Rodin – o despertar modernista

Rodin – o despertar modernista

Brasília recebe, esta semana,  a exposição Rodin – o despertar modernista, que reúne esculturas e fotografias de Auguste Rodin. É uma excelente oportunidade para conhecer o trabalho de um dos mais importantes e originais escultores da era moderna, autor de obras-primas como O Beijo e O Pensador.

Sob curadoria de Marcus de Lontra Costa, a mostra é dividida em dois segmentos. O primeiro é composto por um conjunto de 14 esculturas, pertencentes aos acervos da empresa mineira Vallourec (dez cópias em resina autorizadas pelo Museu Rodin, de Paris) e da Pinacoteca do Estado de São Paulo (quatro obras originais).

No segundo segmento há fotografias vindas especialmente do Museu Rodin, na França, e outras que integram o acervo da Pinacoteca de SP, num total de 36 imagens, selecionadas para informar o espectador sobre a vida e a obra do grande mestre. As imagens oferecem informações sobre o método de trabalho de Rodin e sua rotina em seu ateliê, onde desenhava as peças, esculpia em formato menor, fazia os moldes em gesso e depois seus assistentes se incumbiam de ampliá-las, transpondo-as para outros materiais.

A exposição na Galeria Marcantonio Vilaça, do TCU – Tribunal de Contas da União. A partir do próximo dia 17 de agosto será possível visitar

SERVIÇO
Local: 
Tribunal de Contas da União – Espaço Cultural Marcantonio Vilaça

Visitação: de 17 de agosto a 05 de novembro de 2016

Abertura: 16 de agosto de 2016, às 19h

Endereço: Edifício-Sede do Tribunal de Contas da União (SAFS, Quadra 4, Lote 01 – Brasília/DF)

Visitação: de terça-feira a sábado, das 9h às 19h

ENTRADA FRANCA

Classificação indicativa: Livre

Agendamento programa educativo: 61. 3316.5221

Conheça duas obras que integram a exposição:

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O Pensador

Auguste Rodin frequentemente é considerado o pai da escultura moderna, mas ele jamais se propôs a combater os mestres clássicos, embora a marca de seu trabalho artístico seja uma originalidade ímpar e um olhar apaixonado sobre a arte de fazer brotar vida e emoções na fria pedra.

Rodin iniciou sua carreira trabalhando em ateliês de escultores mais conhecidos e demorou a ter seu talento reconhecido. Isso só veio a ocorrer em 1880, depois que Carrier-Belleuse – diretor de arte da renomada  fábrica de porcelana de Sèvres – ofereceu a Rodin um emprego como designer. Seus vasos e ornamentos trouxeram fama à fábrica e reconhecimento da comunidade artística.

Finalmente ele foi convidado para o Salon de Paris. Em 1900, já era um artista de renome internacional, com vasta clientela e forte reconhecimento.

Entre as  obras mais célebres de Rodin estão O Beijo, que faz parte de uma série de esculturas realizadas para a Porta do Inferno, do Museu de Artes Decorativas de Paris, e atualmente está no Museu Rodin; e  O Pensador, da mesma série.

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Camille Claudel

Rodin teve como assistente a escultora Camille Claudel, cujo talento rivalizava com o dele, e com quem teve uma tumultuada relação afetiva. Os problemas psiquiátricos da escultora se agravaram com a intensidade do relacionamento e ela foi internada em um manicômio.

Em Paris, a casa onde o artista viveu foi transformada em museu dedicado às suas obras: o Musée Rodin. Nos jardins, um conjunto de esculturas, entre as quais a Porta do Inferno e uma série de peças independentes  que compunham a obra, como é o caso de O pensador e As Três Sombras.

Veja, abaixo, imagens do prédio e dos jardins do Museu Rodin, nas fotos de Sônia Zaghetto.

 o pensamento de Rodin nas  entrevistas  a Paul Gsell

Durante toda a sua vida, Rodin escreveu muito pouco sobre arte. Entre os textos mais reveladores de suas ideias neste campo estão os textos do escritor francês Paul Gsell. As entrevistas de Gsell com Rodin, foram reunidas no livro L’Art, editado em português pela Nova Fronteira sob o título A Arte, conversas com Paul Gsell. Dele extraímos as frases abaixo, que são uma boa introdução ao pensamento de Auguste Rodin sobre a arte. Para ler a íntegra do livro L’Art, em francês, clique aqui. Clique aqui para ler em português.

A arte é a contemplação. É o prazer do espírito que penetra na natureza e aí adivinha o espírito de que ela própria é animada. É a alegria da inteligência que vê o universo com clareza e o recria iluminando-o com a consciência. A arte é a missão mais sublime do homem, porque é o exercício do pensamento que procura compreender e fazer compreender o mundo.

Mas hoje em dia a humanidade acredita que pode prescindir da arte. Os homens não querem mais meditar, contemplar, sonhar: querem ter apenas prazer físico. As verdades mais altas e profundas lhes são indiferentes: basta-lhes satisfazer seus apetites corporais. A humanidade de hoje é bestial: não sabe o que fazer com seus artistas.

A arte é também o gosto. Em todos os objetos que um artista modela, ela é o reflexo do seu coração. É o sorriso da alma humana sobre a casa ou sobre o mobiliário… É o encanto do pensamento e do sentimento incorporado a tudo o que serve aos homens. Mas quantos entre nossos contemporâneos sentem a necessidade de morar ou mobiliar a casa com gosto? Antigamente, na velha França, a arte estava em tudo. Os mais humildes burgueses, até mesmo os camponeses, só faziam uso dos objetos bonitos de se ver. Suas cadeiras, mesas, panelas e jarros eram lindos. Hoje a arte está banida da vida cotidiana. O que é útil – segundo se diz – não tem necessidade de ser belo. Tudo é feito e fabricado à pressa e sem graça por máquinas estúpidas. Ah! Meu caro Gsell, você quer anotar as divagações de um artista. Deixe-me olhá-lo: você é um homem verdadeiramente extraordinário!

 

  A CARNE DA ESCULTURA

Uma tarde em que eu viera visitar Rodin no seu ateliê, a noite caiu muito depressa enquanto conversávamos.

- Você já contemplou uma estátua antiga à luz da lâmpada?, perguntou-me subitamente meu anfitrião.

- Palavra que não!, disse-lhe com alguma surpresa.

- Eu o espanto e você parece considerar uma fantasia bizarra a idéia de contemplar escultura de outra forma que não à luz do dia. Certamente a luz natural é a que melhor permite admirar a obra no seu conjunto… Mas, espere um pouco!… Quero que você assista a uma espécie de experiência que sem dúvida o irá esclarecer…

Enquanto falava, ele acendeu uma lâmpada. Pegando-a, me conduziu até um torso de mármore que estava sobre um pedestal num canto do ateliê. Era uma deliciosa e pequena cópia antiga da Vênus de Medicis. Rodin a guardava ali para estimular sua própria inspiração durante o trabalho.

- Aproxime-se!, disse ele.

Iluminou o ventre com a luz rasante, mantendo a lâmpada sobre o flanco da estátua o mais perto possível.

- O que é que você está notando?, interrogou ele.

Num primeiro olhar, eu estava extraordinariamente impressionado com o que de súbito se me revelava. A luz dirigida daquele modo me fazia perceber sobre a superfície do mármore quantidades de saliências e depressões suaves de que jamais suspeitara antes. Disse isso a Rodin.

- Bom!, concordou ele.

Depois acrescentou:

- Olhe bem!

Ao mesmo tempo, fez girar muito suavemente a plataforma móvel sobre a qual estava a Vênus. Durante a rotação, eu continuei a notar sobre a forma geral do ventre uma série de imperceptíveis saliências. O que à primeira vista parecia simples era, na realidade, de uma complexidade sem igual. Confiei minhas observações ao mestre escultor. Ele balançava a cabeça sorrindo.

- Não é maravilhoso?, repetia ele. Concorde que você não esperava descobrir tantos detalhes. Repare!… Veja portanto as ondulações infinitas na linha que liga o ventre à coxa… Aprecie todas as curvas voluptuosas da anca… E agora, ali… sobre os rins, todas essas covinhas admiráveis.

Ele falava baixo com um ardor devoto. Curvava-se sobre o mármore como se tivesse ficado apaixonado por ele.

- É carne de verdade!, dizia.

E acrescentou radiante:

- Dir-se-ia petrificada com os beijos e as carícias!

Depois, subitamente, colocando a mão espalmada sobre a anca da estátua:

- Dá quase a impressão, ao apalpar este torso, de que sentimos seu calor.

SOBRE A ARTE GREGA

Paul GsellQue pensa você hoje das críticas que ordinariamente se fazem à arte grega? Diz-se – foi sobretudo a Escola acadêmica que difundiu esta opinião – que os Antigos, no seu culto pelo ideal, desprezavam a carne como vulgar e vil, e que se recusavam a reproduzir nas suas obras os mil detalhes da realidade material.

Rodin –  Sem dúvida, os gregos, com seu espírito profundamente lógico, acentuavam instintivamente o essencial. Eles revelavam os traços dominantes do tipo humano. Contudo, não suprimiam nunca o detalhe vivo. Contentaram-se em encobrir e fundir no conjunto. Como tinham paixão pelos ritmos calmos, atenuaram involuntariamente os relevos secundários que pudessem prejudicar a serenidade de um movimento; mas cuidaram de não os eliminar inteiramente. Jamais fizeram da mentira um método.

Cheios de amor e de respeito pela Natureza, representavam-na sempre tal como a viram. E em todas as ocasiões testemunharam apaixonadamente sua adoração pela carne. Porque é loucura acreditar que eles a tenham desdenhado. Em nenhum povo a beleza do corpo humano despertou uma ternura tão sensual. Um arrebatamento de êxtase parece vaguear em todas as formas que modelaram.

Assim se explica a incrível diferença entre a arte grega e o falso ideal acadêmico.

Enquanto entre os Antigos a generalização das linhas é uma totalização, uma resultante de todas as minúcias, a simplificação acadêmica é um empobrecimento, um vazio intumescimento. Enquanto a vida anima e aquece os músculos palpitantes das estátuas gregas, os bonecos inconscientes da arte acadêmica estão como que inteiriçados pela morte.

 MEDITAÇÃO

Num domingo pela manhã, estando com Rodin no seu ateliê, me detive diante da moldagem de uma de suas obras mais surpreendentes.  É uma bela e jovem mulher cujo corpo se torce dolorosamente.  Parece mergulhada num tormento misterioso.  Com a cabeça profundamente inclinada, lábios e pálpebras fechados.  Poder-se-ia pensar que dormia.  Mas a angústia dos seus traços revela a dramática contenção do seu espírito.

O que mais surpreende, ao observá-la, é que ela não tem pernas nem braços.  Parece que o escultor os quebrou, num acesso de desprazer consigo próprio.  Impossível não lamentar que uma figura tão poderosa esteja incompleta.  São deploráveis as cruéis amputações que ela sofreu.  Como eu testemunhasse, contra a vontade, esse sentimento perante meu anfitrião:

- Por que me censura?, diz ele com algum espanto.  Foi intencionalmente, acredite, que eu deixei minha estátua neste estado.  Ela representa a Meditação.  É por isso que ela não tem braços para agir, nem pernas para andar.  Você ainda não notou, com efeito, que a reflexão, quando levada muito longe, sugere argumentos tão plausíveis para as determinações mais opostas, que ela aconselha a inércia?

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