Marília Caputo: música e solidariedade

Marília Caputo: música e solidariedade

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Sonia Zaghetto

Beethoven, Bellini, Tosti e Tchaikovsky integram o programa da apresentação que dois brasileiros – os  paraenses Marília Caputo e Atalla Ayan – fazem no domingo, 23 de abril, na Holy Trinity Church, em Nova York. A música de altíssima qualidade alia-se à nobreza do gesto: a arrecadação será destinada à Fundação HSS/Centro Barbara Volcker, que faz pesquisas sobre doenças auto-imunes complexas.

Marília Caputo e Atalla Ayan têm uma carreira de sucesso no exterior.  Ela acumula um currículo respeitável como pianista e ele, tenor aclamado, acaba de se tornar a mais nova estrela do Metropolitan Opera House (leia aqui). Os dois, que têm se apresentado juntos no Brasil, fizeram seu debut em 2011, no Carnegie Hall.

Artelivre entrevistou Marília Caputo sobre os desafios da carreira de musicista no Brasil e no exterior.  A pianista, que iniciou os estudos no Conservatório Carlos Gomes, em Belém do Pará, atualmente se divide entre recitais, sua paixão pela música de câmara e a chefia do Departamento de Piano da Newark School of the Arts. Ali dá aula para jovens talentosos em um programa de bolsas de estudos financiada pelo New Jersey Performing Arts Center (NJPAc). No doutorado em Piano Performance na Rutgers University – Mason Gross School of the Arts ela pesquisa sobre a segunda sonata de Rachmaninoff, um trabalho que a levou de volta à Russia, onde estudou.

Foi um longo caminho percorrido desde que Marília decidiu deixar o Brasil. Os primeiros frutos chegaram logo. Na década de 80 foi uma das vencedoras do Young Artists Competition. No ano seguinte, participou de uma série de aulas públicas, gravadas para a TV Educativa no Steinway Hall, em Los Angeles. Um dos maiores elogios veio em 1984, quando o compositor e regente Francisco Mignone declarou sua admiração pela “qualidade de som que extraía do piano, coisa raríssima de ser encontrada, especialmente nos jovens pianistas da atualidade”‘. Mignone, que também era pianista, destacou o “invejável talento musical e o domínio assaz louvável da técnica pianística” de Marília. Após ter concluído o Mestrado no Conservatório Tchaikovsky, em Moscou, a pianista voltou a morar nos Estados Unidos. Em 1996 ela recebeu a bolsa “Virtuose” do Ministério da Cultura brasileiro e adquiriu o Performance Diploma do Peabody Conservatory de Baltimore, Maryland.. 

Dentre as várias apresentações da pianista, destacam-se os recitais feitos em 1995, na Alemanha, a convite da Fundação Brahms, onde se apresentou como solista e camerista ao lado do violinista Erich Binder, e em 1996, no Brasil, quanto tocou ao lado do violoncelista Antonio Del Claro, em apresentação com a orquestra da USP.

Marilia Caputo fez recitais em toda a Europa, América Latina e Estados Unidos tanto como solista ou em apresentações conjuntas cm o Quarteto de Cordas de São Paulo; com os cantores Reginaldo Pinheiro e Juliana Gondek; e com os violoncelistas Antonio Del Claro e Barbara Switalska. Participou do Festivais de Música de Pepperdine (EUA), de Música de Câmara do Pará (Brasil), do Summit Festival (EUA) e do Hawaii Performing Arts Festival (EUA). Já se apresentou no Weill Hall, em Nova Yor ; Em Moscou, no Salão Rachmaninoff, no Malie Sall e no Museu Glinka; em Salzburgo, no Mozarteum; e no Rio de Janeiro, na sala Cecilia Meireles.

Entrevista: Marília Caputo

BOB_7992Quais as qualidades que você considera essenciais em um pianista?

Em grandes músicos, não só pianistas, considero importantes a personalidade artística e a responsabilidade de irem além das notas, usando a técnica e virtuosismo como ferramenta, mas colocando sempre a música como o mais importante.

Você optou por estudar e morar no exterior. O que falta ao Brasil para formar um pianista de excelência?
O que aconteceu comigo é que na minha cidade natal (Belém) não havia, na época, curso superior de música. Em consequência, acabei ficando muito restrita às minhas escolhas na universidade. Depois de um curso (masterclasses) de uma semana com Nelson Freire e alguns conselhos dele, coincidentemente recebi um panfleto sobre um curso de uma semana com um professor russo na UFRJ (onde posteriormente seria feito um concurso para uma bolsa de estudos no Conservatório de Moscou). Resolvi me inscrever. Fui uma das laureadas desse concurso, ganhei uma bolsa integral e aos 19 anos de idade abandonei meu curso de Letras na Universidade Federal do Pará. Fui realizar meu sonho de estudar música no Conservatório Tchaikovsky, de Moscou. O que falta no Brasil é escola, disciplina e recursos pra que os  talentos possam ser desenvolvidos. Talento temos de sobra.
Alcançar altos padrões de performance exige anos de dedicação e estudo. Por favor, fale do tempo investido em sua carreira. Desde que idade você estuda piano? Qual sua rotina de exercícios? Você pratica todos os dias?
Eu brincava com o piano desde os 4 anos de idade, mas comecei realmente a estudar com professor quando tinha 8 anos. Eu estudo todos os dias, mesmo quando estou estou longe do piano. Tenho as horas que dedico literalmente ao piano, mas, mais que isso, estou sempre ligada mentalmente ao meu instrumento. Recentemente tenho tomado um gosto especial por misturar estudos com brincadeiras de improvisação. Uma vez, o pianista Vladimir Viardo me disse: você deve estudar com criatividade. Não se estuda piano só tocando piano. A experiência de tocar deve ser muito mais ampla. Seja criativa quando estudar. Ouse fazer coisas que você nunca faria em uma apresentação.
Ser um musicista de renome exige técnica refinada e igual sensibilidade. Que compositores lhe sensibilizam mais?
Eu amo Beethoven, Bach, Rachmaninoff, Chopin e Villa-Lobos.
Quem você considera sua inspiração profissional?
São várias pessoas e não só pianistas: Martha Argerich, Sviatoslav Richter, Nelson Freire, Jacqueline du Pre, Rudolph Nureyev,  Mikhail Baryshnikov, entre outros.

Concerto Beneficente

Antonia-GreeneO concerto de Marília Caputo e Atalla Ayan integra-se à iniciativa da família de Antonia Caroline Green de dar suporte às pesquisas sobre doenças auto-imunes.

Antonia morreu aos 27 anos, no dia 25 de outubro de 2013. Desde os 16 anos ela sofria os graves efeitos de uma rara doença auto-imune. À medida que os anos passavam, Antonia foi diagnosticada com pelo menos oito doenças diferentes, incluindo esclerose múltipla, lúpus, síndrome de Sjogren, distonia, dermatomiosite, bem como glaucoma e problemas cardíacos . Apesar de consultar os mais respeitados especialistas, ninguém foi capaz de fazer um diagnóstico conclusivo de sua doença.

Por sua própria iniciativa, Antonia foi levada ao Dr. Michael D. Lockshin, diretor do Barbara Volcker Center for Women and Rheumatic Diseases no Hospital for Special Surgery. O Dr. Lockshin e sua equipe forneceram aela os melhores cuidados médicos que até então havia recebido. A família também relata que a paciente encontrou no hospital uma fonte de grande compaixão e apoio amoroso.

Próximo à sua morte, Antonia disse aos pais uma frase que eles mantém como guia de suas ações em favor do centro de pesquisas: “Se a minha vida faz a diferença para outra pessoa, se a pesquisa sobre a minha doença pode ajudar outras pessoas com aflições semelhantes, tudo o que eu tive de passar terá valido a pena“. Em memória dessas palavras e em homenagem aos cuidados por ela recebidos, seus pais mantém uma página destinada a dar contribuições para a instituição.

Para conhecer a página e/ou contribuir, clique neste link. 

Clique aqui para comprar os ingressos para o concerto de Marília Caputo/Atalla Ayan.

 

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