A arte de Bks Varma

A arte de Bks Varma

Sonia Zaghetto sonia@artelivre.net A Índia sempre foi pródiga em artistas que mergulharam na fonte da onipresente espiritualidade do país para criar uma arte inspiradora e comovente. É o caso de poetas como Vyasa, a quem é atribuída a autoria do Mahabharata; Valmiki, autor do Ramayana; e Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura de 1913; de músicos como o citarista Ravi Shankar e de pintores como Amrita Sher-Gil, Jamini Roy e o incomparável Anbanindranath Tagore. Dentre os modernos expoentes da pintura indiana, Dr. Bks Varma se destaca não apenas pelo talento, mas igualmente pela inventividade e pesquisa de novos materiais. Nascido em 1949, uma família de artistas da aldeia de Karnur, em Bangalore, Varma superou as dificuldades econômicas criando novas formas de fazer arte. Começou a desenhar quando tinha seis anos, inspirado nos trabalhos de sua mãe, a pintora Smt. Jayalakshmi. Sem recursos para comprar tintas e pinceis, fazia os desenhos utilizando materiais e técnicas inéditos, como a ponta da unha para criar relevos no papel ou um pequeno pedaço de corda no lugar de pincéis. Hoje, aos 67 anos, premiado e reconhecido internacionalmente, além das telas tradicionais em que usa tinta e pincéis tradicionais, continua a utilizar as técnicas que sua mente de artista adolescente criou e que você vê nos vídeos ao fim do texto. Também é especialista em pintar quadros diante de grandes plateias e em um curto espaço de tempo. Seus temas principais são as questões ambientais e sociais apresentadas com toques surreais. Em suas obras, as divindades indianas e a natureza tomaram novos contornos, plenos de pura poesia. Nesta entrevista exclusiva, ele fala a Artelivre sobre seu processo criativo e o que o inspira. Para Varma, a arte é para lançar luz sobre a sociedade e afastar a escuridão, cumprindo o que diz um dos mais belos versos sânscritos,   do Bṛhadāraṇyaka Upaniṣhad: "Do irreal conduz-me ao real; da escuridão, leva-me para a luz; da morte conduz-me à imortalidade". Entrevista Bks Varma: um artista fiel a si mesmo   Eu acredito que tenho vivido de acordo com minhas palavras e minha moral na vida. Gostaria que o futuro lembrasse de mim como um artista que viveu e foi leal a seu código de ética. Dr. Bks Varma   Quando o senhor sentiu pela primeira vez o "chamado" de arte? Quando eu tinha 6 anos, vi minha mãe pintando e isso me interessou. Sem que ela soubesse, eu costumava pintar nas paredes usando carvão vegetal. Quando comecei a ir para a escola, rabiscava nos uniformes dos amigos e, quando meus professores me expulsavam da sala de aula por causa disso, eu realmente achava ótimo, pois podia perambular pela aldeia, desenhando nas paredes. Então foi assim que tudo começou. Conte-nos sobre seus estudos artísticos. Quem foram seus professores e o que o senhor aprendeu com eles? Minha mãe foi meu mestre mais constante, além de seu meu tio A. C. H Acharya (um escultor bem conhecido e um premiado artista indiano), que me ensinou a arte da escultura. Mais tarde, sob a tutela do artista A. N. Subbarao, Kalamandir School of Arts, em Bangalore, aprendi as bases de técnicas de pintura, composição, equilíbrio de cores e muitas…

Dentre os modernos expoentes da pintura indiana, Dr. Bks Varma se destaca não apenas pelo talento, mas igualmente pela inventividade e pesquisa de novos materiais.

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Sonia Zaghetto
sonia@artelivre.net
A Índia sempre foi pródiga em artistas que mergulharam na fonte da onipresente espiritualidade do país para criar uma arte inspiradora e comovente. É o caso de poetas como Vyasaa quem é atribuída a autoria do Mahabharata; Valmiki, autor do Ramayana; e Rabindranath Tagore, prêmio Nobel de Literatura de 1913; de músicos como o citarista Ravi Shankar e de pintores como Amrita Sher-Gil, Jamini Roy e o incomparável Anbanindranath Tagore. Dentre os modernos expoentes da pintura indiana, Dr. Bks Varma se destaca não apenas pelo talento, mas igualmente pela inventividade e pesquisa de novos materiais.
Nascido em 1949, uma família de artistas da aldeia de Karnur, em Bangalore, Varma superou as india13dificuldades econômicas criando novas formas de fazer arte. Começou a desenhar quando tinha seis anos, inspirado nos trabalhos de sua mãe, a pintora Smt. Jayalakshmi. Sem recursos para comprar tintas e pinceis, fazia os desenhos utilizando materiais e técnicas inéditos, como a ponta da unha para criar relevos no papel ou um pequeno pedaço de corda no lugar de pincéis. Hoje, aos 67 anos, premiado e reconhecido internacionalmente, além das telas tradicionais em que usa tinta e pincéis tradicionais, continua a utilizar as técnicas que sua mente de artista adolescente criou e que você vê nos vídeos ao fim do texto. Também é especialista em pintar quadros diante de grandes plateias e em um curto espaço de tempo.
Seus temas principais são as questões ambientais e sociais apresentadas com toques surreais. Em suas obras, as divindades indianas e a natureza tomaram novos contornos, plenos de pura poesia. Nesta entrevista exclusiva, ele fala a Artelivre sobre seu processo criativo e o que o inspira. Para Varma, a arte é para lançar luz sobre a sociedade e afastar a escuridão, cumprindo o que diz um dos mais belos versos sânscritos,   do Bṛhadāraṇyaka Upaniṣhad: “Do irreal conduz-me ao real; da escuridão, leva-me para a luz; da morte conduz-me à imortalidade“.
Entrevista

Bks Varma: um artista fiel a si mesmo

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Eu acredito que tenho vivido de acordo com minhas palavras e minha moral na vida. Gostaria que o futuro lembrasse de mim como um artista que viveu e foi leal a seu código de ética. Dr. Bks Varma

 

Quando o senhor sentiu pela primeira vez o “chamado” de arte?

Quando eu tinha 6 anos, vi minha mãe pintando e isso me interessou. Sem que ela soubesse, eu costumava pintar nas paredes usando carvão vegetal. Quando comecei a ir para a escola, rabiscava nos uniformes dos amigos e, quando meus professores me expulsavam da sala de aula por causa disso, eu realmente achava ótimo, pois podia perambular pela aldeia, desenhando nas paredes. Então foi assim que tudo começou.

Conte-nos sobre seus estudos artísticos. Quem foram seus professores e o que o senhor aprendeu com eles?

india17Minha mãe foi meu mestre mais constante, além de seu meu tio A. C. H Acharya (um escultor bem conhecido e um premiado artista indiano), que me ensinou a arte da escultura. Mais tarde, sob a tutela do artista A. N. Subbarao, Kalamandir School of Arts, em Bangalore, aprendi as bases de técnicas de pintura, composição, equilíbrio de cores e muitas outras técnicas.

O senhor é um artista que combina música, poesia e pintura – um artista completo. Conte-me sobre o papel da arte em sua vida.

A arte é algo que eu respiro … é algo que me estimula a continuar. A arte me traz felicidade e esse conjunto me leva a um novo mundo de criatividade. Tudo o que experimentei neste belo mundo da arte é posto em minhas telas quando eu pinto.

Por vezes o senhor usa um pequeno pedaço de corda como um pincel ou um prego para gravar em relevo no papel. Estas técnicas originais são suas ou o senhor as aprendeu com outros artistas?

india4O mundo em torno de mim era economicamente carente. Era difícil eu ter dinheiro para comprar pincéis a fim de pintar, mas isso não me impedia de criar. Assim como a natureza, a mente humana fica muito aguçada sob extrema pressão. As técnicas que uso, tais como gravar em relevo usando as unhas e a pintura com um fio, são o resultado disso. Eu descobri estas técnicas no ano de 1960, quando tinha 12 anos de idade.

Vi que o senhor fez belas pinturas de Siddhartha Gautama, de Krishna e de Ganesha. A religião tem um papel importante na sua arte?

Arte não tem religião. Minhas pinturas são meras expressões do que eu experimentei e senti. Eu acredito fortemente que a natureza é um criador e que todos nós precisamos olhar atenciosamente para ela.

O que você sente quando você está pintando? O que lhe inspira?

O assunto que eu preciso para pintar está no próprio processo de reflexão enquanto trabalho. Ele é constantemente construído e destruído em minha mente e em minhas obras. Acredito fortemente que o homem é como um rádio e os pensamentos fluem a partir do espaço: nossas bocas são alto-falantes, nossos olhos sintonizam o que vemos; as orelhas são o botão de ligar/desligar; o cabelo é a antena; e os nervos são os fios. Assim, tudo o que nós pensamos flui do espaço. As experiências formam uma parte importante na minha inspiração para pintar. A natureza é o fundamento de toda a inspiração; a natureza sintoniza nossa mente e nos guia para fazer o que nós queremos, como se fôssemos apenas meras máquinas.

O senhor prefere pintar em público ou sozinho? Por quê?

india8Eu pinto tanto diante de grandes plateias como sozinho. Quando faço performances, tenho uma enorme multidão que olha enquanto eu pinto. A felicidade deles me dá força e energia para executar a pintura. No entanto, também pinto sozinho e, quando isso ocorre, é apenas o meu trabalho e o meu eu que se comunicam – é um processo meditativo que exige solidão.

A geração atual na Índia é sensível à arte e aos valores tradicionais? Eles ainda amam poetas como Tagore ou Vyasa, por exemplo? Na sua opinião, jovens indianos estão esquecendo a sua herança cultural?

Sem raízes não há árvores nem folhas frescas. As raízes formam a árvore e dão toda a nutrição necessária. As velhas raízes formam folhas novas. Da mesma forma, a tradição e o patrimônio cultural da Índia formam uma parte importante na formação dos jovens indianos. Uma pessoa não pode ser separada de suas raízes, pois é parte dela. Isto é algo que eles precisam retomar e buscar. Assim, eu sinto que embora o panorama aponte que a geração mais jovem está afastada, eles precisam retroceder às raízes para buscar sua própria identidade. Um dia isso vai acontecer. É apenas uma fase passageira. RAÍZES sempre permanecem fortes.

Que lições o senhor aprendeu com a vida e a arte?

india18Minha vida e minha arte constituem uma unidade que não pode ser separada. Dediquei minha vida e minha alma a isso. O propósito de um artista é formar um verniz cultural em tudo o que faz, para trazer a sociedade da escuridão para a luz (Tamaso Ma Jyotir Gamaya). Portanto, a arte é uma relação que precisa ser desenvolvida como intermediária para a humanidade . Acredito na filosofia de “Arte para Corações” e não “arte pela arte”. Em todos estes anos de experiência eu aprendi que, se uma forma de arte não toca a humanidade da maneira que deveria, então não há um propósito para sua existência.

Que trabalho o senhor considera como sua obra-prima?

Eu não julgo isso. Os espectadores e os que apreciam meu trabalho decidirão. Todo o meu objetivo é contribuir com obras plenas de significado que alcancem todas as pessoas do mundo.

Como o senhor gostaria de ser lembrado no futuro?
Eu acredito que tenho vivido de acordo com minhas palavras e minha moral na vida. Gostaria que o futuro lembrasse de mim como um artista que viveu leal a seu código de ética.

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Veja a técnica de pintar usando pedaços de corda:

https://www.facebook.com/bks.varma/videos

 

 

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