Exposição Ex África em Brasília

Exposição Ex África em Brasília

A África contemporânea é o tema da exposição Ex África que o Centro Cultural Banco do Brasil realiza em  Brasília até o dia 21 de outubro. Mais de 90 obras apresentam um continente paradoxal, que exibe suas cores vibrantes, sua arte e suas feridas antigas e recentes. Tradição e modernidade, grandeza e drama  se encaram em esculturas, fotografias, instalações, performances, pinturas e vídeos assinados por 20 artistas. 
 
Os destaques são a instalação Non Orientable Paradise Lost, do ganês Ibrahim Mahama, no Pavilhão de Vidro do CCBB; os provocativos retratos do senegalês Omar Victor Diop; e a instalação Maqam, do egípcio Youssef Limoud. A eles se juntam as obras do fotógrafo e ativista zimbabuano Kudzanai Chiurai e de outros 15 artistas de oito países africanos, além de dois brasileiros: o carioca Arjan Martins e o brasiliense Dalton Paula, este último comparece com a série de sete pinturas Ex-Votos.

Em entrevista a Artelivre, Ibrahim Mahama explicou que sua instalação é construída com objetos de madeira coletados em Brasília e que remetem às caixas de engraxates que são assento, local em que se guarda materiais e servem como o próprio local de trabalho. O artista se debruça sobre objetos comuns, transformando-os em objeto de reflexão e crítica sobre acumulação nos espaços coletivos. Ele se motivou inicialmente pelo que via em Gana, sua terra natal, mas a crítica se estende e vale para qualquer cidade em que o acúmulo se torna opressivo e incômodo aos olhos. O que o público de Brasília verá não é um conjunto de materiais africanos. É tudo daqui mesmo e constitui um aspecto único da instalação: a cola de sapateiro, as caixas, sapatos velhos e jornais que se acumulam foram coletados nas ruas de Brasília. Ao ser desmontada a instalação, esse material se diluirá nos ciclos de reciclagem ou descarte – mas sua sombra permanecerá a incomodar.

Pedaços de materiais encontrados nas ruas de Brasília também compõem a porção principal de Maqam, trabalho premiado do egípcio Youssef Limoud que pode ser visto em uma das salas do subsolo do CCBB.

Artelivre, Limoud  observou que seu trabalho é uma dolorida reflexão sobre as consequências da primavera árabe, que transformou em escombros as cidades afetadas pelas guerras e conflitos que a ela se seguiram. “Maqam é uma palavra árabe com muitos significados: o lugar em que se vive, estado de espírito e uma das notas da escala musical árabe. A ideia básica do meu trabalho é mostrar as ruínas, que tem um significado simbólico para este tempo, particularmente no mundo árabe. Após a primavera árabe, tudo ficou devastado, O que acontece na Síria, Egito e Iêmen é uma destruição tanto no aspecto real e físico como no simbólico. Causam um estado de espírito em que tudo parece arruinado, gerando frustração, sonhos destruídos. Meu trabalho é sobre a vida em ruínas”, disse o artista, que hoje vive na Suíça,

Ex-diretor do Instituto Goethe em Lagos, na Nigéria, Alfons Hug explica que o conceito da mostra vem da frase Ex Africa semper aliquid novi (da África sempre há novidades a reportar), cunhada há mais de 2 mil anos pelo escritor romano Caio Plínio.

A exposição é dividida em quatro eixos: Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais.

Fortes críticas ao colonialismo e ao tráfico de escravos estão em Ecos da História, primeira parte da exposição. Nela, destaca-se a instalação Exchange for Life (Permuta pela Vida, em tradução livre) formada por objetos do tempo do comércio de escravos (algemas, ferros de marcar, moedas, mandados de captura), da artista nigeriana Ndidi Dike.
 
Este eixo inicial sugere uma reflexão amarga sobre a relação entre a pobreza, o desemprego, as recentes migrações e o período de escravização dos africanos. As imposições da cultura religiosa ocidental e a herança colonial estão bem evidenciadaa na série de fotografias de Leonce Raphael Agbodjelou, do Benim. Em parte de seu conjunto de obras, ele evoca o Code Noir, decreto com o qual a administração colonial francesa da África Ocidental regulava a escravatura.
 
Paisagens desoladoras, ordem e caos, modernidade e ruínas. Esses e tantos outros contrastes das metrópoles africanas estão nas obras de O Drama Urbano. Um dos destaques é a videoinstalação Ponte City, nome de um arranha-céu no centro de Joanesburgo. Assinada pelos artistas Mikhael Subotsky e Patrick Waterhouse, a obra é composta por 12 janelas digitais que simulam a vista do edifício marcado por histórias de decadência.
 
Karo Akpokiere, nascido em Lagos (maior cidade da Nigéria e uma das maiores do mundo) assina ilustrações, com fortes elementos da cultura pop, que fazem uma sátira aos anúncios publicitários que invadem a megalópole e refletem modismos, o mercado e suas desigualdades, a política e negociatas de toda natureza.
 
A força expressiva da estética corporal está nas fotografias, vídeos e instalações de Corpos e Retratos, eixo que traz os impactantes autorretratos do senegalês Omar Victor Diop . São fotografias de grande apelo estético que se assemelham a pinturas, com ares ironicamente pomposos e que remetem a notáveis africanos que atuaram na Europa entre os séculos XVI e  XIX. Este eixo também é integrado pela série Hairdo Revolution (revolução do penteado), fotografias em preto e branco do nigeriano J. D. Okhai Ojeikere exibindo cabelos trançados que lembram elaboradas esculturas.
 
Outro destaque do eixo Corpos e Retratos é a arte multifacetada do angolano Nástio Mosquito. Por meio de vídeos, performances, música experimental, instalações e poesia, o artista levanta questões em torno da fé, identidade, herança colonial, entre outros temas. “Para onde queremos ir? O que queremos construir?”, ele pergunta. “Não seja cool, seja relevante. E se conseguir ser cool de maneira relevante, melhor ainda”, diz. Na mostra ele apresenta uma videoinstalação da música Hilário.
 
Galerias musicais
 
Do afrobeat de Fela Kuti, ao pop nigeriano, Explosões Musicais transforma uma das galerias de “Ex Africa” no “Clube Lagos”. Poder, sexo, riqueza e religião são temas habituais da música africana e ganham relevância nesta sala onde os clichês da world music dão lugar à autenticidade do Naija Pop. O New Afrika Shrine, de Femi Kuti, muito popular na cena nigeriana, também está entre os destaques.
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CCBB Brasília, de terça a domingo, entrada gratuita.
Até 21 de outubro. 
 

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