma história que permanece eternamente nova e contemporânea e cujos termos como “Big Brother”, “duplipensar” e “novilíngua” tornaram-se parte do cotidiano, 1984 foi traduzido para mais de 65 línguas e vendeu milhões de cópias no mundo, dando a George Orwell um lugar único na literatura mundial.
“Orweliano” é agora uma abreviatura universal para qualquer coisa repressiva ou totalitária, e a história de Winston Smith, um homem comum para sua época, continua a ecoar nos leitores cujos medos do futuro são bem diferentes dos de um escritor inglês de meados dos anos 1940.
As circunstâncias que cercam a elaboração de 1984 constituem um narrativa angustiada que ajuda a explicar a desolação da distopia de Orwell. Ali estava um escritor inglês, desesperadamente doente, lutando sozinho contra os demônios de sua imaginação em uma erma casa de fazenda escocesa em meio às desoladoras consequências da Segunda Guerra Mundial.
 
orwellpramA ideia de 1984 - cujo título alternativo era “O Último Homem na Europa” – estava incubada na mente de Orwell desde a guerra civil espanhola. O romance dele, que deve algo à ficção diatópica We (Nós), de Yevgeny Zamyatin, provavelmente começou a adquirir sua forma definitiva entre 1943 e 1944, período em que Orwell e sua esposa Eileen adotaram seu único filho, Richard. O próprio Orwell afirmou ter sido inspirado em parte pela reunião dos líderes Aliados na Conferência de Teerã em 1944. Isaac Deutscher, um colega do The Observer, narrou que Orwell estava “convencido de que Stalin, Churchill e Roosevelt conscientemente conspiraram para dividir o mundo” em Teerã.
Orwell trabalhou para o The Observer de David Astor desde 1942, primeiro como revisor de livros e depois como correspondente. O editor declarou ter grande admiração pela “absoluta franqueza, honestidade e decência” de Orwell e foi seu patrono ao longo da década de 1940. Essa estreita amizade é crucial para a história de 1984.
 
A vida criativa de Orwell já havia se beneficiado da associação dele com o The Observer quando escreveu Animal Farm (“A Revolução Dos Bichos”). Com a guerra se aproximando, a interação frutífera de ficção e jornalismo de domingo viria a contribuir para o romance mais sombrio e complexo que ele tinha em mente, após a celebrada “fábula” (A Revolução dos Bichos). Está claro nas críticas literárias que Orwell fazia no The Observer, por exemplo, que ele era fascinado pela relação entre moralidade e linguagem.
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Eileen Blair

Houve outras influências no trabalho. Logo depois que Richard foi adotado, o apartamento de Orwell foi destruído em um bombardeio (de um doodlebug). A atmosfera de eventual terror na vida diária da Londres dos tempos de guerra tornou-se permanente com o espírito do romance em elaboração. O pior estava por vir. Em março de 1945, enquanto estava fazendo um trabalho para o Observer na Europa, Orwell recebeu a notícia de que sua esposa, Eileen, havia morrido sob anestesia em uma cirurgia corriqueira.

 
Repentinamente ele se tornara viúvo e pai solteiro, ganhando a vida arduamente em seu alojamento de Islington e trabalhando incessantemente para impedir o dilúvio de remorso e dor decorrentes da morte prematura de sua mulher. Em 1945, por exemplo, ele escreveu quase 110 mil palavras para várias publicações, incluindo 15 críticas literárias para o Observer.
A essa altura Astor interferiu. Sua família possuía uma propriedade na remota ilha escocesa de Jura, perto de Islay. Havia uma casa, Barnhill, a sete milhas de Ardlussa na remota ponta norte, rochosa e cheia de urzes, de Inner Hebrides (arquipélago na costa oeste escocesa). Inicialmente, Astor ofereceu a casa a Orwell por um feriado. Em entrevista ao The Observer, Richard Blair disse acreditar numa lenda familiar que diz que Astor foi pego de surpresa pelo entusiasmo da resposta de Orwell.
 
Em maio de 1946, Orwell, ainda juntando os pedaços de sua vida, pegou o trem para a longa e árdua viagem para Jura. Ele disse a seu amigo Arthur Koestler que isso era “quase como pegar um navio lotado para o Ártico”.
 
orwelljornalistaEra um movimento arriscado: Orwell não estava bem de saúde. O inverno de 1946-47 foi um dos mais frios do século. O pós-guerra britânico estava pior até que no tempo da guerra, e ele sempre sofreu de problemas pulmonares. Pelo menos, afastado das irritações da Londres literária, ele estava livre para se dedicar ao novo romance sem quaisquer embaraços. “Sufocado pelo jornalismo”, como ele disse a um amigo, “eu me tornava mais e mais como uma laranja chupada”.
Ironicamente, parte das dificuldades de Orwell decorriam do sucesso de A Revolução dos Bichos. Após anos de negligência e indiferença, o mundo estava despertando para o gênio dele. “Todos ficam vindo até mim”, ele reclamava para Koestler, “querendo que eu faça palestras, escreva folhetos comissionados, adira a isso e aquilo, etc — você não sabe como anseio por me livrar disso tudo e ter tempo para pensar novamente”.
Em Jura ele estaria livre dessas distrações, mas a promessa de liberdade criativa numa ilha em Hebrides veio com seu preço. Anos antes, no artigo Por que Escrevo, ele descreveu o esforço para completar um livro: “Escrever um livro é uma horrível e exaustiva luta, como o longo surto de alguma doença dolorosa. Alguém jamais se sujeitaria a tal coisa se não fosse dirigido por algum demônio, ao qual não se pode resistir ou (sic) compreender. Pelo que se sabe, esse demônio é o mesmo instinto que faz um bebê espernear por atenção. E, no entanto, também é verdade que ninguém pode escrever algo legível a menos que se esforce constantemente para apagar a própria personalidade”. Então , a famosa conclusão orwelliana: “Boa prosa é como um vidro de janela.”.
 
Desde a primavera de 1947 até sua morte em 1950, Orwell reencenou cada aspecto de sua luta da mais dolorosa forma que se pode imaginar. Em particular, talvez, ele tenha saboreado a sobreposição entre teoria e prática – afinal, ele sempre prosperou na adversidade autoinfligida.
No começo, após um “inverno quase intolerável”, ele se deleitou no isolamento e na selvagem beleza de Jura. “Estou lutando com esse livro”, escreveu a seu agente, “que eu devo terminar no final do ano — de qualquer forma eu terei terminado a parte mais difícil, contanto que possa me manter bem e à distância do trabalho jornalístico até o outono”.
 
Barnhill, com vista para o mar no topo de uma trilha esburacada, não era grande, com quatro quartos pequenos sobre uma espaçosa cozinha. A vida era simples, até mesmo primitiva. Não havia eletricidade. Orwell usava botijões de gás para cozinhar e aquecer água. Os lampiões queimavam parafina. À tarde ele também queimava turfa. Ele ainda fumava continuamente tabaco (shag) preto, enrolado em cigarros: a fumaça na casa era aconchegante, mas nem um pouco saudável. Um rádio a bateria era a única conexão com o mundo externo.
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Casa onde Orwell escreveu 1984

Orwell, um homem gentil e desapegado, chegou apenas com uma cama de campanha, uma mesa, um par de cadeiras e poucas panelas e caçarolas. Era uma existência espartana, mas supria todas as condições sob as quais ele gostava de trabalhar. Ele é lembrado na ilha como um espectro no nevoeiro, como uma figura esquelética em uma capa à prova d’água.

 
Os nativos o conheciam por seu nome verdadeiro, Eric Blair, um homem alto, cadavérico, de expressão triste e que se preocupava em como lidar sozinho com as dificuldades. A solução, quando se juntaram a ele o bebê Richard e sua babá, foi recrutar sua altamente competente irmã, Avril. Richard Blair lembra que seu pai “não poderia ter feito isso sem Avril. Ela era uma excelente cozinheira e muito prática. Nenhuma das narrativas do tempo que meu pai passou em Jura reconhece quão essencial ela foi”.
 
Assim que estabeleceu sua nova rotina, Orwell pôde finalmente começar o livro. No final de maio de 1947 ele disse ao seu editor, Fred Warburg: “Acho que devo ter escrito um terço do esboço. Não fiz tanto quanto eu esperava fazer neste tempo porque realmente tenho estado no mais miserável estado de saúde este ano, desde meados de janeiro (meu peito, como sempre) e não consigo me livrar disso”.
 
Ciente  da impaciência de seu editor com o romance, Orwell acrescentou: “É claro que o esboço é sempre uma bagunça medonha que tem pouca ligação com o resultado final, mas, ao mesmo tempo, é a parte principal de todo o trabalho”. Ainda assim, ele progrediu, e no final de julho estava prevendo um  completo “rascunho” até outubro. Depois disso, ele disse, precisaria de mais seis meses para polir o texto para publicação. Mas então, um desastre ocorreu.

Parte do prazer de viver em Jura era que ele e seu jovem filho podiam aproveitar a vida ao ar livre juntos, pescando, explorando a ilha e passeando de barco. Em agosto, sob o encanto de um adorável verão, Orwell, Avril, Richard e alguns amigos, retornando de um passeio pela costa em um pequeno barco a motor, quase se afogaram no famoso redemoinho de Corryvreckan.
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Com o filho, Richard

Richard Blair lembra que ficou com muito frio nas águas geladas, e Orwell, cuja constante tosse preocupava os amigos, desfavoreceu seus pulmões. Dentro de dois meses ele cairia seriamente doente. Tipicamente, seu relato a David Astor sobre essa escapada por um triz foi breve, e até mesmo indiferente.

 
A longa luta com “O Último Homem na Europa” continuou. No final de outubro de 1947, oprimido pela “saúde miserável”, Orwell admitiu que seu romance ainda era “a mais terrível bagunça, e quase dois terços dele teriam que ser completamente redatilografados“.
Ele trabalhava em ritmo febril. Os visitantes de Barnhill se lembram do som de sua máquina de datilografar martelando no quarto dele, no andar de cima da casa. Então, em novembro, cuidado pela leal Avril, ele sucumbiu a uma “inflamação nos pulmões” e disse a Koestler que estava “muito doente, de cama”. Pouco antes do Natal, em uma carta a um colega do The Observer, ele deu a notícia que sempre temera. Afinal havia sido diagnosticado com tuberculose.
 
Alguns dias depois, escrevendo para Astor do hospital Hairmyres (em East Kilbride, Lanarkshire), ele admitiu: “Eu ainda me sinto muito doente”, e reconheceu que, quando a doença o apanhou após o incidente do redemoinho de Corryvreckan, “como um tolo, eu decidi não ir ao médico — eu queria terminar o livro que estava escrevendo”. Em 1947 não havia cura para a tuberculose — os médicos prescreviam ar puro e uma dieta regular — mas havia uma nova droga experimental no mercado, a estreptomicina. Astor pediu uma remessa para Hairmyres, vinda dos EUA.
Richard Blair acredita que seu pai recebeu doses excessivas do novo remédio prodigioso. Os efeitos colaterais foram horríveis (úlcera na garganta, bolhas na boca, perda de cabelo, descascamento da pele e desintegração das unhas), mas em março de 1948, depois de três meses, os sintomas da tuberculose desapareceram. “Está terminado agora, e evidentemente a droga funcionou”, Orwell disse a seu editor. “É como afundar o barco para se livrar dos ratos, mas vale a pena se funcionar”.
Enquanto se preparava para deixar o hospital, Orwell recebeu uma carta de seu editor que, vista em retrospectiva, seria outro prego em seu caixão. “É extremamente importante”, escreveu Warburg para seu autor-estrela, “do ponto de vista de sua carreira literária, terminar isso (o novo romance) até o final do ano e, na verdade, o mais breve possível”.
Justamente quando deveria estar em repouso, Orwell voltou a Barnhill, absorto na revisão de seu manuscrito, prometendo a Warburg entregá-lo no “começo de dezembro”, lidando com o “tempo horrível” do outono em Jura. No começo de outubro ele confidenciou a Astor: “Eu me acostumei tanto a escrever na cama que acho que prefiro isso, embora, é claro, seja estranho datilografar aqui. Estou lutando com os últimos estágios desse maldito livro [que é] sobre o possível estado de coisas se a guerra atômica não for o fim”.
Esta foi uma das extremamente raras referências de Orwell sobre o tema de seu livro. Ele acreditava, como muitos escritores, que dava má sorte discutir um trabalho em andamento. Mais tarde, para Anthony Powell, ele o descreveu-a como “uma utopia escrita sob a forma de um romance“.
A datilografia do original de “O Último Homem da Europa” tornou-se outro aspecto da batalha de Orwell com seu livro. Quando mais ele revisava seu “inacreditavelmente ruim” manuscrito, mais se tornava um documento que apenas ele podia ler e interpretar. Era, ele disse a seu agente, “extremamente longo, com mais de 125.000 palavras”. Com a característica franqueza, ele declarou: “Não estou feliz com o livro, mas não estou absolutamente insatisfeito… Acho que ele é uma boa ideia, mas a execução seria melhor se eu não o tivesse escrito sob a influência da tuberculose”.
E ele ainda estava indeciso sobre o título: “Estou inclinado a chamar o livro de ‘1984’ ou ‘O Último Homem da Europa’,” ele escreveu, “mas provavelmente posso pensar em outra coisa em uma ou duas semanas”. No final de outubro, Orwell acreditava que tivesse acabado. Agora ele precisava apenas de um estenógrafo para ajudar a por ordem em tudo.
 
Era uma corrida desesperada contra o tempo. A saúde de Orwell estava se deteriorando, o “inacreditavelmente ruim” manuscrito precisava ser redatilografado e o prazo final de dezembro já se aproximava. Warburg prometeu ajudar, assim como o agente de Orwell. Discordando sobre os possíveis datilógrafos, eles contribuíram para tornar infinitamente pior uma situação ruim. Orwell, sentindo-se além de qualquer ajuda, seguiu seus instintos de ex-garoto-de-escola-pública: faria isso sozinho.
No meio de novembro, fraco demais para andar, ele se retirou para a cama para encarar a “terrível tarefa” de digitar o livro em sua “decrépita máquina de datilografia”, sozinho. Sustentado por infinitos cigarros, xícaras de café, chá forte e pelo calor de seu aquecedor de parafina, com a ventania esbofeteando Barnhill, noite e dia, ele prosseguiu. Em 30 de novembro de 1948, o livro estava virtualmente pronto.
Agora Orwell, o velho veterano, protestava ao seu agente que “ele (o livro) realmente não valia a pena toda essa preocupação. É que, como me fatiga sentar na posição vertical por qualquer período de tempo, eu não posso datilografar muito bem e não posso fazer muitas páginas por dia “. Além disso, acrescentou, foi “maravilhoso”, pois havia erros que um datilógrafo profissional poderia cometer, e “neste livro, há a dificuldade que ele contém uma grande quantidade de neologismos“.
As páginas datilografadas do último romance de George Orwell chegaram a Londres no meio de dezembro, como prometido. Warburg reconheceu suas qualidades imediatamente (“entre os mais aterrorizantes livros que já li”) e assim fizeram também muitos de seus colegas. Um memorando interno observava que “se não conseguirmos vender de 15 a 20 mil cópias, temos que levar um tiro!
 
Orwell deixou Jura e deu entrada em um hospital especializado em tuberculose, em Cotswolds. “Eu deveria ter feito isso há dois meses,” disse a Astor, “mas eu queria terminar aquele maldito livro”. Mais uma vez, Astor entrou em cena para monitorar o tratamento de seu amigo, mas o especialista responsável por Orwell estava secretamente pessimista.
 
Tão logo os comentários sobre 1984 começaram a circular, os instintos jornalísticos de Astor  se manifestaram e ele começou a planejar um perfil do The Observer, uma honra significativa, mas a ideia foi recebida por Orwell com um “certo alarme”. Assim que a primavera chegou, ele estava tendo hemoptises (cuspindo sangue), e se sentia “péssimo na maior parte do tempo”, mas ainda era capaz de se envolver nos rituais de pré-publicação do romance, registrando as “muito boas notícias” com satisfação. Ele brincava com Astor que não se surpreenderia se o amigo “tivesse que trocar aquele perfil por um obituário”.  
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Sonia Orwell

1984  foi publicado em 8 de junho de 1949 (cinco dias depois nos EUA) e foi quase que universalmente reconhecido como uma obra-prima, até mesmo por Winston Churchill, que disse a seu médico tê-lo lido duas vezes. A saúde de Orwell continuava a declinar. Em outubro de 1949, em seu quarto no hospital University College, casou-se com Sonia Brownell, tendo David Astor como padrinho. Foi um momento fugaz de felicidade; ele sobreviveu para o ano novo de 1950. Nas primeiras horas de 21 de janeiro sofreu uma hemorragia massiva no hospital e morreu sozinho.

A notícia foi transmitida ao mundo pela BBC, na manhã seguinte. Avril Blair e seu sobrinho, ainda em Jura, ouviram a reportagem no pequeno rádio a bateria em Barnhill. Richard Blair não se lembra se o dia estava claro ou frio, mas lembra do choque da notícia: seu pai estava morto, aos 46 anos.
 
David Astor arranjou tudo para o funeral de Orwell no All Saints’ Churchyard, em Sutton Courtenay, Oxfordshire. Ele jaz lá agora, como Eric Blair, entre HH Asquith e uma família local de ciganos.  
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